quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Por Paulo Ulisses


 Observando o cenário "evangelical" e percebendo a necessidade de aprender mais sobre o que a palavra de Deus diz a respeito dos falsos mestre e suas heresias, preparamos uma breve análise sobre a epístola que escreveu São Judas, devido a sua concentração de exortações nesse campo. Como se trata de uma carta de único capitulo, observaremos todo o escrito.

"Judas, servo de Jesus Cristo, e irmão de Tiago, aos chamados, santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo:
Misericórdia, e paz, e amor vos sejam multiplicados".
Judas 1:1,2
    No versículo 1, temos uma rápida apresentação do autor. Acreditamos que apesar do nome "Judas" ter sido muito popular na época neo-testamentaria, pela referência "e irmão de Tiago" é seguro crer que o autor é um dos meios-irmãos Jesus Cristo que consta na lista de Marcos 6;3. Apesar dessa informação, Judas não usa seu parentesco com Nosso Senhor para com isso validar a autoridade de sua carta, pelo contrário, ele inicia sua identificação como sendo "servo de Jesus Cristo" (um costume muito comum por exemplo nas cartas paulinas, demonstrando humildade), mas lembra que é irmão de Tiago, um expoente no ensino da igreja ao lado dos apóstolos. Logo em seguida ele apresenta o destinatário de seus escrito: "...aos chamados, santificados em Deus Pai, e conservados por Jesus Cristo". É nítido que ele não determina um destino específico a sua carta, mas abrange várias igrejas de uma determinada região. No versículo 2, o escritor faz seus votos: "Misericórdia, e paz, e amor vos sejam multiplicados.
   Vale a ressalva de que o início da carta em si já revela a intenção de assegurar aos leitores sua condição, e com isso também demonstra que esse será o tema a ser desenvolvido em toda a carta.

   Para sintetizarmos as informações, faremos uma divisão, que acreditamos já esta explícita no texto.

                                 1ª Divisão: Combate aos falsos irmãos e falsos ensinos (Versos de 3 a 16)
                                 2ª Divisão: Aconselhamento pastoral (Versos 17 a 25)

   1 - Combate aos falsos irmãos e falsos mestres
 
 "Amados, procurando eu escrever-vos com toda a diligência acerca da salvação comum, tive por necessidade escrever-vos, e exortar-vos a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos". (Verso 3)

    Judas exibi nesse verso 3 uma mudança de planos na compilação inicial do manuscrito. Ele a principio parece ter decidido escrever à igreja sobre a "comum salvação", mas parece ter mudado de ideia percebendo a urgência em aconselhar os irmãos a combater os falsos ensinamentos junto com seus mentores, defendendo a fé que foi entregue de uma vez por todas a eles. A palavra fé aqui, tem uma conotação de o conjunto de doutrinas e credos que compõem a verdadeira religião em Cristo Jesus, devemos lembrar que o teor da carta é apologético, tendo em vista isso será mais fácil compreender o sentido das palavras.

"Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios, que convertem em dissolução a graça de Deus, e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso, Jesus Cristo". (Verso 4)

. Nesse trecho o autor começa a discorrer sobre a personalidade dos falsos mestres que estavam se infiltrando na igreja pregando heresias, e revela suas índoles. Em algumas traduções nos deparamos com o termo "dissimulação" como é o caso da almeida revista e atualizada. Tal afirmação remete o pensamento de que os que assim procediam, não vinham ao convívio da igreja exibindo claramente suas intenções de perverterem a sã doutrina, mas travestiam seus argumentos com aparentes "verdades". Mais adiante veremos mais claramente essa questão. Nos deparamos no texto com uma afirmação bastante peculiar: "que já antes estavam escritos para este mesmo juízo". Esta sentença nos indica que Deus já havia determinado que estes tais falsos mestre seriam condenados por essa perversão ao evangelho do Reino. É importante salientar isso, pois, Judas deixa bem claro o nível de reprovação que o Senhor tinha por pessoas que tais obras faziam, prevenindo os irmãos da igreja de terem qualquer dúvida que os pudesse inclinar a dar ouvidos a esses falsos mestre, destacando que não haverá misericórdia para os mesmo, numa que desde o princípio esses tais estão sob juízo condenatório, e são por isso irrecuperáveis. Já aplicando este versículos a nós, muitas vezes nos deparamos com a situação de que percebemos o erro claro na pregação de alguns homens, mas queremos estender-lhes o braço de misericórdia. Alguns de fato, quando confrontados percebem o erro e mudam seus corações para a verdade da escritura, mas devemos sempre ter em mente que outros como no caso do contexto em que Judas se encontra, são pessoas que endureceram seus corações e são irreconciliáveis como diz o apóstolo Paulo ao jovem presbítero Timóteo em 2Tm 3:3.  
    O erro que estava sendo disseminado por esses homens era a libertinagem para com a graça de Deus. Pregavam que; se a salvação é pela graça somente, poderíamos sem culpa viver nossas vidas sob nossas próprias rédeas, sem qualquer pesar de pecado, pois foi a obra de Cristo que nos salvou, e não nossas próprias ações. O termo "libertinagem" usado, se vale de uma conotação sexual, indicando que os hereges estavam interessados em perverter o ensino dos apóstolos fazendo crer que os irmãos poderiam levar uma vida adúltera, prostituta e devassa e ainda sim, estar em paz com Deus pois a salvação não depende deles, o que em hipótese alguma condiz com a verdade bíblica, como por exemplo escreve Paulo em sua carta aos romanos 6:1-2 "Que diremos pois? Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde? De modo nenhum. Nós, que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda para ele?". Esse viés de pensamento revela também a 'não regeneração' de tais homens, vendo que estavam ainda apegados as práticas mundanas, pois era comum na época nos cultos pagãos  o sexo explícito, adultério entre outras formas de perversão ao ato sexual. 

