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sábado, 6 de fevereiro de 2016

A Verdadeira Adoração - A. W. Pink



Uma das falácias mais solene e destruidora de almas nestes dias é a idéia de que almas não-regeneradas são capazes de adorar a Deus. Provavelmente a razão maior pela qual este erro tem ganho tanto espaço deve-se à imensa ignorância espalhada acerca da

Natureza Real da Verdadeira Adoração

As pessoas imaginam que, se elas freqüentarem um culto religioso, forem reverentes em seu comportamento, participarem do período de hinos, ouvirem respeitosamente o pregador, e contribuírem com ofertas, então realmente adoraram a Deus. Pobres almas iludidas... um engano que é levado adiante pelo falso-profeta e explorador do dia. Contra toda esta ilusão, temos as palavras de Cristo em João 4.24, que são surpreendentes em seu caráter restritivo e pungente: “Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade”.

A Vaidade da Falsa Adoração

“Bem profetizou Isaías acerca de vós, hipócritas, como está escrito: Este povo honra-me com os lábios, mas o seu coração está longe de mim; em vão, porém, me honram, ensinando doutrinas que são mandamentos de homens” (Marcos 7.6,7). Estas palavras solenes foram ditas pelo Senhor Jesus aos escribas e fariseus. Eles vieram a Ele com a acusação de que Seus discípulos não se conformavam às suas tradições e práticas em relação à pureza e lavagens cerimoniais. Em Sua resposta, Cristo expôs a inutilidade da religião deles...

Estes escribas e fariseus estavam levantando a questão do “lavar de mãos” cerimonial, enquanto seus corações permaneciam sujos perante Deus. Oh, querido leitor, as tradições dos antigos podem ser diligentemente seguidas, suas ordenanças religiosas observadas estritamente, suas doutrinas devocionalmente guardadas, e ainda assim a consciência jamais foi sondada na presença de Deus quanto a questão do pecado. O fato é que a religião é uma das maiores obstruções para a verdade de Deus abençoar as almas dos homens.

A verdade de Deus nos leva a um nível em que Deus e o homem são tão distantes quanto o pecado é da santidade: portanto, a primeira grande necessidade do homem é purificação e reconciliação. Mas a “religião” atua na suposição de que a depravação e culpa humanas podem ter relacionamento com Deus, podem aproximar-se dEle, e mais, adorá-lO e serví-lO. Por todo o mundo, a religião humana é baseada na falácia de que o homem pecador e caído pode ter um relacionamento com Deus. A religião é um dos principais meios usados por Satanás para cegar a humanidade quanto à sua verdadeira e terrível condição. É o anestésico do diabo para fazer pecadores perdidos sentirem-se confortáveis e tranqüilos em seu vil afastamento de Deus. A religião esconde deles Deus em Seu verdadeiro caráter – um Deus santo que é “tão puro de olhos, que não podes ver o mal, e a opressão não podes contemplar” (Hebreus 1.13).

Teremos muito esclarecimento em relação a este ponto de nosso assunto se considerarmos atentamente o abominável incidente registrado em Mateus 4.8,9: “Novamente o transportou o diabo a um monte muito alto; e mostrou-lhe todos os reinos do mundo, e a glória deles. E disse-lhe: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”.O diabo busca adoração. Quão poucos na cristandade estão alertas quanto a isto, ou percebem que as principais atividades do inimigo se mantêm na esfera religiosa!

Escute o testemunho de Deuteronômio 32.17 – ”Sacrifícios ofereceram aos demônios, não a Deus; aos deuses que não conheceram”. Isto se refere a Israel em seus primeiros dias de apostasia. Escute agora I Coríntios 10.20 “Antes digo que as coisas que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus”. Que luz isto nos lança sobre a idolatria e abominações do paganismo! Ouça mais uma vez II Coríntios 4.4 “Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus”. Isto significa queSatanás é o inspirador e dirigente da religião do mundo. Sim, ele busca adoração, e é o promotor principal de toda falsa adoração.

A Exclusividade da Verdadeira Adoração

“Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade.” (João 4.24). Este “importa” é definitivo; não existe alternativa, não há escolha neste assunto. Não é a primeira vez que temos esta palavra profundamente enfática no Evangelho de João. Existem dois versículos notáveis em que isto ocorre anteriormente. “Não te maravilhes de te ter dito:Necessário vos é nascer de novo” (João 3.7). “E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do homem seja levantado” (João 3.14). Cada uma dessas três “necessidades” é igualmente importante e inequívoca. (N.T.: Em inglês a palavra sempre é “must”).

A primeira passagem faz referência a Deus Espírito, pois é Ele quem regenera. A segunda refere-se à obra de Deus Filho, pois foi Ele quem fez a expiação pelo pecado. A terceira faz referência a Deus Pai, pois é Ele quem procura adoradores (João 4.23). Esta estrutura não pode ser alterada:apenas aqueles que nasceram do Espírito, que repousam sob a obra expiatória de Cristo, que podem adorar o Pai.

Citando novamente as palavras de Cristo à religiosidade de Seus dias, “Este povo honra-me com os lábios, Mas o seu coração está longe de mim; Em vão, porém, me honram” (Marcos 7.6,7); Ah, meu leitor, o mundano pode ser um filantropo generoso, um religioso sincero, um denominacionalista zeloso, um membro de igreja devoto, um assíduo participante da comunhão, ainda assim ele não é mais capaz de adorar a Deus que um mudo é de cantar. Caim tentou e falhou. Ele não foi irreligioso. Ele “trouxe do fruto da terra uma oferta ao SENHOR.” (Gênesis 4.3), mas “Mas para Caim e para a sua oferta [Deus] não atentou”. Por quê? Porque ele se recusou a aceitar sua condição incapaz e sua necessidade de um sacrifício expiatório.

Para se adorar a Deus, Deus deve ser conhecido: e Ele não pode ser conhecido a não ser por Cristo. Muito pode ser ensinado e crido sobre um “Deus” teórico ou teológico, mas Ele não pode ser conhecido à parte do Senhor Jesus. Ele disse “Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim.” (João 14.6). Portanto, é uma crença artificial pecaminosa, uma ilusão fatal, uma farsa maligna, levar pessoas não-regeneradas a imaginarem que elas podem adorar a Deus. Enquanto o pecador permanece longe de Cristo, ele é “inimigo” de Deus, um filho da ira. Como então poderia ele adorar a Deus? Enquanto permanece em seu estado não-regenerado ele está “morto em seus pecados e delitos”. Como, então, ele pode adorar a Deus?

O que foi dito acima é quase universalmente repudiado hoje, e repudiado em nome da Religião. E, repetimos, religião é o principal instrumento usado pelo diabo para enganar almas, ao insistir – não importa que seja a “religião budista” ou a “religião cristã” – que o homem, ainda em seus pecados, pode manter um relacionamento e aproximar-se do Deus três vezes santo. Negar essa idéia é provocar a hostilidade e ser censurado a ponto de ser uma oposição a todos os meros religiosos. Sim, isto foi muito do que levou Cristo a ser odiado impiedosamente pelos religiosos de Seus dias. Ele refutou suas afirmações, expôs sua hipocrisia, e então provocou seu ódio.

Aos “príncipes dos sacerdotes e anciões do povo” (Mateus 21.23), Cristo disse “os publicanos e as meretrizes entram adiante de vós no reino de Deus” (Mateus 21.31) e no final de seu discurso é dito que estavam “pretendendo prendê-lo” (v. 46). Eles atentaram para coisas externas, mas seu estado interno foi negligenciado. E por que os “publicanos e fariseus” entraram no reino de Deus adiante deles? Porque nenhuma pretensão religiosa obstruiu seu caminho; eles não tinham uma profissão de justiça própria para manter a qualquer custo, nem uma reputação piedosa para zelar. Pela pregação da Palavra, foram convencidos de seu estado de perdição, então colocaram-se no devido lugar diante de Deus e foram salvos. Algo que só pode acontecer com adoradores

A Natureza da Verdadeira Adoração

“Deus é Espírito, e importa que os que o adoram o adorem em espírito e em verdade” (João 4.24). Adorar “em espírito” contrastava com os ritos humanos e cerimônias impostas do Judaísmo. Adorar “em verdade” se opunha às superstições e ilusões idólatras dos perdidos. Adorar a Deus “em espírito e em verdade” quer dizer adorar de uma maneira apropriada para a revelação plena e final que Deus fez de Si mesmo em Cristo. Significa adorar espiritualmente e verdadeiramente. Significa dar a Ele o louvor proveniente de um entendimento iluminado e o amor de um coração regenerado.

Adorar “em espírito e em verdade” se opõe à adoração carnal que é externa e espetacular. Exclui toda adoração a Deus com os sentidos. Nós não podemos adorá-lO, que é “Espírito”, observando uma arquitetura linda e janelas de vitrais, ouvindo as notas de um órgão caro ou sentindo o aroma doce de incenso. Nós não podemos adorar a Deus com nossos olhos e ouvidos, ou nariz e mãos, porque eles são “carne” e não “espírito”. “Importa que adorem em espírito e em verdade” exclui tudo aquilo que é do homem natural.

Adorar “em espírito e em verdade” exclui toda adoração emocional. A alma é o centro das emoções, e muitas das supostas adorações do Cristianismo atual são apenas emocionais. Anedotas tocantes, apelos entusiastas, oratória comovente de uma personalidade religiosa, tudo é calculado para produzir isto. Hinos lindos cantados por um coro bem ensaiado, trabalhados de uma forma que nos leva às lágrimas ou a êxtases de alegria. Isto pode excitar a alma, mas não pode, nem jamais afetará o homem interior.

A verdadeira adoração é a adoração de um povo redimido, unido ao próprio Deus. Os não-regenerados entendem “adoração” como uma observância daquilo que Deus requer deles, e que não dá a eles nenhuma alegria como eles procuram demonstrar. Muito diferente disto é o que acontece com aqueles que nasceram do alto e foram redimidos pelo sangue precioso. A primeira vez que a palavra “redimido” ocorre na Escritura é em Êxodo 15 , e é lá também, pela primeira vez, que vemos um povo cantando, adorando e glorificando a Deus. Lá, às margens do Mar Vermelho, esta Nação que foi tirada da casa da servidão e liberta de todos os seus inimigos une-se em louvor a Jeová. (N.T.: Na maioria das versões em português, a palavra em Êxodo 15 é “libertado”; a NVI se aproxima mais ao usar “resgatado”).

“Adoração” é a nova natureza no crente levando-o à ação, voltando-se à sua divina e prazerosa Origem. É aquilo que é “espírito” (João 3.6) voltando-se a Ele, que é “Espírito”. É aquilo que é “feitura” de Cristo (Efésios 2.10) voltando-se a Ele, que nos recriou. São os filhos, de forma espontânea e grata, voltando-se em amor a seu Pai. É o novo coração gritando “Graças a Deus pelo seu dom inefável!” (II Coríntios 9.15). São os pecadores, purificados pelo sangue, exclamando “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Efésios 1.3). Isto é adoração; assegurada de nossa aceitação no Amado, adorando a Deus porque Ele fez Cristo estar em nós, e porque Ele fez nós estarmos em Cristo.