"Mas quero lembar-vos, como quem já um vez soube isto, que, havendo o Senhor salvo um povo, tirando-os da terra do Egito, destruiu depois os que não creram; E aos anjos que não guardaram seu principado, mas deixaram a sua própria habitação, reservou na escuridão e em prisões eternas até ao juízo daquele grande dia; Assim como Sodoma e Gomorra, e as cidades circunvizinhas, que, havendo-se entregue à fornicação como aqueles, e ido após outra carne, foram postas por exemplo, sofrendo a pena do fogo eterno". (Versos 5,6 e 7)
  
   Os versos a seguir como destacados, demonstram exemplos que por sua vez clarificam exemplos de pessoas que tentaram perverter a graça de Deus, ignorando os preceitos e ordenanças que o Criador receitou para seu povo. O primeiro é o povo que foi tirado da terra do Egito por Deus. Depois de o Senhor os ter livrado da casa da servidão com braço forte, de os ter provido no deserto com inúmeras bençãos e efetuando tantos milagres, o povo voltou-se para a idolatria e outros pecados. Notemos que Judas usa o termo "os que não creram", fazendo entender que, crer aqui tem o sentido de obediência e andar em retidão diante de Deus, tendo temor por Ele e seus mandamentos. Por consequência, foram destruídos. Em seguida Judas lembra os irmãos do que aconteceu com os próprios anjos, que estando em seus "status", não honraram a graça do Senhor querendo ser iguais ou maiores do que Deus, se unindo ao então Lúcifer, na tentativa de acender acima do Pai todo-poderoso. Seus fins foram serem expulsos do céu, caindo de seu estado, e sendo condenados ao tormento eterno. Por último, o autor usa as cidades de Sodoma e Gomorra como exemplo. É fácil perceber a ligação final do exemplo, se observarmos que Judas combate os libertinos, que pretendem incutir na mente dos irmãos a liberalidade sexual, talvez por isso o escritor tenha usado esse último exemplo para exortar os irmãos, pois sabemos que ambas as cidades foram também dizimadas pela truculência de seus pecados, através da homossexualidade, fornicação e outros, e foram assim postas como exemplos para quaisquer outros que calculem proceder da mesma maneira.

"E, contudo, também estes, semelhantemente adormecidos, contaminam a sua carne, e rejeitam a dominação, e vituperam as dignidades". (Verso 8)
 
   Nesse trecho Judas incrementa sua exortação, apontando um fato interessante. Em algumas traduções vemos Judas referir-se aos falsos mestre como "sonhadores alucinados". Provavelmente ele o faz tendo em vista que os hereges se valiam de sonhos e revelações para dar ênfase as suas palavras, além de por intermédio dessas ditas "revelações", eles alegavam terem maior eminência e importância que os apóstolos já que as recebiam "pelo próprio Deus". A demais do ensino torpe, não condizente com a doutrina dos apóstolos, tampouco sustentada pela escritura, a própria rebelião e tentativa de solapar a autoridade apostólica, renega ao status heresia o ensino desses falsos mestres. Além do que sabemos bem, que a escritura é a palavra de Deus, e que apenas ela é juiz sobre nossa vida, tornando-se então a voz inerrante e autoritativa sobre todo aquele clama o nome de Deus, e que nenhuma revelação (por mais que pareça verdadeira) pode servir de paradigma para qualquer questão de fé. Eles contaminavam a carne através da libertinagem que promoviam, e tentavam minar a autoridade dos líderes da igreja, com o fim de auto-promoção.


Mas quando o arcanjo Miguel, discutindo com o Diabo, disputava a respeito do corpo de Moisés, não ousou pronunciar contra ele juízo de maldição, mas disse: O Senhor te repreenda
Estes, porém, blasfemam de tudo o que não entendem; e, naquilo que compreendem de modo natural, como os seres irracionais, mesmo nisso se corrompem.
Ai deles! porque foram pelo caminho de Caim, e por amor do lucro se atiraram ao erro de Balaão, e pereceram na rebelião de Coré.
Estes são os escolhidos em vossos ágapes, quando se banqueteiam convosco, pastores que se apascentam a si mesmos sem temor; são nuvens sem água, levadas pelos ventos; são árvores sem folhas nem fruto, duas vezes mortas, desarraigadas;
ondas furiosas do mar, espumando as suas próprias torpezas, estrelas errantes, para as quais tem sido reservado para sempre o negrume das trevas.
Para estes também profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: Eis que veio o Senhor com os seus milhares de santos,
para executar juízo sobre todos e convencer a todos os ímpios de todas as obras de impiedade, que impiamente cometeram, e de todas as duras palavras que ímpios pecadores contra ele proferiram.
Estes são murmuradores, queixosos, andando segundo as suas concupiscências; e a sua boca diz coisas muito arrogantes, adulando pessoas por causa do interesse.
Judas 1:9-16
 
  A partir daqui, São Judas inciar seu desabafo, num combate franco e direto aos inimigos da sã doutrina. Toda a carta de Judas passou por um enorme problema de aceitação, devido ao uso que ele faz de documentos considerados apócrifos, como na citação do manuscrito "Assunção de Moisés", onde é relatado a narrativa de que, quando Moisés morreu, Deus o teria sepultado no monte. Satanás no entanto, reclamou seu corpo sob acusação de que, por ter matado (o egípcio), pertencia a ele. Deus por sua vez enviou o Arcanjo Miguel para informar o diabo que Moisés teria sido perdoado e que portanto, ele não teria qualquer poder sobre o corpo do servo de Deus. O fato para o qual Judas destaca importância é, que mesmo estando sob as ordens de Deus e portanto, com a razão, Miguel não insultou Satanás, mas apenas disse: "O Senhor te repreenda.". No versículo seguinte ele continua dizendo: "Estes, porém, blasfemam de tudo o que não entendem;", condenando a atitude dos falsos mestre, que se portavam de pior forma que Satanás, pois não compreendendo a vontade de Deus por meio da graça, blasfemam da mesma, se opondo a ela e incitando os irmãos a os seguirem.
   Durante todo o trecho Judas segue confrontando os dissimulados, com dureza, expondo seus comportamentos rebeldes e libertinos. Até que no versículo 14 ele cita outro documento considerado apócrifo, desta vez numa narrativa pessoal de Enoque, que por sua vez também faz uma afirmação de condenação aos ímpios, que se rebelam contra Deus em suas atitudes. Devemos absorver o conhecimento de que o fato de Judas ter citado documentos apócrifos, não canoniza estes, mas apenas os trechos usados, pois aprouve a Deus introduzi-los em sua palavra por intermédio de Judas, para corroborar o que está sendo dito por meio dele. A informação de que esse hereges têm apenas a intenção de auto-promoção procede do versículo 16, onde vemos a expressão: "e a sua boca diz coisas muito arrogantes, adulando pessoas por causa do interesse.". A adulação em questão remete ao ensino deles, que ao vez de confrontar o pecado e apontar para Cristo e o perdão que Ele oferece, agrada aos ouvidos e massageia o ego, numa que consiste em dar liberdade para que todos vivam da maneira que acharem melhor, e se lancem às práticas imorais que eles (os falsos mestre) desejam fazer.
      