É digno de nossa atenção especial observar que a única vez em que o Senhor Jesus chegou a falar sobre o assunto da Adoração foi em João 4. Mateus 4.9 e Marcos 7.6,7 são citações do Antigo Testamento. Isto certamente tocará nossos corações se percebermos que a única ocasião em que Cristo fez alguma observação direta e pessoa quanto à adoração foi quando Ele conversava, não com um homem religioso como Nicodemos, ou mesmo com Seus apóstolos, mas com uma mulher, uma adúltera, uma Samaritana, uma quase pagã! Verdadeiramente os caminhos de Deus são diferentes dos nossos.

A esta pobre mulher nosso Senhor bendito declarou “Mas a hora vem, e agora é, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e em verdade; porque o Pai procura a tais que assim o adorem” (João 4.23). E como o Pai “procura” adoradores? O contexto inteiro não nos dá a resposta? No início do capítulo, o Filho de Deus inicia uma jornada (vv. 3 e 4). Seu objetivo era buscar uma de Suas ovelhas perdidas, revelar-Se a uma alma que não O conhecia, livrar a mulher dos desejos da carne, e encher seu coração com Sua graça suficiente, e isto, para que ela pudesse encontrar a infinitude do amor divino e dar, em retorno, este louvor e adoração que apenas um pecador salvo pode dar.

Quem pode não perceber que, na jornada que Ele tomou a Sicar com o objetivo de encontrar esta alma desolada e ganhá-la para Si próprio, temos uma bendita sombra da jornada ainda maior que o Filho de Deus tomou – deixar a paz, o gozo e a luz dos céus, descer a este mundo de conflito, escuridão e desventura. Ele veio aqui procurar pecadores, não apenas salvá-los do pecado e da morte, mas concedê-los beber e deleitar-se com o amor de Deus como nenhum anjo pôde prová-lo; que, de corações transbordantes com a consciência de sua dívida com o Salvador, e a gratidão ao Pai por ter entregue Seu Filho amado a eles, ao perceber e aceitar Sua excelência suprema, possam expressar-se diante dEle como aroma suave de louvor.Isto é adoração, e o reconhecimento do amor irresistível de Deus e o sangue redentor de Cristo são a causa disto.

Uma dos mais abençoados e belos exemplos registrados no Novo Testamento do que a adoração é se encontra em João 12.2,3. “Fizeram-lhe, pois, ali uma ceia, e Marta servia, e Lázaro era um dos que estavam à mesa com ele. Então Maria, tomando um arrátel de ungüento de nardo puro, de muito preço, ungiu os pés de Jesus, e enxugou-lhe os pés com os seus cabelos; e encheu-se a casa do cheiro do ungüento”. Como alguém já disse, “ela não veio ouvir um sermão, apesar do Príncipe dos Pregadores estar ali. Sentar-se aos Seus pés e ouvir Sua palavra não era naquele momento seu objetivo, não importa quão abençoador isto seja em sua devida circunstância. Ela não veio para encontrar os santos, entretanto preciosos santos estavam ali; nem a comunhão com eles; mesmo sendo uma benção, naquele instante não era seu objetivo. Ela não procurou, depois de uma semana de trabalho, por descanso; mesmo sabendo bem dos abençoados campos de descanso que havia nEle. Não, ela veio para pôr diante dEle aquilo que ela tinha ajuntado por tanto tempo, aquilo que era a mais valiosa de suas posses terrenas. Ela não pensou como Simão, o leproso, sentado agora como um homem limpo; ela foi além ds apóstolos; e, então, também, de Marta e Lázaro, irmã e irmão na carne e em Cristo. O Senhor Jesus preencheu seus pensamentos: Ele havia ganho o coração de Maria e agora tomou todos os seus sentimentos. Ela não tinha olhos para ninguém além dEe. Adoração e homenagem eram, naquele momento, seu único pensamento – extravasar a devoção de seu coração diante dEle”. Isto é adoração.

O assunto da adoração é muito importante, ainda asim é um dos temas que temos as idéias mais vagas. Lemos em Mateus 2 que os magos levavam seus “tesouros” para presentear a Cristo (v. 11). Eles deram ofertas caras. Isto é adoração. Não é vir para receber dEle, mas render-se diante dEle. É a expressão de amor do coração. Oh, que possamos trazer ao Salvador “ouro, incenso e mirra”, isto é, adorá-lO por causa de Sua glória divina, Sua perfeição moral e Sua morte de aroma suave...

O alvo da adoração é Deus; e o inspirador da adoração é Deus. Só pode satisfazer a Deus aquilo Ele tenha por Si mesmo produzido. “SENHOR... tu és o que fizeste em nós todas as nossas obras” (Isaías 26.13). É somente quando o Cordeiro é exaltado no poder do Espírito que os santos ão levados a cantar “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador” (Lucas 1.46,47). A ausência generalizada e concupiscente desta adoração que é “em espírito e em verdade” deve-se a uma ordem de coisas sobre as quais o Espírito de Deus não guia, onde o mundo, a carne e o diabo têm toda liberdade. Mas mesmo em círculos onde o mundanismo, em suas formas mais vis, nao é tolerado, e em que a ortodoxia é tolerada, e onde a ortodoxia ainda é preservada, existe, quase sempre, uma notável ausência desta unção, esta liberdade, esta alegria, que são inseparáveis do espírito da verdadeira adoração. Por que isto acontece? Por que em algumas igrejas, grupos familiares, uniões masculinas, onde a mensagem da Palavra de Deus é ministrada, nós agora mui raramente encontramos este transbordar do coração, estes manifestações espontâneas de adoração, estes “sacrifícios de louvor”, que deveriam ser achados entre o povo de Deus? Ah, a resposta é difícil de encontrar? É porque há um espírito entristecido neste meio. Esta, meus amigos, é a razão pela qual hoje existem tão poucos ministérios de Cristo vivos, confortadores e que produzem adoração.

Obstáculos à Adoração

O que é adoração? Louvor? Sim, e mais; é um amor fluindo de um coração que está completamente seguro da excelência dAquele diante de quem o coração ajoelha-se, expressando sua mais profunda gratidão por Seu dom inefável. Aqui está claramente algo que é o primeiro obstáculo à adoração de um filho de Deus – a falta de segurança. Quanto mais eu retenho dúvidas quanto à minha aceitação em Cristo, mais eu permanecerei em um estado de incerteza em relação à expiação por meus pecados no Calvário. É impossível que eu, realmente, adore e louve a Ele por Sua morte por mim; certamente não poderei dizer “eu sou do meu Amado e Ele é meu”. É uma das ferramentas favoritas do inimigo para manter os cristãos no “Cativeiro da Rejeição”, já que seu objetivo é que Cristo não receba dos cristãos a honra de seus corações...

Outro grande obstáculo à adoração é a falha em julgar a nós mesmos pela Sagrada Palavra de Deus. Os sacerdotes de Israel não podiam ir de qualquer jeito até o altar de bronze no átrio exterior do tabernáculo. Era necessário cuidar que, antes que entrassem no Santo Lugar, para queimar o incenso, eles se lavassem na pia. Aproximar-se da pia de bronze nos fala do rigoroso julgamento do crente sobre si mesmo (cf. I Coríntios 11.31). O uso de sua água aponta para a aplicação da Palavra a todos os nosso atos e caminhos.

Agora, assim como os filhos de Arão estavam debaixo de pena de morte (Êxodo 30.20) se não se lavassem na pia antes de entrarem no Santo Lugar para queimar incenso, também o cristão hoje deve ter as impurezas do caminho removidas antes que ele possa aproximar apropriadamente de Deus como um adorador. Falhar neste ponto leva à morte, isto é, eu continuo sob o poder contaminador das coisas mortas. As impurezas do caminho são resultado de minha caminhada através de um mundo de “separados da vida de Deus” (Efésios 4.18). Se isto não for removido, então eu continuo debaixo do poder da morte num sentido espiritual, e a adoração se torna impossível. Isto nos é demonstrado plenamente em João 13, em que o Senhor diz a Pedro “Se eu te não lavar, não tens parte comigo”. Quantos são os cristãos que, ao falharem em não colocar seus pés nas mãos de Cristo para limpeza, são impedidos de exercer suas funções e privilégios sacerdotais.

Um outro obstáculo fatal à adoração precisa ser mencionado, e este é o Mundanismo, que significa as coisas do mundo obtendo lugar nos desejos do cristão, seus caminhos tornando-se “conformados com este mundo” (Romanos 12.2). Um exemplo disto é encontrado na história de Abraão. Quando Deus o chamou para deixar a Caldéia e ir para Canaã, ele abriu uma concessão: foi apenas até Harã (Gênesis 11.31, Atos 7.4) e habitou ali. Harã foi uma casa à meio-caminho, uma área inóspita entre ela e as bordas de Canaã. Mais tarde Abraão atendeu completamente ao chamado de Deus e entrou em Canaã, e “edificou ali um altar (algo que fala de adoração) ao SENHOR” (Gênesis 12.7). Mas não existe menção alguma de ele construir qualquer “altar” durante os anos em que viveu em Harã! Oh, quantos filhos de Deus hoje estão comprometidos, habitando numa casa no meio do caminho, e como conseqüência, eles não são adoradores. Oh, que o Espírito de Deus possa trabalhar de tal forma sobre e dentro de nós que o idioma das nossas vidas, assim como dos nossos corações e lábios, possa ser “Digno é o Cordeiro” – digno de uma consagração do coração por completo, digno de uma devoção imensa, digno deste amor que é manifestado por guardar Seus mandamentos, digno de uma adoração verdadeira. Que seja assim, por amor de Seu nome.

Por A. W. Pink

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A Vontade de Deus



Por Arthur W. Pink

Ao tratar da Vontade de Deus alguns teólogos têm diferenciado entre Sua vontade decretiva e Sua vontade permissiva, insistindo que há certas coisas que Deus tem positivamente pré-ordenado, mas outras coisas que Ele meramente tolera existir ou acontecer. Mas tal distinção não é uma distinção de maneira alguma, na medida em que Deus somente permite o que está de acordo com Sua vontade. Nenhuma distinção teria sido inventada, tivesse esses teólogos discernido que Deus pode ter decretado a existência e atividades do pecado sem Ele mesmo ser o Autor do pecado. Pessoalmente, nós preferimos adotar a distinção feita pelos antigos Calvinistas entre a vontade secreta e revelada de Deus, ou, para expressar de uma outra forma, Sua vontade dispositiva e preceptiva.

A vontade revelado de Deus é feita conhecida em Sua Palavra, mas Sua vontade secreta são Seus próprios conselhos encobertos. A vontade revelada de Deus é o definidor de nosso dever e o padrão de nossa responsabilidade. A primária e básica razão pela qual eu devo seguir certo curso ou fazer certa coisa é por causa da vontade de Deus, a Sua vontade sendo claramente definida para mim em Sua Palavra. Que eu não deveria seguir um certo curso, que eu devo me abster de fazer certas coisas, é porque elas são contrárias à vontade revelada de Deus. Mas suponha que eu desobedeça a Palavra de Deus, então, eu não contrario Sua vontade? E se é assim, como pode ainda ser verdade que a vontade de Deus sempre é feita e Seu conselho consumado todas as vezes? Tais questões fazem evidente a necessidade de se defender uma distinção aqui. A vontade revelada de Deus é freqüentemente contrariada, mas Sua vontade secreta nunca é frustrada. Que é legítimo fazermos tal distinção concernente à vontade de Deus, é clara a partir das Escrituras. Tome esta duas passagens: "Porque esta é a vontade de Deus, a saber, a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição" (1 Tessalonicenses 4:3); "Dir-me-ás então. Por que se queixa ele ainda? Pois, quem resiste à sua vontade?" (Romanos 9:19). Pode um leitor pensativo declara que a "vontade" de Deus tem precisamente o mesmo significado em ambas dessas passagens? Nós seguramente esperamos que não. A primeira passagem refere-se à vontade revelada de Deus, a última à Sua vontade secreta. A primeira passagem concerne a nosso dever, a última declara que o propósito secreto de Deus é imutável e deve acontecer não obstante a insubordinação das Suas criaturas. A vontade revelada de Deus nunca é perfeitamente ou completamente realizada por alguém de nós, mas Sua vontade secreta nunca falha na consumação até mesmo no mais minucioso detalhe. Sua vontade secreta concerne principalmente a eventos futuros; Sua vontade revelada, nosso dever presente: uma tem que ver com Seu irresistível propósito, o outro com Seu agrado manifestado: uma é elaborada sobre nós e realizada através de nós, a outra é para feita por nós.

A vontade secreta de Deus é Seu eterno, imutável propósito concernente a todas as coisas que Ele fez, para produzir certos meios para seus fins apontados: disto Deus declara explicitamente: "Meu conselho subsistirá, e farei toda Minha vontade" (Isaías 46:10). Esta é a absoluta, eficaz vontade de Deus, sempre efetuada, sempre realizada. A vontade revelada de Deus contêm não Seu propósito e decreto, mas nosso dever, - não o que Ele fará de acordo com Seu eterno conselho, mas o que nós deveríamos faze se quiséssemos agradá-LO, e isto é expresso nos preceitos e promessas de Sua Palavra. O que quer que Deus tenha determinado consigo mesmo, seja para Ele próprio fazer, ou para fazer pelos outros, ou tolerar que seja feito, enquanto isto está em Seu próprio seio, e não foi feito conhecido por algum evento na providência, ou por preceito, ou por profecia, é Sua vontade secreta. Tais são as coisas profundas de Deus, os pensamentos de Seu coração, os conselhos de Sua mente, que são impenetráveis para todas criaturas. Mas quando estas coisas são feitas conhecidas, elas tornam-se Sua vontade revelada: tal é quase todo o livro do Apocalipse, no qual Deus tem feito conhecido a nós "coisas que brevemente devem acontecer" (Apocalipse 1:1 - "deve" porque Ele eternamente propôs que deveriam acontecer).

Tem sido objetado pelos teólogos Arminianos que a divisão da vontade de Deus em secreta e revelada é insustentável, pois ela faz com que Deus tenha duas vontades diferentes, uma oposta a outra. Mas isto é um engano, devido a falha deles em ver que a vontade secreta e revelada de Deus dizem respeito a objetos inteiramente diferentes. Se Deus requeresse e proibisse a coisa, ou se Ele decretasse que a mesma coisa aconteceria ou não, então Sua vontade secreta e revelada seria contraditória e sem propósito. Se aqueles que objetam à vontade secreta e revelada de Deus como sendo inconsistentes, fizessem a mesma distinção neste caso que eles fazem em muitos outros casos, a aparente inconsistência imediatamente desapareceria. Quão freqüentemente os homens traçam uma astuta distinção entre o que é desejável em sua própria natureza, e o que não é desejável considerando todas as coisas. Por exemplo, o pai carinhoso não deseja simplesmente considerar punir seu filho ofensivo, mas, considerando todas as coisas, ele sabe que este é o seu dever obrigatório, e assim corrige seu filho. E embora ele conte ao seu filho que ele não deseja castigá-lo, mas que ele está certo que isto é o melhor ao fazer considerando todas as coisas, então um filho inteligente verá que não há inconsistência entre o que o pai diz e faz. Exatamente assim o Criador Todo-sábio pode consistentemente decretar acontecer coisas que Ele odeia, proibir e condenar. Deus escolhe que algumas coisas existem que Ele odeia completamente (na intrínseca natureza delas), e Ele também escolhe que algumas coisas, todavia não existam, as quais Ele ama perfeitamente (na intrínseca natureza delas). Por exemplo: Ele ordenou que Faraó deixasse Seu povo ir, porque isso era justo na natureza das coisas, todavia, Ele secretamente havia declarado que Faraó não deveria deixar o Seu povo ir, não porque era justo em Faraó recusar, mas porque era melhor considerando todas as coisas que ele não os deixasse ir - isto é, melhor porque favoreceu um propósito mais amplo de Deus.

Novamente; Deus nos manda sermos perfeitamente santos nesta vida (Mateus 5:48), porque isto é justo na natureza das coisas, mas Ele decretou que nenhum homem será perfeitamente santo nesta vida, porque é melhor, considerando todas as coisas, que ninguém seja perfeitamente santo (experimentalmente) antes de deixar este mundo. Santidade é uma coisa, o acontecimento da santidade é outra; assim, pecado é uma coisa, o acontecimento do pecado é outra. Quando Deus requer santidade, Sua vontade preceptiva ou revelada considera a natureza ou excelência moral da santidade; mas quando Ele decreta que a santidade não ocorra (completa e perfeitamente), Sua vontade secreta ou decretiva considera somente o evento de que ela não ocorre. Assim, novamente, quando Deus proíbe o pecado, Sua vontade preceptiva ou revelada considera somente a natureza ou o mal moral do pecado; mas quando Ele decreta que o pecado ocorrerá, Sua vontade secreta considera somente sua real ocorrência para servir o Seu bom propósito. Portanto, a vontade secreta e revelada de Deus considera objetos inteiramente diferentes.

A vontade do decreto de Deus não é a Sua vontade no mesmo sentido como Sua vontade de mandamento é. Portanto, não há dificuldade em supor que uma possa ser contrária à outra. Sua vontade, em ambos sentidos, é Sua inclinação. Tudo que concerne a Sua vontade revelada é perfeitamente de acordo com Sua natureza, como quando Ele ordena amor, obediência, e serviço de Suas criaturas. Mas o que concerne a Sua vontade secreta tem em vista Seu fim supremo, para o qual todas as coisas estão agora operando. Portanto, Ele decreta a entrada de pecado no Seu universo, embora Sua própria natureza santa odeie todo pecado com infinita repulsa, todavia, porque este é um dos meios pelos quais Ele apontou o fim para ser alcançado, Ele tolera a entrada dele. A vontade revelada de Deus é a medida de nossa responsabilidade e o determinante de nosso dever. Com a vontade secreta de Deus nós não temos nada para fazer: esta é de Sua incumbência. Mas Deus, sabendo que falharemos em fazer perfeitamente Sua vontade revelada, ordenou Seus eternos conselhos conseqüentemente, e estes eternos conselhos, que aconteça Sua vontade secreta, embora desconhecida para nós, embora inconscientemente, cumprida em e através de nós.

Se o leitor está preparado ou não para aceitar a distinção acima na vontade de Deus, ele deve reconhecer que os mandamentos das Escrituras declaram a vontade revelada de Deus, e ele deve também aceitar que algumas vezes Deus não quer impedir a quebra daqueles mandamentos, porque Ele na realidade não o impede. Que Deus quer permitir o pecado é evidente, porque Ele o permite. Certamente ninguém dirá que o próprio Deus faz o que Ele não quer fazer.

Finalmente, deixe-me dizer novamente que, minha responsabilidade em relação à vontade de Deus é medida pelo que Ele fez conhecido na Sua Palavra. Ali eu aprendo que é meu dever usar os meios de Sua providência, e humildemente orar para que Ele possa Se agradar em abençoá-los para mim. Recusar assim fazer sobre o fundamente de que eu sou ignorante do que possa ou não possa ser Seus conselhos secretos concernentes a mim, não somente é um absurdo, mas também o ápice da presunção. Nós repetimos: a vontade secreta de Deus não nos diz respeito; é Sua vontade revelada que mede nossa responsabilidade. Que não há conflito entre a vontade secreta e revelada de Deus é claro a partir do fato que, a primeira é realizada pelo meu uso dos meios registrados na última.

Uma Exposição de Hebreus 6:4-6



"Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tornaram parti-cipantes do Espírito Santo. (5) E provaram a boa palavra de Deus, e as virtudes do século futuro, (6) E recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério." (Hebreus 6:4-6 ACF[1])
Por Arthur W. Pink

Introdução

A passagem que agora está ocupando nossa atenção é uma das mais graves na epístola aos Hebreus, até mesmo, quando comparada a qualquer outra no Novo Testamento. Provavelmente, poucas almas regeneradas a têm lido, refletidamente, sem serem tocadas de temor e tremor. Professantes[2] descuidados têm sido levados freqüentemente à inquietação em suas consciências assim que ouvem sua atemorizante linguagem. A passagem fala de uma classe de pessoas que foram altamente privilegiadas, que foram singularmente favorecidas, mas que, ao invés de terem aperfeiçoado suas oportunidades, desgraçadamente perverteram-nas; aqueles que trouxeram vergonha e reprovação à causa de Cristo; e que estão em uma condição tão sem esperanças que é "impossível que sejam outra vez renovados para arrependimento". Bom será se, cada um de nós, levarmos sinceramente nosso coração a Deus, suplicando-Lhe que nos impeça de cometer tal naufrágio na fé[3].

Como provavelmente a maioria de nossos leitores estão cientes, os versos diante de nós têm provado ser um dos mais ferozes campos de batalha teológica de todos os tempos. É neste ponto que as mais quentes batalhas entre Calvinistas e Arminianos têm sido travadas. Aqueles que acreditam que é possível a um verdadeiro Cristão cometer pecado e apostatar de modo a cair da graça e se perder eternamente, têm confiadamente apelado para estes versos de modo a provar sua teoria. É muito preocupante, uma vez que sua teoria os tornou tão preconceituosos, que se tornam incapazes de examinar imparcialmente, e pesar cuidadosamente, seus vários termos. Com suas mentes tão polarizadas por suas visões da apostasia, eles têm antes tomado como certo que esta passagem descreve um verdadeiro filho de Deus, que, virando completamente suas costas para Cristo, no final das contas perece. Mas, as Escrituras nos ordenam a "examinar tudo" (I Te. 5:21), e isto implica algo mais que uma investigação superficial e apressada do que é, admitidamente, uma passagem difícil.