2 - Aconselhamento pastoral

Mas vós, amados, lembrai-vos das palavras que foram preditas pelos apóstolos de nosso Senhor Jesus Cristo;
os quais vos diziam: Nos últimos tempos haverá escarnecedores, andando segundo as suas ímpias concupiscências.
Estes são os que causam divisões; são sensuais, e não têm o Espírito.
Mas vós, amados, edificando-vos sobre a vossa santíssima fé, orando no Espírito Santo,
conservai-vos no amor de Deus, esperando a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo para a vida eterna.
E apiedai-vos de alguns que estão na dúvida,
e salvai-os, arrebatando-os do fogo; e de outros tende misericórdia com temor, abominação até a túnica manchada pela carne.
Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos ante a sua glória imaculados e jubilosos,
ao único Deus, nosso Salvador, por Jesus Cristo nosso Senhor, glória, majestade, domínio e poder, antes de todos os séculos, e agora, e para todo o sempre. Amém.
Judas 1:17-25

 
   Em contraste com o duro e arrojado tom exortativo, agora Judas dá lugar a um aconselhamento pastoral com um ar mais amável, como é perceptível no início do versículo 17: "Mas vós, amados...". Ele interpela mais uma vez trazendo informações a memória dos irmãos, no tocante as palavras anteriormente proferidas pelos apóstolos, que já alertavam a igreja sobre o aparecimento de alguns, que se infiltrariam no meio deles, mas que na verdade escarneciam da sã doutrina e da pessoa de Jesus Cristo, sendo homens apegados as paixões desse mundo, e dando lugar apenas as suas próprias concupiscências e desejos, destacando ainda mais o modo de identificação dos falsos mestres. No versículo 19, ele adverte que aqueles que tiverem práticas comuns à descrição feita por ele, eram de fato os que corrompiam a igreja com dissenções, e sobre tudo não possuíam o Espírito. Este outro identificador pode ser também compreendido através da lista do fruto do Espírito Santo que o apóstolo Paulo apresenta em sua carta aos gálatas 5;22. Logo os que fogem disso, e procedem segundo a analise feita pelo apóstolo Judas, devem ser veementemente combatidos (como ele aconselha logo no início da sua carta). Mais uma vez o autor se vale do termo fé para apontar o conjunto de ensinos de compõem o cristianismo, como lemos no versículo 20: "Mas vós, amados, edificando-vos sobre a vossa santíssima fé", embasando a credibilidade dos manuscritos dos apóstolos e líderes da igreja como palavra de Deus, meio pelo qual devemos nos santificar, e fonte onde podemos reter o que precisamos para andar em harmonia e obediência a Deus, e em amor com nossos irmãos. Em suas últimas palavras Judas encoraja os irmãos a se compadecerem dos que estão em dúvidas (verso 22), devido ao fato de que, frente ao discurso dissimulado e "agradável" alguns irmãos poderiam ter sua fé abalada, e serem tentados a se entregar ao falso ensino. No verso 23 ele insiste que os santos, livrem esses irmãos do fogo, fazendo alusão ao destinos dos que abraçam o que dizem os falsos mestres, e adverte os santos a se afastarem deles, repudiando até mesmo suas vestes que tocam a carne inflamada pela imoralidade e perversão de seus corações corruptos.
   Nos versos finais (versos 24 e 25), Judas emite uma palavra de paz e segurança para que os irmãos se assegurem de estar caminhando segundo a vontade de Deus, abraçando o ensino dos apóstolos. Ele diz: "Ora, àquele que é poderoso para vos guardar de tropeçar, e apresentar-vos ante a sua glória imaculados e jubilosos", remetendo confiança em Cristo, pois ele os guardará do tropeço de cair em falsos ensinos e heresias, apresentando-os puros diante dele, e completa exclamando ditos de glória a Jesus Cristo.

   Nesta carta pequena, mas de indispensável importância, o apóstolo Judas, nos adverte a insistirmos no combate em defesa de nossa fé, contra homens maus e corrompidos no coração, que negam a Cristo como Senhor e sua graça tão preciosa, se valendo de heresias e falsos ensinos, que se apresentam de forma sútil e dissimulada na tentativa de se infiltrar na igreja causando doença e dúvida em nossos irmãos. Temos a segurança de salvação na pessoa de Jesus, mas de forma alguma essa segurança nos torna habilitados a andar segundo as nossas concupiscências e desejos, pois sabemos que ainda não fomos glorificados, portanto livres de uma vez para sempre da influência do pecado, e por isso, nossa vontade não é confiável. Devemos nos voltar cada vez mais a palavra de Deus, pois é ela que tem o poder para endireitar nosso caminho conduzindo a Cristo e por sua vez ao Senhor. É imprescindível manter-nos irrepreensíveis, para que possamos assim agradar ao Nosso Rei, sendo diligentes na obra e tendo amor a sua escritura, em obediência a Ele, e fraternos com nossos irmãos, ajudando-nos uns ao outros. Para tal, confrontarmos com a sabedoria de Deus e sua palavra, esses falsos ensinos e heresias que tentam contaminar nossas igrejas, arrastando-nos para um conhecimento superficial de Cristo, nunca foi tão imperativo quanto em nosso tempo. Que através das informações tão valiosas que este livro nos traz, possamos lutar o bom combate da fé, estando sempre prontos a defender nossa esperança em nosso Senhor Jesus Cristo.