Se de um lado, os Arminianos têm estado sempre prontos a ler, nesta passagem, seus dogmas não bíblicos da apostasia de um Cristão, é necessário confessar que muitos Calvinistas têm falhado em atacar com sucesso e interpretar satisfatoriamente os pontos mais difíceis destes versos. Estão certos ao afirmar que as Escrituras ensinam, enfática e inequivocamente, a Divina preservação e a perseverança humana dos santos, bem como eles têm também sabiamente apresentado que a Palavra de Deus não pode e não se contradiz. Se nosso Senhor determinou que Suas ovelhas "nunca pereceriam" (Jo 10:28), então certamente Hebreus 6 não ensina que algumas perecerão. Se através do apóstolo Paulo o Espírito Santo nos assegura que nada pode separar o filho do amor de seu Pai (Rm. 8:35-39), então, sem dúvida, a passagem que agora está diante de nós não declara que alguma coisa irá. Pode nem sempre ser fácil descobrir a perfeita consistência de uma escritura com outra, mas nós ainda devemos nos ater firmemente à inerrante harmonia e integridade da Verdade de Deus.

A primeira dificuldade ligada à nossa passagem é termos certeza da classe de pessoas que estão lá representadas. O Espírito Santo, aqui, está descrevendo almas regeneradas ou não regeneradas? O próximo passo é determinar qual é o significado de "e recaíram". Por fim, o que está sendo designado através de "É impossível que sejam outra vez renovados para arrependimento". Antecipando nossa exposição, nós estamos plenamente seguros de que o "recaíram" aqui apresentado significa um deliberado, completo e final repúdio a Cristo - um pecado para o qual não há perdão. Assim também nós entendemos que "impossível" renová-los novamente para arrependimento, denuncia que sua condição e caso estão além de qualquer esperança de recuperação. Por causa disto, os Calvinistas têm, geralmente, afirmado que esta passagem está tratando meramente de não convertidos. Mas, sobre isto há duas objeções insuperáveis: primeiro, os meramente não convertidos não têm do quê "recair"; segundo, meramente não convertidos nunca foram "renovados" para arrependimento.

Adicionalmente à controvérsia que estes versos têm ocasionado, não poucos os têm transformado através de um uso indevido:
"A má interpretação desta passagem tem também, creio eu, em muitos casos, criado uma extrema aflição mental a duas classes de pessoas: - aos professantes, que, após terem caído em algum pecado grave, têm sido despertados para reflexões alarmantes; e aos verdadeiros Cristãos, quando caem ante o poder de uma doença mental, mergulhando em um estado de fraqueza espiritual, ou quando são levados a enormes transgressões da lei Divina, tornando-se culpados como o foram Davi e Pedro. E isto nada tem criado além de obstáculos intransponíveis no caminho de ambos 'que estão pondo seu refúgio, em reter a esperança a eles proposta[4]' no Evangelho. Tudo isto torna ainda mais necessário que nós inquiramos cuidadosamente o significado desta passagem. Quando corretamente entendida, ela não dá suporte a qualquer falsa conclusão que tenha sido tirada dela, mas será como qualquer outra parte das Escrituras inspiradas 'proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir e para instruir em justiça;[5]' - bem ajustada para produzir cuidado, de nenhuma forma projetada para induzir ao desespero" (Dr. J. Brown).

Condição d'alma
Antes de tentarmos uma elucidação das dificuldades acima mencionadas, e para preparar o caminho de nossa exposição destes versos, cujo conteúdo tão violentamente tem embaraçado a muitos, deixe-nos recordar, mais uma vez, a condição d'alma na qual estes Cristãos Hebreus tinham caído: Eles tinham-se tornado "negligentes para ouvir" (Hb. 5:11), "não estavam experimentados na palavra da justiça" (Hb. 5:13), e eram incapazes de mastigar "mantimento sólido" (Hb.5:14). Esta condição estava repleta das conseqüências mais perigosas:
"Os Hebreus tinham se tornado indiferentes, negligentes e inertes; o evangelho, uma vez visto carinhosamente e amado afetuosamente por eles tinha-se tornado insípido e vago; as perseguições e contendas de seus compatriotas tornaram-se um doloroso fardo, sob o qual gemiam, e sob o qual não gozavam da comunhão com o Senhor Jesus. Os caracterizavam: A escuridão, a dúvida, a tristeza, a indecisão, e conseqüentemente um caminhar em que o poder do amor de Cristo não era manifestado. Agora, se eles continuassem nessa condição, o que mais poderia resultar senão apostasia? Esquecimento, se continuado, termina em rejeição, apatia em antipatia, descrença em infidelidade."

"Tal era seu perigo. E se sucumbissem a ele sua condição seria sem esperanças. Nenhum evangelho restaria a ser pregado, nenhum poder para resgatá-los e levantá-los. Eles tinham ouvido e conhecido a voz que dizia: 'Vinde a mim, e eu vos aliviarei[6]'. Eles tinham professado crer no Senhor que morreu pelos pecadores, e ter escolhido a Ele como Salvador e Mestre. E agora estavam se esquecendo e abandonando a Rocha da sua Salvação. Se eles deliberada e obstinadamente continuassem nesta situação, eles estariam em perigo de impenitência concludente e dureza de coração."

"A exortação deve ser vista em conexão a uma circunstância especial dos Hebreus. Após a rejeição do Messias por Israel, o evangelho havia sido pregado aos Judeus pelos apóstolos, e os dons e o poder do Espírito Santo tinham sido manifestos entre eles. Os Hebreus tinham aceitado o evangelho do, uma vez crucificado e, agora glorificado Redentor que enviou do céu o Espírito, um sinal de Sua exaltação, e um penhor da herança futura. Tendo então entrado na 'esfera da manifestação da nova aliança', qualquer um que obstinadamente o abandonasse, somente poderia recair naquela fase do judaísmo que crucificou o Senhor Jesus. Para eles não haveria alternativa além de seguir para o pleno conhecimento do sacerdócio celestial de Cristo, e para a aceitação de crente e para o louvor através do Mediador no santuário celestial, ou cair de volta na atitude, não dos Israelitas pios de antes do Pentecostes, como João o Batista e aqueles que aguardavam a prometida redenção, nem mesmo na condição daqueles pelos quais o Salvador orou 'porque não sabiam o que faziam[7]'; mas em um estado de consciente e obstinada inimizade contra Cristo, e no pecado de rejeitá-Lo e colocá-Lo em público vitupério". (Adolph Saphir).

"O perigo ao qual esta inércia espiritual expôs os Hebreus era tal que justificava a forte linguagem de repreensão e reprovação. Apostasia de Cristo era um passo mais fácil e natural para um Judeu que para um crente gentio, porque o caminho estava sempre aberto e os convidando, como homens, a retornar às associações que uma vez carregaram com eles, de aparência exterior de santificação no nome de Jeová, e que somente o poder da graça os tinha permitido renunciar. Quando as realidades espirituais se tornam inoperantes em suas almas, a imagem visível de como era permanecia, e ai estava o perigo deles se entregarem em reverência a suas almas. Se não houvesse um exercício habitual de seus sentidos espirituais, o poder de discernimento poderia não permanecer: eles poderiam chamar o mal de bem, e o bem de mal. A ignorância que brota da negligência espiritual inicia sua própria punição pelo embotamento indiferente do que uma vez foram mentes claras, e rouba ao espírito seu poder de detectar os astutos métodos do Diabo. É somente na presença de Deus que o Cristão pode, com efeito, externar suas energias espirituais. Permanecer em Cristo, nos mantém naquela presença. Nenhum erro mais infeliz pode sobrevir a um crente que separar, nos hábitos de sua mente, o conhecimento adquirido do viver Cristo. A fé morre prontamente quando separada de seu objeto. O conhecimento, entretanto, é precioso, mas o conhecimento de Deus é algo progressivo (Cl. 1:10), cujo final não é obtido deste lado da glória (I Co. 8:2). A experiência máxima de um Cristão avançando é a de uma contínua iniciação. Com uma perspectiva cada vez mais larga, ele tem uma percepção cada dia mais profunda da graça na qual se encontra, e na qual ele se estabelece mais e mais, pela palavra da justiça..."

"Uma fé clara e crescente, nas coisas celestiais era necessária para preservar os Cristãos Judeus da recaída. Voltar ao Judaísmo era desistir de Cristo, o qual havia deixado suas casas "desertas" (Mt.23:38). Seria cair da graça, e colocar a eles próprios não somente debaixo da maldição comum da lei, mas da maldição particular que tinha trazido a culpa do sangue de Jesus sobre a réproba e cega nação de Seus assassinos" (A. Pridham).
Deve ser notado, contudo, que é tão fácil, e que a atração é tão real, para um Cristão gentio retornar àquele mundo do qual o Senhor o chamou, quanto era a um Cristão judeu retornar novamente ao Judaísmo. E na exata proporção em que o Cristão falha em andar com Deus diariamente, assim também o mundo obtém poder sobre seu coração, mente e vida, e uma continuidade no mundanismo está repleta das mais diretas e fatais conseqüências.

"Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados", etc. (verso 4).
Aqui o apóstolo continua a digressão que iniciou em Hebreus 5:11. O parêntesis teve duas divisões: a primeira, em Hebreus 5:11-14 é repreensiva; a segunda, em Hebreus 6:1-20 é exortativa. No capítulo 6 ele exorta os Hebreus sobre dois deveres: o progresso no caminhar Cristão (versos 1-11); perseverança interior (versos 12-20). A primeira exortação está proposta nos versos 1 e 2 e qualificada no verso 3. O motivo para obedecer é esboçado a partir do perigo da apostasia (versos 4-6). A abertura "Porque" no verso 4 anuncia uma conexão próxima de nossa passagem atual com aquela que imediatamente a precede. Ela esboça uma conclusão do que o apóstolo tinha dito em Hebreus 5:11-14. Ela amplifica o "Se" do verso 3. Ela mostra um sério aviso contra sua continuação em sua indolência atual. Isto delineia um terrível contraste com a possibilidade no verso 3.
"O apóstolo considera a degeneração dos Hebreus com desânimo. Ele parece ver nisto o perigo de uma completa, confirmada, obstinada, e irrecuperável apostasia da verdade. Ele os observa à beira de um precipício, e ele por isto levanta sua voz, e com veemência, ainda amando honestamente, os avisa sobre tão temível mal" (Adolph Saphir).
Três coisas chamam nossa cuidadosa atenção ao nos aproximarmos de nossa passagem: as pessoas a quem aqui se fala, o pecado que elas cometeram, e a condenação anunciada a elas. Ao considerar as pessoas a quem se fala é da maior importância notar que o apóstolo não diz: "nós que fomos uma vez iluminados", nem mesmo diz "vocês", ao invés, ele diz "aqueles". Em claro contraste com eles, ele diz aos Hebreus, "Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores".[8]
"Posteriormente, quando o apóstolo vem declarar sua esperança e convicção concernente a estes Hebreus que não são como aqueles que havia descrito antes, nem como se estivessem para cair em perdição, e ele fez isto sobre três bases nas quais eles seriam diferenciados destes: 1. Que eles teriam aquelas coisas que "acompanham a salvação"; é isto, coisas das quais a salvação é inseparável. Nenhuma destas coisas, contudo, havia ele atribuído àqueles que descreveu neste lugar (versos 4-6); por isto, se agiu desta forma, não teriam sido eles para o apóstolo um argumento e uma evidência de uma conclusão contrária: que estes não cairiam e pereceriam como aqueles? Eis o porquê ele não atribuir nada a estes aqui no texto que faça particularmente "companhia à salvação". 2. Ele os descreve por seus "deveres de obediência" e frutos da fé. Isto foi 'o trabalho e o amor' para com o nome de Deus, verso 10. E por isso, também, ele os diferencia daqueles do texto, concernente àqueles que julgava deveriam perecer eternamente, o que estes frutos da fé salvadora e do amor sincero não deveriam. 3. Ele acrescenta, que, na preservação daqueles aqui mencionados, a fidelidade de Deus é levada em consideração: 'Porque Deus não é injusto para se esquecer'. Porque eles eram aqueles que ele pretendia estivessem interessados na aliança da graça, considerando que só assim há algum engajamento da fidelidade e da justiça de Deus para preservar os homens da apostasia e da ruína, e há desta forma uma igual relação sobre todos que são assim alcançados pela aliança. Mas, para aqueles do texto ele não supõe tal coisa, e por isso não anuncia que qualquer justiça ou fidelidade de Deus estava de qualquer forma comprometida com sua preservação, mas muito ao contrário." (Dr. John Owen)
É muito pouco preciso designar como "meros professantes" aqueles descritos nos versos 4, 5. Eles foram uma classe que tinha gozado de grandes privilégios, acima de tudo como agora acompanha a pregação do Evangelho. Aqueles aqui retratados são ditos como havendo recebido cinco privilégios, o que está em contrate com as seis situações enumeradas nos versos 1, 2, as quais pertencem ao homem na carne, sob o Judaísmo. Cinco é o número da graça, e as bênçãos aqui mencionadas pertencem à dispensação Cristã. Ainda que eles não fossem verdadeiros Cristãos. Isto é evidente do que não é dito. Observe que eles não foram citados como sendo eleitos de Deus, como aqueles por quem Cristo morreu, como aqueles que foram nascidos no Espírito. Eles não são citados como sendo justificados, perdoados, aceito no Amado. Nem é citada qualquer coisa sobre sua fé, amor, ou obediência. Ainda que estas sejam exatamente as qualidades que distinguem um verdadeiro filho de Deus.

Primeiro, eles tinham sido "iluminados".
O Sol da justiça havia brilhado, trazendo cura nas suas asas[9], e, como Mateus 4:16 diz: "O povo, que estava assentado em trevas, Viu uma grande luz; E, aos que estavam assentados na região e sombra da morte, A luz raiou." Diferente do pagão, a quem Cristo, nos dias de Sua carne, não visitou, aqueles que vieram sob o som de Sua voz foram maravilhosamente e gloriosamente iluminados.

A palavra grega para "iluminado" aqui significa "receber luz ou conhecimento através do ensino". É assim traduzida na Septuaginta em Juízes 13:8, II Reis 12:2, 17:27. O apóstolo Paulo a utiliza como "manifestar", ou "trazer à luz" em I Coríntios 4:5, II Timóteo 1:10. Satanás cegou os entendimentos dos incrédulos, "para que lhes não resplandeça a luz do evangelho" (II Co 4:4), que é, dar conhecimento dele. Então, "iluminado" aqui significa ser instruído na doutrina do evangelho, tendo desta forma uma clara compreensão dele. Na passagem paralela em Hebreus 10:26 as mesmas pessoas são citadas como tendo "recebido o conhecimento da verdade", confronte também em II Pedro 2:20-21. É, contudo, somente um conhecimento natural de coisas espirituais, como pode ser adquirido por ouvir exteriormente ou por ler, exatamente como alguém pode ser iluminado por fazer um estudo especial de uma das ciências. Isto está longe de ser aquela iluminação espiritual que transforma (II Co. 3:18). Uma ilustração de uma pessoa não regenerada sendo "iluminada", como aqui, é encontrada no caso de Balaão, em Números 24:4.

Segundo, eles tinham "provado" o dom celestial.
Para "provar" é necessário ter uma experiência pessoal, e não uma mera descrição.
"Provar não inclui comer, muito menos digerir e transformar em nutrição aquilo que é provado, porque sua natureza sendo através deste ato discernida, será recusada, de fato, ainda que nós gostemos de seu paladar e sabor em alguma outra ponderação. As pessoas aqui descritas, então, são aqueles que têm um certo grau de entendimento e apreciaram a revelação da graça, como os ouvintes nos pedregais[10] eles receberam a Palavra com grande alegria." (John Owen)
O "provar" está em contraste com o "comer" de João 6:50-56.

As opiniões estão divididas se o "dom celestial" se refere ao Senhor Jesus ou à pessoa do Espírito Santo. Talvez não seja possível para nós dogmatizar este ponto. Realmente, a diferença é indistinta, pois o Espírito está aqui para glorificar a Cristo, como Ele veio do Pai por Cristo como "Dom" de Sua ascensão ao Seu povo. Se a referencia for ao Senhor Jesus, João 3:16, 4:1, etc., serão referências pertinentes, se for ao Espírito Santo, serão Atos 2:38, 8:20, Atos 10:45, Atos 11:17. Pessoalmente, nos inclinamos para a última. Este Dom Divino é aqui citado como sendo "celestial" por causa do "céu", e que guia para o céu, em contraste com o Judaísmo - confronte Atos 2:2, I Pedro 1:12. Deste "Dom" aqueles apóstatas tinham "provado", ou tinham uma experiência comparável a Mateus 27:34 onde "provar" é oposto a verdadeiramente beber. Aqueles aqui em destaque haviam tido uma familiaridade com o Evangelho, como para ganhar uma grande medida de suas bem-aventuranças como também para grandemente agravar seus pecados e condenações. Uma ilustração deste fato é encontrada em Mateus 13:20-21.

Terceiro, eles "se tornaram participantes do Espírito Santo".
Primeiro, deve ser mostrado que a palavra grega para "participantes" aqui é uma palavra diferente da que é usada em Colossenses 1:12 e II Pedro 1:4, onde verdadeiros Cristãos estão em vista. A palavra aqui simplesmente significa "companheiros", referindo-se a algo externo ao invés de interno. É para ser observado que este item está colocado no meio de cinco, e isto porque ele descreve o princípio motor dos outros quatro, os quais estão todos em efeito. Estes apóstatas nunca "nasceram do Espírito" (Jo. 3:6), muito menos eram seus corpos Seu "templo" (I Co. 6:19). Nem nós cremos que estes versos ensinam que o Espírito Santo tenha, a qualquer tempo, trabalhado internamente neles, pois caso contrário Filipenses 1:6 teria sido contradito. Isto significa que eles tinham compartilhado dos benefícios de Suas operações sobrenaturais e manifestações: "...moveu-se o lugar..." (Atos 4:31) ilustra isto. Abaixo nós citamos o Dr. J. Brown:
"É altamente provável que o escritor inspirado refira-se primariamente aos dons miraculosos e operações do Espírito Santo pelos quais a primitiva dispensação da Cristandade foi administrada. Estes dons não foram de nenhuma forma confinados àqueles que foram 'transformados pela renovação dos seus entendimentos[11]'. As palavras de nosso Senhor em Mateus 7:22-23 e de Paulo em I Coríntios 13:1-2 parecem anunciar, que a retenção destes homens não renovados não foi muito incomum naquela época, de forma nenhuma elas mostram claramente que sua retenção e um estado não regenerado são de alguma forma incompatíveis."

Quarto, "E provaram a boa palavra de Deus".
"Eu entendo por esta expressão a promessa de Deus com respeito ao Messias, a essência e a substância de tudo. É digno de nota o fato desta promessa estar por distinção designada através de Jeremias como 'a boa palavra' (Jr. 33:14). 'Provar', então, esta 'boa Palavra de Deus', é experimentar o fato de que Deus tem sido fiel à Sua promessa - gozar, tanto quanto um homem não convertido possa gozar, das bênçãos e vantagens que fluem daquela promessa sendo cumprida. 'Provar a boa Palavra de Deus', parece, apenas gozar as vantagens da nova dispensação." (Dr. J. Brown).
Uma confirmação adicional de que o apóstolo aqui está se referindo a este fato, de que estes apóstatas tinham testemunhado o cumprimento da promessa de Deus é obtida através da comparação com Jeremias 29:10: "Porque assim diz o SENHOR: Certamente que passados setenta anos em Babilônia, vos visitarei, e cumprirei sobre vós a minha boa palavra, tornando a trazer-vos a este lugar."

Note quão cuidadosamente o apóstolo ainda mantém a palavra "provar", o melhor meio de nos permitir identificá-los. Eles não podem dizer com Jeremias "Achando-se as tuas palavras, logo as comi" (Jr. 15:16).
"É como se ainda dissesse: 'Eu não falei daqueles que têm recebido nutrição; mas daqueles que somente a têm provado, tanto que eles deveriam ter desejado isto como 'leite racional, não falsificado' e crescessem por meio disto". (Dr. John Owen)
Um impressionante exemplo de alguém que tão somente "provou" a boa Palavra de Deus é encontrado em Marcos 6:20: "Porque Herodes temia a João, sabendo que era homem justo e santo; e guardava-o com segurança, e fazia muitas coisas, atendendo-o, e de boa mente o ouvia."

Quinto, "E as virtudes do século futuro", ou "era futura".
A referência aqui é para a nova dispensação que foi anunciada pelo Messias de Israel de acordo com as predições do Velho Testamento. Isto tem correspondência com o "nestes últimos dias" de Hebreus 1:1, e está em contraste com o "tempo passado" ou a economia Mosaica. Seu Messias não era nenhum outro senão o "Deus Forte" (Is. 9:6), e maravilhosas e gloriosas, estupendas e únicas, foram Suas obras miraculosas. Destes "poderes" estes apóstatas haviam "provado", ou haviam experimentado. Eles haviam sido testemunhas pessoais dos milagres de Cristo, e também das maravilhas que seguiram Sua ascensão, quando tão gloriosas manifestações do Espírito foram dadas. Portanto eles eram "inescusáveis". Evidência convincente e conclusiva havia sido apresentada diante deles, mas não houve fé responsiva em seus corações. Um correto exemplo disto pode ser encontrado em João 11:47-48.