Segui a paz com todos!
Via Devoltaafonte.

domingo, 15 de novembro de 2015

O que são os atos proféticos?

atos_profeticos
Antes de qualquer coisa é preciso dizer que a intenção deste artigo não é denegrir a imagem de ninguém e nem difamar quem quer que seja, especialmente porque acreditamos sempre que existe a possibilidade de arrependimento e mudança de atitude diante de uma postura errada, principalmente porque, como cristãos, devemos sempre esperar que haja o exercício do arrependimento, confissão e perdão (2Cr 7:14).
Um dos problemas mais comuns e recorrentes na igreja evangélica brasileira diz respeito às falhas de interpretação bíblica, quando alguns textos são distorcidos, ora propositalmente ora por imperícia, imprudência ou negligência. De uma forma ou de outra, a utilização inadequada de um texto ou de uma passagem bíblica tem levado muitas pessoas ao engano e ao erro. É exatamente isso o que ocorre com as práticas dos atos proféticos, tão comuns entre aqueles que seguem o Movimento da Fé.
Mas, afinal de contas, o que é um ato profético?
René Terranova, que foi ungido apóstolo, depois “paipóstolo” e Patriarca, por Morris Cerrullo, tem se destacado como um dos principais líderes defensores do Ato Profético no Brasil. Ele diz: “A linguagem profética traz ao reino físico a existência do mundo espiritual. Na maioria dos seus discursos, Jesus falava de uma forma espiritual e o povo entendia na forma física, porque lhes faltava discernimento espiritual” (TERRANOVA, 2009) [1].
Ainda, o grupo Reavivamento Europa dá a seguinte definição para Ato Profético:
Como o nome já sugere são ações realizadas por homens, profetas de Deus com determinado sentido profético, com intuito de profetizar com ações e símbolos. São sinais que apontam para o reino espiritual e que tem conseqüências no reino físico. São ações expressas em atitudes e palavras [2].
Então, na visão dos seguidores do Movimento da Fé, o Ato Profético seria uma ação envolta em simbologia que supostamente traria ao mundo físico as realidades espirituais. Para isso, os defensores desse pensamento utilizam passagens bíblicas, especialmente do Antigo Testamento, em que Deus manda que os profetas utilizem símbolos para transmitir a Sua mensagem, a exemplo dos umbrais das portas com sangue na noite da décima praga do Egito (Ex 12), a pregação sem roupas de Isaías (Is 20:3-4), as sete voltas em torno de Jericó (Josué), a canga de Jeremias (Jr 27:2), o cinto de linho enterrado às margens do rio Eufrates (Jr 13:1-11), a botija de barro quebrada diante do povo (Jr 19:1-11) etc.
Em primeiro lugar, as ações praticadas pelos profetas bíblicos não traziam nada à existência, como afirmam os seguidores do Movimento da Fé. Antes, tinham um caráter didático de ensino, instrução e orientação para o povo de Deus, a exemplo do profeta Oséias que casou com uma prostituta. A ação de Oséias, ordenada por Deus, visava fazer o povo entender que havia se prostituído diante do Senhor, mas que Ele, o Senhor, continuava fiel ao Seu povo (Os 3) buscando tirá-lo da prostituição, assim como Oséias fez com aquela mulher. Essa passagem bíblica nos mostra que a situação de Gômer, a prostituta, era a mesma situação do povo de Israel. Esse meio didático utilizado por Deus só demonstra que o povo estava em prostituição.
Essas ações proféticas encontradas na Bíblia não trazem à existência coisas espirituais. Elas tinham um caráter didático para corrigir o povo, ensinar o povo ou trazer juízo sobre um povo. Por isso diz-se que tais ações fazem parte dos atos salvadores de Deus na história.
Por essa razão é que o escritor aos Hebreus declara:
Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles. (Hb 1:1-4)
Em segundo lugar, a interpretação bíblica é distorcida com os Atos Proféticos da atualidade. Isso ocorre porque tais pessoas confundem o que é relato histórico e o que é ordem direta.
Um relato histórico é a descrição de algo que ocorreu no passado. Por exemplo, a Escritura relata que Judas traiu Jesus. E mais, a Bíblia revela que o próprio Jesus disse: “O que fazes, faze-o depressa” (Jo 13:27). Ainda, a Bíblia revela que Deus disse à Moisés: “tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa” (Ex 3:5). Ainda, a Bíblia revela que Jesus “cuspiu na terra e, tendo feito lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego” (Jo 9:6). Ainda, a Bíblia revela que quando os sacerdotes entrassem na tenda da congregação, ou quando fossem ministrar no altar, deveriam lavar as mãos e os pés com água para não morrerem, e “isto lhes será por estatuto perpétuo, a ele e à sua posteridade, através de suas gerações” (Ex 30:20,21). Ou seja, se um relato bíblico e histórico é entendido como uma ordem para o povo de Deus e deve ser visto em forma de Ato Profético, deveríamos, então, trair Jesus, pois Ele mesmo disse “O que fazes, faze-o depressa”; deveríamos tirar as sandálias toda vez que entrássemos na presença de Deus em oração, na igreja ou em uma reunião espiritual com irmãos (Ex 3:5); deveríamos cuspir na terra e fazer “lodo” para passar nos olhos dos cegos para os quais oramos (Jo 9:6); deveríamos lavar as mãos e os pés todas as vezes que fôssemos oferecer algum tipo de serviço ao Senhor, para não sermos mortos (Ex 30:20,21) etc.
O fato é que esses atos, encontrados em sua grande maioria no Antigo Testamento, são direcionados à um povo, evento ou situação específica, e a Bíblia está apenas relatando o que houve. A Bíblia não está estabelecendo uma regra ou dizendo que deveríamos reproduzir o ato. Ainda, o leitor da Bíblia deve observar o que o texto está dizendo, para quem está dizendo e para quando está dizendo. Muitas vezes algumas pessoas erram porque se apropriam de promessas que dizem respeito ao povo de Israel no Antigo Testamento, como se isso dissesse respeito a nós hoje. Portanto, uma coisa é a Bíblia relatar um fato, e outra coisa completamente diferente é a Bíblia dar uma ordem direta e aplicável a nós hoje, como essa:
Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais. Pois com que direito haveria eu de julgar os de fora? Não julgais vós os de dentro? Os de fora, porém, Deus os julgará. Expulsai, pois, de entre vós o malfeitor. (1Co 5:11-13)
Em terceiro lugar, erram por ignorar a suficiência das Escrituras.
A busca por Atos Proféticos é gerada pela sensação de que a Bíblia não é suficiente para nos falar, para nos corrigir e nem para nos orientar, e muito menos para suprir nossas reais necessidades.
O apóstolo Paulo alerta seu discípulo Timóteo sobre isso:
Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério. (2Tm 4:1-5)
Exatamente por essa razão, Jesus disse: “Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt 22:29).
O fato é que tais pessoas sentem a necessidade de algo mais, de uma nova experiência. Isso ocorre porque se afastaram dos princípios elementares da fé cristã e do Sola Scriptura. Para estes a Sagrada Escritura já não é suficiente, pois buscam algo mais. Contudo, esquecem que os atos dos profetas no Antigo Testamento, normalmente, estavam relacionados com o afastamento do povo dos princípios estabelecidos pelo Senhor, e como este povo estava negligenciando a Sagrada Escritura, Deus usa de outro meio para lhes falar ao coração. Por isso, ao buscar um suposto e hipotético Ato Profético estão apenas confessando publicamente o quão distante se encontram da Bíblia Sagrada.