"E recaíram".
A palavra grega aqui é muito forte e enfática, até mais forte que aquela usada em Mateus 7:27, quando é dito da casa construída sobre a areia: "e foi grande a sua queda." É uma queda completa, um total abandono do Cristianismo que está em destaque aqui. É um "virar as costas" proposital à verdade de Deus revelada, um total repúdio do Evangelho. É acontecer um "naufrágio na fé" (I Tm. 1:19). Este pecado terrível não é cometido por um mero professante nominal, porque ele não tem nada de onde realmente recair, salvo um nome vazio. A classe aqui descrita são aqueles que tiveram suas mentes iluminadas, suas consciências agitadas, suas afeições movidas em um grau considerável, e ainda aqueles que nunca foram trazidos da morte para a vida. Também não são Cristãos apóstatas que estão em estudo aqui. Não é simplesmente "cair em pecado", este ou aquele pecado. O maior "pecado" que um homem regenerado pode possivelmente cometer é uma negação pessoal de Cristo: Pedro foi culpado disto, e ele ainda foi "renovado para arrependimento". É uma total renúncia de todas as verdades distintivas e os princípios do Cristianismo, e isto não secretamente, mas abertamente, o que se constitui em apostasia.
"E recaíram". "Esta dificilmente é uma tradução justa.[12] Tem sido dito que o apóstolo aqui não estava afirmando que tais pessoas iriam ou foram 'recair', mas que 'se eles fossem recair' - uma suposição que, contudo, jamais poderia se realizar - então a conseqüência seria que eles não seriam 'renovados para arrependimento'. As palavras literalmente traduzidas são, 'E apostataram', ou, 'Ainda tem apostatado'. O apóstolo obviamente anuncia que tais pessoas podem, e que estas pessoas tinham de fato, 'recaído'. Por 'recaindo', nós estamos claramente entendendo o que é comumente chamado apostasia. Isto não consiste em uma queda ocasional em efetivo pecado, por mais grave e agravado que seja; nem na renúncia de alguns princípios do Cristianismo, ainda que sejam aqueles que são de considerável importância; mas em uma renúncia aberta, total, determinada de todos os princípios constituintes do Cristianismo, e um retorno para uma falsa religião, como a dos Judeus descrentes ou pagãos, ou para a infidelidade aberta e para a irreligiosidade aberta" (Dr. J. Brown).

"É impossível que os que... recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento".
Quatro questões aqui clamam por resposta. O que significa "renovados para arrependimento"? O que quer dizer "outra vez renovados para arrependimento"? Porque esta experiência é "impossível"? A quem isto é "impossível"?

O arrependimento significa mudança de pensamento: Mateus 21:29 e Romanos 11:29 estabelecem isto. É mais que uma ação mental, a consciência estando também ativa, levando à contrição e a autocondenação (Jó 42:6). No não regenerado é simplesmente uma obra da natureza, no filho de Deus é forjado pelo Espírito Santo. O último é evangélico, sendo uma das coisas que "acompanham a salvação". O primeiro não é assim, sendo a "tristeza do mundo", a qual "opera a morte" (II Co. 7:10). Este tipo de "arrependimento" ou remorso tem sua mais impressionante exemplificação no caso de Judas: Mateus 27:3-5. Tal foi o arrependimento destes apóstatas. O verbo grego para "renovar" aqui não ocorre em nenhum outro lugar no Novo Testamento. Provavelmente "restaurar" teria sido melhor, pois é a mesma palavra usada na Septuaginta, para um verbo Hebraico que significa renovar no sentido de restaurar: Salmo 103:5; Salmo 104:30; Lamentações 5:21. Josephus o aplicou à renovação do Templo!

Mas, o que significa "renovar para arrependimento"?
"Ser 'renovado' é uma expressão figurativa que denota uma mudança, uma grande mudança, e uma mudança para melhor. Ser 'renovado' assim como mudar o pensamento de uma pessoa é significativo de uma importante e vantajosa alteração de opinião, e caráter e serviço. E uma tal alteração, as pessoas alegam como tendo sido experimentadas em um período anterior. Elas outrora estavam em um estado de ignorância com respeito às doutrinas e às evidências do Cristianismo, e haviam sido 'iluminadas'. Elas não tinham, em outros tempos, conhecido a excelência e a beleza da verdade Cristã, e haviam sido criadas para 'provar os dons celestiais'. Elas outrora confundiram as profecias com respeito ao Messias, e não estavam cientes de seu cumprimento, e, claro, eram estranhas àquela vigorosa influência que a revelação do Novo Testamento apresentava; e estas pessoas haviam sido criadas para ver que aquela 'boa palavra' fora cumprida, e haviam sido feitas participantes dos privilégios externos e estavam sujeitas às energias peculiares de uma nova ordem de coisas. Sua visão, e sensações, e circunstâncias, haviam materialmente mudado. Quão grande é a diferença entre um ignorante, intolerante Judeu, e a pessoa descrita na passagem precedente! Ele havia se transformado com isto sendo outro homem. Ele não tinha, contudo, se tornado, no senso do apóstolo, uma 'nova criatura'. Seu pensamento não estava tão mudado para sinceramente crer 'a verdade como está em Jesus[13]', mas ainda, uma grande e até onde ela foi, uma radical mudança havia tido lugar" (Dr. J. Brown).
Agora é impossível "renovar para arrependimento" aqueles que abandonaram totalmente a revelação Cristã. Algumas coisas são "impossíveis" no que diz respeito à natureza de Deus, como ele não poder mentir, ou perdoar pecados sem a santificação em Sua justiça. Outras coisas que são possíveis à natureza de Deus são feitas impossíveis por Seus decretos ou propósitos: Veja I Samuel 15:28-29. Ainda outras coisas são "possíveis" ou "impossíveis" considerando a regra ou a ordem de todas as coisas conforme foram estabelecidas por Deus. Por exemplo, não pode haver fé sem ouvir a Palavra (Rm. 10:13-17).
"Quando se trata do [nosso] dever [para com estas pessoas], Deus não tem nem expressado ordem sobre elas, nem determinado meios para seu cumprimento, elas devem ser vistas então como sendo impossíveis [como, por exemplo, não há salvação sem arrependimento, Lucas 13:3 (A.W.P)]; e então, no que nos diz respeito, elas são absolutamente assim, e assim devem ser avaliadas. E é a 'impossibilidade' aqui essencialmente planejada. É uma coisa que Deus nunca nos ordenou que nos empenhássemos, nem determinou meios para alcançarmos, nem prometeu nos ajudar. É por isto que não temos nenhuma razão para procurar, tentar, ou esperar, já que isto não é possível por nenhuma lei, regra, ou constituição de Deus."

"O apóstolo não prossegue nos instruindo sobre a natureza de eventos futuros, além do que o nosso próprio dever é participante deles. Não é para nós procurarmos ou esperarmos, ou orarmos, ou nos empenharmos para a renovação de tais pessoas para arrependimento. Contudo, Deus deu uma lei sobre estas coisas a nós, e não a Si mesmo. Isto [renovação para arrependimento] pode ser possível para Deus, pelo que sabemos, e se não houver nisto uma contradição a quaisquer das divinas propriedades de Sua natureza; contudo, Ele não nos faz esperar quaisquer destas coisas Dele, nem tem Ele determinado quaisquer meios para que nós nos empenhemos nisto. Que Ele pode fazer nós devemos confiadamente aceitar; mas nosso dever quanto a estas pessoas está inteiramente terminado. E de fato, eles colocam a si mesmos completamente fora de nosso alcance" (Dr. John Owen).
É necessário ser observado cuidadosamente que no conjunto desta passagem de Hebreus 5:11 em diante o apóstolo está falando de seu próprio ministério. Nas mãos de Deus, Seus servos são os instrumentos pelos quais Ele trabalha e através dos quais cumpre Seu propósito evangelístico. Portanto, Paulo pode dizer com propriedade "porque eu pelo evangelho vos gerei" (I Co 4:15). E de novo: "Meus filhinhos, por quem de novo sinto as dores de parto, até que Cristo seja formado em vós" (Gl. 4:19). Assim os servos de Deus têm, através da pregação do Evangelho, "renovado para arrependimento" aqueles citados em Hebreus 6:4. Mas eles apostataram, eles totalmente repudiaram o Evangelho. Sendo conseqüentemente "impossível" aos servos de Deus "renová-los novamente para arrependimento", pela razão auto-suficiente de que não têm outra mensagem para proclamar àqueles. Eles [os servos de Deus] não têm outro Evangelho de reserva, nem outros motivos a apresentar. O Cristo crucificado já havia sido posto diante deles. Ele [Cristo] eles agora denunciaram como um Impostor. Não há "nenhum outro nome" pelo qual eles possam ser salvos. Sua pública renúncia de Cristo tornou seu caso sem esperança, até onde os servos de Deus saibam. "Deixai-os" (Mt. 15:14) é agora sua ordem: compare com Judas 22. Se é, ou não, possível a Deus, consistentemente com Sua santidade, humilhá-los, nossa passagem não estabelece.

"Pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus" (verso 6).
Isto é apresentado para mostrar a gravidade de seu terrível crime e a impossibilidade deles serem renovados novamente para arrependimento. Renunciando à sua profissão Cristã eles declararam que Cristo é um Impostor. Portanto, são irrecuperáveis. Tentar prosseguir debatendo com eles, será somente deitar pérolas aos porcos[14]. Com este verso deve ser cuidadosamente comparada a passagem paralela em Hebreus 10:26-29. Estes apóstatas têm "recebido o conhecimento da verdade", apesar de não um conhecimento redentor dela. Depois disto eles pecaram "propositadamente": houve uma deliberada e aberta desaprovação da verdade. A natureza do seu pecado particular está designando um "pisar o Filho de Deus (algo que nenhum Cristão verdadeiro jamais fará) e contando (considerando) o sangue da aliança algo profano", é isto, olhando Aquele que foi suspenso na Cruz como um malfeitor comum. Para tanto "não resta mais sacrifício pelos pecados". Seu caso é sem esperança tanto quanto ao homem é concedido saber; e o escritor acredita, que os tais são abandonados por Deus também.
"Pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério". "Eles, portanto, se identificam a si mesmos com os que O crucificaram - eles acolheram e reconheceram sentimentos que eram Ele na terra e em seu poder, os quais lhes induziram a crucificá-Lo. Eles o expuseram à infâmia, fizeram dEle um exemplo público. Fizeram mais para desonrar a Jesus Cristo que Seus assassinos. Estes nunca professaram reconhecer Sua missão divina; mas estes apóstatas fizeram tal profissão - eles fizeram uma espécie de julgamento do Cristianismo, e, após o julgamento, o rejeitaram" (Dr. J. Brown).
Tal aviso foi necessário e bem calculado para agitar os indolentes Hebreus. Sob a economia do Antigo Testamento, por meio de tipos e profecias, eles tinham obtido vislumbres da verdade como sendo Cristo, a chamada "palavra da origem de Cristo". Sob aquelas sombras e vislumbres eles tinham sido educados, não sabendo sua completa importância até que tivessem sido abençoados com a plena luz do Evangelho, aqui chamado de "perfeição". O perigo ao qual eles estavam expostos era o de recuar do chão sobre o qual o Cristianismo os havia colocado, e relaxar ao Judaísmo. Agir desta forma significa re-entrar naquela Casa que Cristo havia deixado "deserta" (Mateus 23:38), e seria juntar forças com Seus assassinos [de Jesus], e portanto "eles, de novo crucificam o Filho de Deus", e por sua apostasia "o expõem ao (público) vitupério". Nós podemos acrescentar que a palavra grega aqui para "crucificar" é uma palavra mais forte que a que é geralmente utilizada: ela significa "crucificar ao alto". A atenção é assim direcionada para a ereção da cruz na qual o Salvador foi suspenso para escárnio público.

Tomando a passagem como um todo, é necessário ser lembrado que nem todos os que têm professado receber o Evangelho foram nascidos de Deus: a parábola do Semeador mostra que a Inteligência deve estar informada, a consciência examinada, os sentimentos naturais extirpados, e ainda não deve haver "raízes" neles. Nem tudo que reluz é ouro. Há sempre uma "mistura de gente" (Êxodo 12:38) que acompanha o povo de Deus. Além disso, há no verdadeiro Cristão um velho coração, que é "enganoso, mais do que todas as coisas, e perverso[15]", e por esta razão ele está em constante carência de um alerta fidedigno. Este, Deus tem dado a cada dispensação: Gênesis 2:17; Levítico 26:15-16; Mateus 3:8; Romanos 11:21; I Coríntios 10:12.