Em quarto lugar, erram na contextualização e na aplicação dos princípios bíblicos.
Um exemplo que pode ser citado para ilustrar a questão é a armadura de Deus, em Efésios 6:10-20. Ali, naquele Texto, o apóstolo Paulo utiliza o artifício da ilustração para falar de verdades espirituais, e essas verdades são ilustradas através de uma realidade física. Ou seja, Paulo usa a armadura romana para falar da verdade da batalha espiritual, alicerçada no Evangelho da Paz (sandálias), Justiça (couraça), Salvação (capacete), Fé (escudo) e a Palavra de Deus (espada). Isso não quer dizer que o cristão tenha que usar uma armadura de verdade, ou que tenha que ter miniaturas de armaduras em sua casa como uma mandala, patuá ou amuleto, para estar protegido, pois isso seria superstição. Da mesma forma, os atos encontrados no Antigo Testamento, por exemplo, não precisam ser repetidos em nosso meio hoje, pois semelhantemente isso seria superstição, ou no mínimo seria o mesmo que achar que um método pode substituir ou provocar a ação do Espírito Santo, o que seria recair no erro do pragmatismo. Mas, é exatamente isso o que tem acontecido, quando essas “práticas” e “ações” são executadas com a finalidade de “bloquear”, “anular”, “derrubar” ou “vencer” fortalezas espirituais. Isso é o mesmo que os espíritas fazem ao usar sabonetes e sal grosso para tomar banhos de descarrego, ou usar alguns pós com supostos poderes especiais que acreditam poder livrar as pessoas de mal olhado, ou quando usam o pé de pinhão roxo para proteger suas casas e comércios, ou quando fazem um despacho para, supostamente, fechar o corpo contra maus espíritos. Tudo isso não passa de superstição, paganismo, feitiçaria e macumbaria.
Além do mais, é preciso destacar que não encontramos nenhuma ordem bíblica para que façamos tais coisas. É preciso relembrarmos que uma coisa é a Bíblia relatar algo que ocorreu, e outra, completamente diferente, é a Bíblia ordenar que pratiquemos algo.
Por isso, mais uma vez é preciso repetir o que o escritor aos Hebreus declara:
Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, NESTES ÚLTIMOS DIAS, NOS FALOU PELO FILHO, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles. (Hb 1:1-4)
Portanto, no passado Deus utilizou alguns meios didáticos para ensinar o povo e conduzi-los à verdade da chegada e da presença do Messias, Jesus Cristo. Mas, a partir de Jesus o meio que Deus tem utilizado é o próprio Jesus, mediante a ação do Espírito Santo, por meio da Sagrada Escritura. Se no passado Deus usou, por exemplo, o Urim e o Tumim (Ex 28:30), hoje Ele usa a Sua Sagrada Palavra, revelada aos Seus filhos.
Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar. (Hb 4:12-13)
Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus. Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra. (2 Tm 3:14-17)
A TRANSFERÊNCIA DE GERAÇÃO COMO UM ATO PROFÉTICO
A ideia de “Transferência de Geração”, praticada pelo grupo Diante do Trono, é caracterizada simplesmente como uma distorção e afastamento das Escrituras, baseada em manipulações de datas.
Para ver o vídeo da “Transferência de Geração” no youtube, clique AQUI.
O argumento utilizado para se defender a “Transferência de Geração” é de que existe uma promessa em Joel 1:3, em que são citadas cinco gerações, sabendo que uma geração dura em torno de 40 anos. Além disso, afirmam que um país só é considerado como tal após a sua independência, e como a independência do Brasil só ocorreu no dia 7 de setembro de 1822, a promessa de Deus é conduzida até meados dos anos 1980. Os defensores deste pensamento afirmam especificamente o ano de 1982. Então, essa geração de 1982 seria a responsável por promulgar um santo jejum, convocar uma assembleia solene, congregar todos os anciãos e todos os moradores da terra para a Casa do SENHOR e clamar à Ele (Joel 1:14).
O primeiro problema com o argumento utilizado é para quem foi destinada a promessa de Joel 1:3. Para quem o Texto está falando?
O contexto do livro de Joel diz respeito a devastação da terra por uma dupla praga, de locustas [3] e seca. Então, a promessa de Joel é de que se o povo de Israel voltar à adoração do Deus verdadeiro, a sua terra será restaurada, tanto da praga dos gafanhotos como da seca. Portanto, essa profecia diz respeito às pragas derramadas sobre o próprio povo de Deus por sua apostasia, na época de Joel. Dessa forma, se o fundamento para a transferência de Gerações, praticada pelo Diante do Trono, é o texto de Joel, então esse grupo está confessando publicamente a sua apostasia, assim como foi com o povo do profeta Joel.
O profeta Joel alerta o povo de que essa praga não deveria ser esquecida, e, por isso, precisava ser relembrada às gerações futuras para que estas gerações entendessem que ela era a representação de um juízo ainda maior no porvir. Se esta praga foi terrível, o Dia do Senhor será muito mais (Jl 2:1-11). Portanto, o que deveria ser lembrado às gerações futuras era o derramamento do juízo de Deus, que não tem nenhuma relação com a suposta Transferência de Gerações.
O segundo problema com o argumento utilizado é que não há nenhuma evidência bíblica de que uma geração dure 40 anos, como essas pessoas desejam.
Orlando Boyer afirmou que a geração é a “duração média da vida de um homem” (1998, p.292) [4], e Werner Kaschel e Rudi Zimmer afirmaram que uma geração é a “sucessão de descendentes em linha reta: pais, filhos, netos, bisnetos, trinetos, tataranetos (Sl 112.2; Mt 1.17)” (1999, p.79) [5], ainda afirmaram que geração pode ser o “conjunto de pessoas vivas numa mesma época” (Idem).
Então, o texto bíblico de Mateus 1:17 nos diz que de Abraão até Davi são 14 gerações, em que temos um tempo médio de mil anos. Portanto, cada geração dura em média 71 anos. Ainda, o Salmo 90:10 nos diz que “os dias da nossa vida chegam a setenta anos”, que é a duração média de uma vida. Portanto, aqui, uma geração dura em média 70 anos.
Com isso, não há nada que faça pensar que uma geração dure 40 anos, como pretendem os defensores dos Atos Proféticos e da Transferência de Geração.
O terceiro problema com o argumento utilizado é afirmar que um país só é considerado como tal após a sua independência. Mas a promessa de Joel não tem nenhuma relação com a formação de um país, especialmente porque o Israel étnico sempre existiu como nação, preservando a sua cultura e religiosidade, até mesmo quando não tinha um território, e mesmo durante os cativeiros. Ainda, este povo só passou a ser reconhecido como um país em 1948, quando foi fundado o Estado Moderno de Israel.
O quarto problema com o argumento utilizado é tentar fazer uma correlação entre esta profecia e o Brasil. Não existe nada no texto, absolutamente nada, que dê chance para isso. Dessa forma, podemos ver claramente como esses grupos distorcem a Bíblia deliberadamente e como fazem isso contando sempre com a falta de conhecimento, falta de discernimento e falta de entendimento do povo. Esse é um claro exemplo de como a Bíblia tem sido tratada com desprezo e descaso por esses grupos.
Para piorar a situação, ainda mais, utilizam os textos de 1Samuel 16:13 e 2Coríntios 3:4-6 para fundamentar a prática de Transferência de Geração. Vejamos os textos:
Tomou Samuel o chifre do azeite e o ungiu no meio de seus irmãos; e, daquele dia em diante, o Espírito do SENHOR se apossou de Davi. Então, Samuel se levantou e foi para Ramá. (1Sm 16:13)
E é por intermédio de Cristo que temos tal confiança em Deus; não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus, o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica. (2Co 3:4-6)
O texto de 1Sm 16:13 relata o encontro entre Davi e Samuel, quando Davi foi ungido pela primeira vez. Esse texto fala da chamada de Davi ao trono de Israel, mas não pode ser visto como algo que se repete nos dias de hoje, especialmente porque o texto diz que nesse momento, com Davi, o Espírito do SENHOR se apossou dele. Contudo, na Nova Aliança o Espírito Santo se apossa do convertido no momento da conversão. Por isso que o apóstolo Paulo nos diz que “em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito” (1Co 12:13). E diz mais, pois “não estais na carne, mas no Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habita em vós. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8:9). Portanto, não podemos afirmar que o fato de alguém ser ungido com azeite nos dias de hoje é o princípio para a chegada do Espírito Santo e nem para a Sua descida. Muito menos que é sinal da aprovação Divina.
O que vemos com isso, mais uma vez, é a apropriação indevida de um texto que está em outro contexto, dentro de outra Aliança e que é dirigido à outra pessoa. Um texto que é descritivo e que é manipulado para parecer uma ordem direta ou orientação Divina para sua repetição na atualidade.
O texto de 2 Coríntios 3:4-6 é outro que tem sido muito distorcido e mal interpretado por muitas pessoas. Essa passagem diz respeito a Nova Aliança, em que todo membro é um sacerdote, diferente da antiga Aliança. Se na antiga Aliança havia um grupo exclusivo de sacerdotes, na Nova Aliança todo membro é um ministro e sacerdote, como pode ser visto aqui. Portanto, todo aquele que nasceu de novo é um ministro da Nova Aliança, e esta Aliança não é da letra, ou seja, não é igual àquela que foi gravada com letras em pedras (3:7), porque a letra mata (3:6). Mas que letra é essa? Como já foi dito, é a letra que foi gravada em pedras (3:7), isto é, a Lei que foi dada à Moisés. Esta letra que mata, portanto, não tem nenhuma relação com o estudo ou pesquisa, mas com a Lei do Antigo Testamento.
Nesse sentido, Moisés fez algo que poderia ser visto como um ato profético, pois ele passou a usar um véu sobre a face. Porém, o apóstolo diz que “não somos como Moisés, que punha véu sobre a face, para que os filhos de Israel não atentassem na terminação do que se desvanecia” (3:13), e que para alguns, “até ao dia de hoje, quando fazem a leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que, em Cristo, é removido” (3:14). Por isso, não precisamos de certos artifícios, porque se essa letra em tábuas de pedra é vista como “ministério da condenação”, devemos entender que “em muito maior proporção será glorioso o ministério da justiça” (3:9), que é o que vivemos hoje na Nova Aliança. E este véu, usado por Moisés, foi apenas um artifício utilizado por ele para que o povo não percebesse que a glória de Deus estava desvanecendo. Portanto, o uso desse tipo de prática, nos dias de hoje, é apenas uma tentativa de ludibriar o povo, um artifício, para que este pense que a glória de Deus está presente ali, naquele “rosto”.
Por isso, não precisamos de Atos Proféticos e nem de unções descabidas.
Por isso, podemos ver com clareza como esses grupos distorcem a Sagrada Escritura, a exemplo da utilização de 2Coríntios 3:17: “Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade”.
Bem, a liberdade quando é do Senhor nem dá lugar à carne (Gl 5:13), nem deturpa a verdade do Evangelho (1Pe 2:16) e nem causa escândalo (2 Co 6:3). Já que esse não tem sido o caso desses grupos só podemos concluir, biblicamente, que essa liberdade que têm utilizado não provém de Deus e que mais uma vez o texto bíblico utilizado não fundamenta as suas práticas.
Por último, só para entender com mais clareza como a prática do Ato Profético é uma distorção e como tem sido utilizada para fins antibíblicos, vejamos o que René Terranova diz sobre a relação que existe entre Ato Profético, mapeamento de genealogia e maldição hereditária:
A Bíblia relata que os judeus davam muita importância à genealogia, ao conhecimento de suas origens. Os judeus ortodoxos têm o costume de registrar a genealogia de suas famílias. Nós poderíamos ter essa cultura, mas nossa história é muito mal formada. Mal conhecemos a identidade de nossos pais, muito menos do nosso povo e nem sabemos como retratar nossa árvore genealógica.Um dos nomes de Jesus é Raiz de Davi, porque no contexto messiânico se Jesus não fosse a Raiz de Davi, não seria o Messias (Mt. 1). Em certas ocasiões, poderemos tentar uma conquista de território, mas nosso argumento genealógico poderá ser empecilho por não termos respaldo local ou não termos um nome de família honrado. Deus pode mudar esse quadro restaurando a nossa genealogia com um ato profético de quebra de maldições dos antepassados. Procure pelo menos descobrir quem foram seus familiares até a quarta geração que lhe antecedeu. Quando resgatamos a nossa história genealógica conhecendo nossas origens, fica mais fácil quebrar maldições hereditárias [6].
Contudo, Colin Brown Lothar demonstra que esse tipo de pensamento não passa de uma heresia, e que já era praticada por grupos anticristãos a exemplo do gnosticismo, ebionismo e pelos defensores dos misticismos judaicos:
Genealogia ocorre no NT somente em 1Tm 1:4 e Tt 3:9, e alude especificamente à prática de pesquisar a árvore genealógica a fim de estabelecer a descendência. Segundo qualquer exegese direta, aqueles que assim faziam somente podem ter sido judeus, que, a partir de genealogias do AT e de outras, estavam propagando todos os tipos de “mitos judaicos”, bem como, provavelmente, especulações gnósticas pré-cristãs. É também possível que os ebionitas empregassem argumentos semelhantes para atacarem a doutrina do nascimento milagroso de Jesus que circulava na igreja cristã [7].
Portanto, a única coisa que podemos perceber com tudo isso é que estamos simplesmente presenciando o surgimento de heresia em cima de heresia e que não há nada novo debaixo do sol (Ec 1:9).
Que Deus nos ajude.
NOTAS
[1] Atos proféticos na Igreja – comandos do Espírito Santo. Disponível em: <http://www.reneterranova.com.br/site/content/ministracoes.php?id=9>. Acesso em: 24 abr 2014.
[2] O que é um ATO PROFÉTICO?. Disponível em: <http://reavivamentoeuropa.wordpress.com/o-que-e-um-ato-profetico/>. Acesso em: 24 abr 2014.
[3] Locusta é uma espécie de gafanhoto.
[4] BOYER, Orlando. Pequena Enciclopédia Bíblica. São Paulo: Vida, 1998.
[5] KASCHEL, Werner; ZIMMER, Rudi. Dicionário da Bíblia de Almeida. Rio de Janeiro: CPAD, 1999.
[6] Atos proféticos na Igreja – comandos do Espírito Santo. Disponível em: <http://www.reneterranova.com.br/site/content/ministracoes.php?id=9>. Acesso em: 24 abr 2014.
[7] LOTHAR, Colin Brown. Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2000. p.855