Conclusão

Finalmente, precisa ser dito que enquanto as Escrituras falam claramente e positivamente da perseverança dos santos, ainda é uma perseverança de santos, não de professantes não regenerados. A Divina preservação não está somente em uma situação segura, mas também em um caminho santo de disposição e conduta. Nós estamos "mediante a fé, guardados na virtude de Deus para a salvação[16]". Nós estamos guardados pelo Espírito trabalhando em nós um espírito de total dependência, renunciando nossa própria sabedoria e força. O único lugar do qual nós não podemos cair é aquele embaixo, na poeira. É lá que o Senhor busca Seu próprio povo, desarraigando-os de toda a confiança na carne, e dando-lhes a experimentar que é quando estão fracos é que são fortes[17]. Estes tais, e somente estes tais, são salvos e salvos eternamente.

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1 Todos os textos bíblicos citados neste estudo foram extraídos da tradução de João Ferreira de Almeida - Corrigida e Revisada Fiel ao Texto Original (ACF), editada pela Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil, exceto quando houver sido especificado em contrário.
2 NT - A palavra original do inglês é "professor", que significa alguém que professa uma determinada crença. Referindo-se a Cristãos, o ato de professar a fé, não implica necessariamente que esta pessoa tenha sido regenerada pelo sangue do Cordeiro de Deus. E este é o sentido no qual esta palavra deve ser entendida neste estudo: Uma pessoa que professa a fé Cristã, mas sem ter sido transformada por Cristo.
3 I Timóteo 1:19 - "Conservando a fé, e a boa consciência, a qual alguns, rejeitando, fizeram naufrágio na fé."
4 Hebreus 6:18 - "Para que por duas coisas imutáveis, nas quais é impossível que Deus minta, tenhamos a firme consolação, nós, os que pomos o nosso refúgio em reter a esperança proposta;"
5 II Timóteo 3:16 - "Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça;"
6 Mateus 11:28 - "Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei."
7 Lucas 23:34 - "E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem..."
8 Hebreus 6:9 - "Mas de vós, ó amados, esperamos coisas melhores, e coisas que acompanham a salvação, ainda que assim falamos."
9 Malaquias 4:2 - "Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, e cura trará nas suas asas; e saireis e saltareis como bezerros da estrebaria."
10 Mateus 13:20-21 - "20 O que foi semeado em pedregais é o que ouve a palavra, e logo a recebe com alegria;
21 Mas não tem raiz em si mesmo, antes é de pouca duração; e, chegada a angústia e a perseguição, por causa da palavra, logo se ofende;"
11 Romanos 12:2 - "E não sede conformados com este mundo, mas sede transformados pela renovação do vosso entendimento, para que experimenteis qual seja a boa, agradável, e perfeita vontade de Deus."
12 NT. Este comentário se refere à tradução encontrada na Bíblia em Inglês (King James Version), na qual temos o seguinte texto: "If they shall fall away". A tradução em português de João Ferreira de Almeida, (conforme pode ser lida na Edição Revista e Corrigida Fiel ao Texto Original da Sociedade Bíblica Trinitariana do Brasil) traz "E recaíram" que é uma tradução perfeita e fiel ao texto grego original.
13 Efésios 4:21 - "Se é que o tendes ouvido, e nele fostes ensinados, como está a verdade em Jesus;"
14 Mateus 7:6 - "Não deis aos cães as coisas santas, nem deiteis aos porcos as vossas pérolas, não aconteça que as pisem com os pés e, voltando-se, vos despedacem."
15 Jeremias 17:9 - "Enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?"
16 I Pedro 1:5 - "Que mediante a fé estais guardados na virtude de Deus para a salvação, já prestes para se revelar no último tempo."
17 II Coríntios 12:10 - "Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte."

FonteSite Luz para o Caminho Via: Voltemos ao Evangelho

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

A Soberania de Deus e a Responsabilidade Humana


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Por: Arthur W. Pink
"Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade." (Filipenses 2:13).
No capítulo anterior consideramos a questão da vontade humana.

Temos visto que a vontade do homem natural não é soberana nem também não livre, senão antes bem serva de sua natureza caída e do pecado.

Não é possível sustentar a doutrina bíblica da depravação humana a menos que sustentemos também o conceito bíblico da escravatura da vontade humana. Até que seja ensinado por Deus, o homem natural negará que o pecado tem escravizado tanto a sua mente como as suas emoções e a sua vontade. O homem caído vangloria-se de seu "livre arbítrio", quando em realidade está em servidão ao pecado e é levado cativo à vontade de Satanás. (Veja 2 Timóteo 2:26). Mas se a vontade do homem natural não é livre, significa então que não é responsável pelos seus atos? Acaso Deus não pode inculpá-lo pelo seu orgulho, rebelião e incredulidade?

As Escrituras falam continuamente da corrupção moral e da ruína espiritual do homem. Também declaram que o homem é incapaz de fazer o bem espiritual, mas isto não significa que as Escrituras neguem que seja responsável. Antes bem, falam continuamente dos seus deveres para Deus e para o seu próximo, e exigem uma obediência perfeita aos mandamentos de Deus. Então, o assunto mais difícil é definir a relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana.

Muitos, em seu empenho por manter a verdade da responsabilidade humana, acabam negando de uma ou outra forma a soberania de Deus. Estas pessoas dizem que se Deus fosse a exercer um controle direto sobre a vontade humana, o homem ficaria reduzido a um fantoche. Portanto, afirmam que Deus não pode fazer mais do que advertir e exortar o h.; pois se Deus fizesse algo mais direto, isto acabaria com a liberdade humana. Outros têm caído no erro do fatalismo; ou seja, tratam de usar a soberania de Deus para justificar a sua desobediência e pecado, como se Deus tivesse a culpa.

Podemos resumir o ensino bíblico sobre este assunto com o seguinte:
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  1. Deus é inteiramente soberano, em todo sentido, sobre todas as coisas, incluso sobre a vontade humana. Mas a soberania de Deus não tira nem diminui em forma alguma a responsabilidade humana.
  2. Os homens são completamente responsáveis; são responsáveis pelos seus atos, são responsáveis de obedecer, de crer, de fazer a vontade de Deus, responsáveis por tudo quanto fazem. Mas em sentido nenhum a responsabilidade humana tira ou diminui a soberania de Deus.
  3. Não existe contradição alguma entre estas duas verdades. Paulo em Romanos 9:11-24 dá uma exposição das duas coisas. O leitor deveria realizar um cuidadoso estudo dos argumentos apresentados pelo apóstolo em Romanos 9 em defesa desta verdade. Também muitos outros versículos declaram juntamente estas duas verdades. Veja por exemplo Atos 2:23, Lucas 22:22, Atos 4:24-28, Atos 13:45-48 y 2 Tessalonicenses 2:8-14. .
Neste capítulo trataremos com as seguintes perguntas:.
  1. Como pode Deus deter a alguns homens de realizarem o que eles desejam e impulsionar a outros a fazer o que não querem, e ao mesmo tempo preservar a sua responsabilidade? (Ou seja, considerá-los responsáveis).
  2. Como pode o pecador ser responsável de fazer o que por natureza é incapaz de fazer? Como pode ser condenado por não fazer o que é incapaz de fazer?
  3. Como pode Deus decretar que os homens façam certos pecados e depois responsabilizá-los por cometê-los?
  4. Como pode o pecador ser responsável de receber a Cristo e ser responsável por rejeitá-lo, quando Deus não o tem escolhido para ser salvo?.

Primeiro: Como pode Deus deter a alguns homens de realizarem o que eles desejam e impulsionar a outros a fazer o que não querem, e ao mesmo tempo preservar a sua responsabilidade?

Em Gênesis 20:6 lemos: "E disse-lhe Deus em sonhos: Bem sei eu que na sinceridade do teu coração fizeste isto; e também eu te tenho impedido de pecar contra mim; por isso não te permiti tocá-la". Aqui temos um caso claro onde Deus deteve Abimeleque de pecar, impedindo que fizesse o que por si mesmo teria feito. (Veja também os caps. 22 ao 24 de Números e 2 Crônicas 17:10, como exemplos de vezes em que Deus deteve o pecado).


Se Deus pode fazer isso, muita gente pergunta, por que então não impediu Adão de pecar? Por que não deteve a Satanás? Ou, como o expressam muitos na atualidade, por que permite que ocorra tanto sofrimento e maldade no mundo? Alguns respondem dizendo que Deus quer detê-lo, mas não pode porque não pode violar o "livre arbítrio" humano sem reduzir o homem a um robô. Tal resposta é absurda e indigna de Deus. Quem é o homem para dizer que o Todo Poderoso Deus quer mas não pode fazer? A resposta bíblica apropriada é que tanto o pecado como a queda de Adão são usados para manifestar melhor a sabedoria e os bons propósitos de Deus. Entre outras coisas, o pecado provê ocasião para que o amor e a superabundante graça de Deus sejam manifestados.
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Como é possível que Deus impeça os homens de pecar sem interferir com a sua liberdade e com a sua responsabilidade? A resposta encontra-se numa compreensão da seguinte pergunta: Em que consiste a verdadeira liberdade moral? A resposta é que a liberdade moral consiste na liberação da escravatura do pecado. Isto é o que Cristo expressou em João 8:36: "Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres". Quer dizer, quanto mais seja a pessoa liberada do controle do pecado, mais livre será. Os homens têm uma definição falsa da liberdade, porque acreditam que a liberdade consista em serem livres para pecar. A Bíblia afirma que o pecado não é liberdade, mas escravidão. Isto é o que Cristo disse em João 8:34: "Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado".
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O homem natural supõe que a única liberdade encontra-se no fato de não estar sob nenhuma autoridade, nem sob o controle de ninguém salvo ele mesmo, cumprindo os desejos de seu próprio coração. No obstante, este tipo de "liberdade" em realidade resulta ser a pior escravidão e miséria possíveis.

A Escritura nos diz que Deus não pode ser tentado pelos maus (Tiago 1:14), que Deus não pode mentir, nem cometer injustiça. Acaso significa que Deus não é livre porque não pode fazer o que é mau? Certamente não. Portanto, quando Deus intervém e impede os pecadores, isto também não diminui a sua verdadeira liberdade. O homem já estava em escravidão e então Deus não tem tirado nada do homem, senão que tem aumentado a sua verdadeira liberdade. Entre mais o homem seja impedido de pecar e liberado da escravatura do pecado, mais liberdade tem..