Via Napec Apologética Cristã

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Eis que estou à porta e bato

.
Por: Luís Carlos Batista

"E ao anjo da igreja que está em Laodicéia escreve: Isto diz o Amém, a testemunha fiel e verdadeira, o princípio da criação de Deus: Conheço as tuas obras, que nem és frio nem quente; quem dera foras frio ou quente! Assim, porque és morno, e não és frio nem quente, vomitar-te-ei da minha boca. Como dizes: Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta; e não sabes que és um desgraçado, e miserável, e pobre, e cego, e nu; Aconselho-te que de mim compres ouro provado no fogo, para que te enriqueças; e roupas brancas, para que te vistas, e não apareça a vergonha da tua nudez; e que unjas os teus olhos com colírio, para que vejas. Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te. Eis que estou à porta, e bato; se alguém ouvir a minha voz, e abrir a porta, entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo. Ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono; assim como eu venci, e me assentei com meu Pai no seu trono. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas." (Apocalpse 3.14-22)

Dia desses quando passava pelo calçadão de Campo Grande, bairro aqui no Rio de Janeiro, acontecia um culto público. Eram irmãos da Assembléia de Deus, em um culto bem característico desta denominação. O pregador, então, exortava os transeuntes que se convertessem a Jesus, e o apelo estava baseado na expressão de Jesus no Apocalipse: “eis que estou à porta e bato”. Jesus quer entrar no teu coração, mas você tem que abrir a porta para ele, ensinava o pregador. A utilização deste versículo como apelo evangelístico é bem comum no meio evangélico, contudo não é este o sentido original do texto.

Apocalipse 3.14-22 é uma carta endereçada a igreja cristã de Laodicéia. Uma exortação aos cristãos e não um apelo evangelístico. Com esta afirmação não quero dizer que a utilização do versículo para fins evangélisticos seja ilegítima, apenas quero afirmar que o sentido primário do texto não é este. É preciso estar atento a tal fato, pois muitas heresias surgem de interpretações que tiram o texto de seu contexto original.

O apelo de Ap 3.20 (“eis que estou à porta e bato (...)”) é o desafio para a renovação espiritual dos cristãos de Laodicéia. O fervor inicial foi perdido, a igreja outrora quente, agora está morna. Melhor que eles fossem frios, pois ficaria claro que eles não eram cristãos, mas a situação em que viviam produzia um escândalo para a fé cristã. Eles se diziam discípulos de Jesus, mas sua vida indicava outra coisa. A fé cristã para eles se tornou numa mera rotina, tudo agora era mecânico. Não é este um perigo para a nossa fé hoje em dia também? Nos acostumamos com a fé cristã, Jesus e igreja, e nos tornamos em cristãos mornos. Nada pior, a palavra de Jesus é dura para os mornos: vou vomitá-los de minha boca.

Outro problema causou a estagnação espiritual de Laodicéia, a auto-suficiência. Somos ricos e não precisamos de nada mais. Uma condição básica para o discípulo de Jesus é a dependência de Jesus, sem ele nada podemos fazer, o real sentido da humildade cristã. Quando achamos que podemos seguir sozinhos, a derrota se inicia. Por mais que avancemos em nossa fé, por mais maduros que sejamos, nunca podemos prescindir da ação do Espírito Santos em nossas vidas.

Diante da lamentável situação dos cristãos de Laodicéia, Jesus os exorta: “Eu repreendo e castigo a todos quantos amo; sê pois zeloso, e arrepende-te.” Jesus não os abandonou, o seu amor era o mesmo por aqueles cristãos. O castigo era uma expressão deste amor, o apelo era para que eles se arrependessem! Era necessária uma mudança radical de atitude, uma renovação espiritual como diríamos hoje.