Segundo: Como pode o pecador ser responsável de fazer o que por natureza é incapaz de fazer? Como pode ser condenado por não fazer o que é incapaz de fazer?
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Alguns têm concluído erroneamente que a queda do homem e sua incapacidade espiritual têm terminado com sua responsabilidade moral. Dizem que não é possível que o homem seja tanto incapaz como responsável; dizem que isto é uma contradição. A Bíblia responde que a pesar da depravação e a pesar de sua incapacidade, o homem é inteiramente responsável: responsável de buscar a Deus, responsável de obedecer ao evangelho, responsável de arrepender-se e confiar em Cristo, responsável de deixar seus ídolos e submeter-se a Deus.
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O fato de que Deus exija ao homem coisas que ele é incapaz de fazer é uma realidade; por exemplo, lemos na Bíblia: "amarás a Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua mente", "sede vós perfeitos como vosso Pai nos céus é perfeito", "arrependei-vos e crede no evangelho". O homem não regenerado é incapaz de fazer todas estas coisas, mas isto não muda sua responsabilidade e dever de fazê-las. Deus não pode exigir menos que a santidade e a justiça. Embora o homem tenha perdido a sua capacidade, isto não tem anulado nem acabado com sua obrigação. [1]
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É simplesmente um argumento filosófico o que diz que a responsabilidade humana é limitada pela incapacidade. Este argumento conduz a uma absurda conclusão de que, quanto mais pecaminoso seja alguém, menos responsabilidade teria. O diabo é um bom exemplo disto. Ninguém duvida da depravação total do diabo. Não há dúvida alguma de que aborrece a Deus, de que é incapaz de fazer o bem e ainda incapaz de arrepender-se. Mas nenhuma destas coisas o desculpa em nada; ao contrario, aumentam sua culpabilidade e sua condenação.
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Agora é necessário fazer alguns comentários sobre a natureza da incapacidade humana:
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  1. O homem caído não só é incapaz de fazer o bem espiritual, senão também é culpável de sua própria incapacidade.
  1. O homem é culpável porque tem continuado na mesma rebelião de Adão. Este caiu voluntariamente e nós nele (Veja Romanos 5:12). Mas, como uma raça, temos continuado em rebelião até o dia de hoje. Cada ser humano tem participado voluntariamente da mesma rebelião de Adão. O fato de que nenhuma pessoa liberada a si mesma queira arrepender-se e voltar-se a Deus é a prova de sua rebelião.
  1. É necessário entender a distinção entre a incapacidade física (natural) e a incapacidade moral (espiritual). Por exemplo, existe uma diferença entre a cegueira de Bartimeu e a cegueira daqueles que fecham seus olhos para não ver. Existe uma diferença entre os que são surdos de nascimento e aqueles que cobrem seus ouvidos para não ouvir a verdade. A capacidade natural (física) tem a ver com as faculdades que recebemos como seres humanos, por exemplo: a capacidade de pensar, de falar, de ver, de ouvir e sobre tudo, de escolher. Os homens têm mente e vontade e a capacidade de escolher o que desejam. Qual é, então, o problema? O problema radica em seus "desejos". Por natureza os homens não têm o desejo de serem salvos; não querem vir a Cristo.
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Isto é o que Cristo assinalava quando dizia: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer (...) Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido" (João 6:44,65). Quando a Bíblia diz que os homens não pode vir, significa que a incapacidade é espiritual e moral. Não podem porque não querem. Assim o disse Cristo em João 5:40: "E não quereis vir a mim para terdes vida". Os homens não podem porque aborrecem a Deus e amam seus pecados (veja João 3:19-20 e Romanos 8:5-8). Esta incapacidade é moral e espiritual e nela encontra-se a raiz da depravação humana.
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Terceiro: Como pode Deus decretar que os homens façam certos pecados e depois responsabilizá-los por cometê-los?
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Para responder esta pergunta vamos considerar a traição e a crucifixão de Cristo. O Antigo Testamento profetizou que Cristo seria traído (Zacarias 11:12) e morto (Isaias 53). Em Atos 2:23 se declara: "A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos". Note que os homens são inculpados por aquilo que foi predeterminado por Deus. Também Atos 4:27-28 diz: "Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel; para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer".

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Foi o propósito de Deus que Cristo morre-se crucificado. Ainda assim, o propósito dos homens de trair e crucificar a Cristo não foi para obedecer a Deus, senão antes bem uma manifestação de seu ódio e rebelião contra Ele. Judas mesmo confessou suas malvadas intenções em Mateus 27:4: "Pequei, traindo o sangue inocente". Por este motivo Judas foi condenado por Deus. A traição de Judas formou uma parte do plano eterno de Deus, mas isto não o livrou de sua responsabilidade. Cristo mesmo afirmou este ponto em Lucas 22:22, dizendo: "E, na verdade, o Filho do homem vai segundo o que está determinado; mas ai daquele homem por quem é traído!".
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Deus não colocou no coração de Judas, nem também não dos judeus, o desejo de trair a Cristo. Deus não aprova o pecado nem também não é o seu autor.
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Os motivos e os propósitos malvados dos homens nascem de seu próprio coração (veja Tiago 1:13-14), e portanto são responsáveis perante Deus. o coração perverso dos homens produz as más obras, mas Deus refreia e dirige esta maldade para cumprir através dela seus propósitos. Os seguintes textos afirmam esta verdade: "O coração do homem planeja o seu caminho, mas o SENHOR lhe dirige os passos." (Provérbios 16:9); "Certamente a cólera do homem redundará em teu louvor; o restante da cólera tu o restringirás." (Salmo 76:10).
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Portanto os decretos de Deus não são a causa dos pecados humanos, antes bem seus decretos limitam e dirigem os atos malvados dos homens para cumprir seu plano eterno. Deus não forçou Judas a realizar a maldade que ele fez, senão que Deus usou a maldade de Judas para cumprir o plano da redenção.
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Quarto: Como pode o pecador ser responsável de receber a Cristo e ser responsável por rejeitá-lo, quando Deus não o tem escolhido para ser salvo?

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Em primeiro lugar, temos que compreender que ninguém pode saber com plena certeza que não é um dos escolhidos de Deus. Este conhecimento pertence ao conselho secreto de Deus, ao qual nenhum ser humano tem acesso (Deuteronômio 29:29). A vontade revelada de Deus é a norma da responsabilidade humana. Deus tem revelado em sua Palavra que todas as pessoas devem arrepender-se a crer no evangelho (Atos 17:30 e 1 João 3:23). As mesmas Escrituras dizem que todos aqueles que se arrependam e acreditem serão salvos. Todos os homens são responsáveis de esquadrinhar as Escrituras, "que podem fazer-te sábio para a salvação" (2 Timóteo 3:15). Já que a fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus (Romanos 10:17), então é o dever de cada pecador esquadrinhar as Escrituras, rogando a Deus que lhe conceda entendimento para a salvação de sua alma. Façamos o que Deus tem nos ordenado e deixemos o resto em suas mãos. 
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Como já mostramos, é um fato que o homem não quer se voltar a Deus, nem obedecê-Lo, nem amá-Lo, o que é a fonte de sua incapacidade.
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Isto é o que origina a necessidade da graça eletiva de Deus. Se não fosse por esta graça, ninguém seria salvo (Isaias 1:9). Já que o homem é incapaz de cumprir com as exigências de Deus, então, que deveria fazer? Primeiro, deveria humilhar-se e reconhecer a sua incapacidade. Segundo, deveria clamar a Deus e pedi-Lhe a graça para superar sua incapacidade. Cada crente verdadeiro reconhece sua incapacidade e depravação, e roga a Deus fervorosamente por sabedoria, graça e poder para conseguir realizar o que é agradável perante Ele.
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Da mesma maneira, cada pecador é responsável de invocar o Senhor reconhecendo que a Palavra de Deus diz a verdade quando descreve sua condição depravada, e reconhecendo que o juízo de Deus é justo. Seu dever então é clamar a Deus e Lhe pedir o poder de Seu Espírito Santo para conduzir seu coração à obediência e submissão a Cristo. Se o pecador faz isto sinceramente, então Deus responderá a seu clamor, porque a Escritura diz: "Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Romanos 10:13). Tal como um homem que esteja morrendo sem forças nem habilidade para salvar a si mesmo deveria clamar por ajuda, assim também o pecador incapaz de salvar a si mesmo deve clamar a Deus a fim de que Ele faça o que ele é incapaz de realizar. Porém, se o pecador está decidido a perecer e recusa vir a Cristo, então não pode inculpar a ninguém, salvo a si mesmo. 
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Se o pecador pode ou não entender como harmonizar a soberania de Deus e a responsabilidade humana, de todas maneiras permanece como responsável de invocar a Cristo para salvação do pecado e da ira de Deus.
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Talvez enquanto leia estes capítulos, tenham surgido algumas perguntas.
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Quiçá tenha se perguntado: por que os crentes incomodam-se em predicar o evangelho aos inconversos se em verdade os homens não têm a capacidade de receber a Cristo como seu Salvador? Ou a pergunta seja: por que os crentes devem preocupar-se por orar se Deus já tem decidido o que vai acontecer? Ou, então: por que devem realizar um esforço os crentes para chegar a ser melhores pessoas, se Deus mesmo está controlando as suas vidas? Talvez esteja pensando que é uma injustiça e um agravo de Deus escolher só certas pessoas para serem salvas. Nopróximo capítulo tentaremos responder estas perguntas.
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Este artigo foi traduzido do espanhol para o português por Daniela Raffo. Este artigo é parte de um livro que foi traduzido de uma versão abreviada em inglês intitulada "Quem está no controle?", publicado por Grace Publications Trust, e em sua versão original em inglês por Baker Book House. O título da versão original em inglês é: "A soberania de Deus".

Nota:
[1] As seguintes ilustrações [tomadas de várias fontes pelo tradutor] servirão para confirmar este ponto: a) um bêbado que atropela e mata uma pessoa ao estar dirigindo seu carro não é considerado inocente [ou não responsável], ainda que não fosse capaz de controlar seu veiculo; b) o ladrão, que é controlado pela concupiscência e a avareza, não pode deixar de roubar. Mas o fato de que não possa deixar de fazê-lo não o inocenta [não tira a sua responsabilidade]; c) a segunda carta de Pedro nos fala de aqueles que "Tendo os olhos cheios de adultério, e não cessando de pecar". Mas isto não diminui em maneira alguma sua culpa e sua responsabilidade; d) o argumento proposto pelos homossexuais na atualidade é que são pervertidos por natureza e nasceram assim. Portanto dizem que não é possível que deixem seu pecado. Contudo, Romanos 1:26-28 diz que recebem em si mesmos a retribuição devida a seu extravio; e) a escusa daqueles que dizem: "Sou assim e não posso mudar" não serve senão para condená-los; f) a pessoa que tem uma dívida que não pode pagar. A lei não a escusa, por este fato, de sua responsabilidade de pagar. Em forma semelhante, Deus não tem perdido seu direito de exigir o pagamento, embora os homens tenham perdido sua capacidade de pagar. A impotência humana não cancela a obrigação nem a responsabilidade; g) o fato de que o coração humano é depravado, o fato de que ame o pecado e não possa deixá-lo, não faz de modo algum que alguém seja menos responsável dos seus pecados. Se não fosse assim, então entre mais depravado e mais endurecido que alguém chegasse a ser, menos responsabilidade teria. Nesse caso, Deus não poderia julgar ninguém.

Extraído do site: [ Eleitos de Deus ]