O amor de Jesus também fica claro com a imagem de que ele estava do lado de fora da igreja, mas batia a porta de forma insistente. Os cristãos de Laodicéia podem ter colocado Jesus para fora de suas vidas, mas Jesus não os deixou a vagar sozinhos. Ele continuava a expressar o seu amor incondicional e gracioso para os cristãos de Laodicéia. Nada mais consolador. Nossos erros e pecados podem colocar Jesus para fora de nossas vidas, mas Ele sempre estará do nosso lado, batendo a porto do nosso coração.

Diante do apelo amoroso de Jesus (“eis que estou à porta e bato”), a resposta esperada era atenção a sua palavra e obediência. “Se alguém ouvir minha voz e abrir a porta”. Em toda situação de debilidade espiritual, uma saída indispensável é ouvir a palavra de Jesus, ouvir a Palavra de Deus. Em todos os grandes avivamentos espirituais, da Reforma Protestante ao aviamento americano do Século XIX, todos foram motivados pela leitura da Palavra de Deus. Não basta, porém, ouvir a voz de Deus, a obediência é atitude que se segue de imediato. Ouvir e obedecer, duas atitudes inseparáveis na vida do cristão.

E qual o resultado da renovação espiritual? Nada de acontecimentos fantásticos e inusitados, mas sim a simples e profunda intimidade com Jesus: “entrarei em sua casa, e com ele cearei, e ele comigo.”. É sabido que a refeição conjunta no contexto histórico de Jesus, a Palestina do primeiro século, representava mais do que simplesmente comer uma refeição em conjunto, representava uma íntima comunhão. Partilhar uma refeição era o mesmo que partilhar um pouco de si mesmo com o outro. Esta a razão do escândalo dos fariseus perante a comum atitude de Jesus de comer junto com os pecadores e marginalizados. Quando Jesus volta ao centro do nosso coração, a comunhão é restabelecida, não há mais uma vida morna, nem arrogância, mas sim a doce e transformadora presença de Jesus. Amém.

Luís Carlos Batista
Fonte: [ Blog do autor ]

Via Bereianos

A Incapacidade Humana- C.H. Spurgeon

Um Sermão (Nº 0182)
Pregado na Manhã de Domingo, 07 de Março de 1858 pelo
Reverendo C. H. Spurgeon
No Salão de Música, Royal Surrey Gardens – Inglaterra

"Ninguém pode a vir mim, se o Pai que me enviou não o trouxer." (João 6: 44)
"Vir a Cristo" é uma frase muito comum nas Sagradas Escrituras. Ela é usada para expressar aquelas ações da alma em que, deixando imediatamente nossa justiça própria e nossos pecados, corremos para o Nosso Senhor Jesus Cristo, e recebemos Sua justiça para ser nossa coberta, e Seu sangue para ser nossa expiação. Vir a Cristo, então, inclui arrependimento, autonegação, e fé no Senhor Jesus Cristo, e agregam dentro de si todas aquelas coisas que são o necessário acompanhamento destas grandes condições do coração, tais como a crença na verdade, diligência na oração a Deus, e submissão da alma aos preceitos do evangelho de Deus, e todas aquelas coisas que acompanham a aurora da salvação da alma. Vir a Cristo é exatamente a única coisa essencial para a salvação do pecador. Aquele que não vir a Cristo, faça o que faça, ou pense o que pense, está ainda "em fel de amargura e laço de iniqüidade". Vir a Cristo é o primeiro efeito da regeneração. Tão pronto como a alma é vivificada, descobre sua condição perdida, e se horroriza ante seu estado, busca refúgio, e crendo encontrá-lo em Cristo, corre para Ele e repousa nEle. Aonde não há esse vir a Cristo, certamente tampouco tem havido vivificação; e onde não há vivificação, a alma está morta em delitos e pecados, e sendo morta não pode entrar no reino dos céus. Temos diante de nós uma declaração muito surpreendente; alguns dizem muito ofensiva. Vir a Cristo, apesar de ser descrita por muitas pessoas como sendo a coisa mais fácil em todo o mundo, é em nosso texto declarado como sendo uma coisa absolutamente e completamente impossível para qualquer homem, a menos que o Pai o traga para Cristo. Será nossa ocupação, então, estendermos sobre esta declaração. Não duvidamos que sempre será ofensiva para a natureza carnal, porém, apesar disso, a ofensa à natureza humana é às vezes o primeiro passo para trazê-la humilhada diante de Deus. E se este será o efeito de um doloroso processo, podemos esquecer a dor e regozijar nas gloriosas conseqüências.
Me esforçarei nesta manhã para, em primeiro lugar, noticiar a incapacidade humana, e em que ela consiste. Em segundo lugar, as atrações do Pai – o que elas são, e como elas são exercidas sobre a alma. E então concluirei considerando um doce consolo que pode ser derivado deste aparentemente árido e terrível texto.

I. Primeiramente, então, a INABILIDADE DO HOMEM. O texto diz, "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou não o trouxer." Onde situa-se esta incapacidade ?
Primeiro, ela não reside em qualquer defeito físico. Se para vir a Cristo, mover o corpo ou andar com nossos pés fosse de qualquer auxílio, certamente o homem teria todo poder físico para vir a Cristo nesse sentido. Recordo haver ouvido um néscio Antinomiano declarar, que ele não cria que qualquer homem tivesse poder para ir à casa de Deus, a menos que o Pai o trouxesse. Ora, o homem foi simplesmente tolo, porque ele deveria ter entendido que enquanto o homem estiver vivo e tiver pernas, é tão fácil para ele ir à casa de Deus como para a casa de Satanás. Se o vir a Cristo compreende a articulação de uma oração, o homem não tem nenhum defeito físico nesse respeito; se ele não é mudo, pode dizer uma oração tão facilmente como pode expressar uma blasfêmia. É tão fácil para um homem cantar um dos hinos de Sião como cantar uma profana e lasciva canção. Não há falta de poder físico para vir a Cristo. Tudo quanto pode ser necessário em relação a força corpórea, o homem, certamente o tem; e se qualquer parte da salvação consiste nisto, estaria totalmente e completamente ao seu alcance sem qualquer assistência do Espírito de Deus. Nem tampouco, esta incapacidade reside em alguma deficiência mental. Eu posso crer que a Bíblia é a verdade tão facilmente como posso crer que qualquer outro livro o seja. Considerando o crer em Cristo como um mero ato da mente, estou apto para crer em Cristo como em qualquer outro. Admitindo que sua declaração seja verdade, é infundado que se me diga que não posso crer. Posso crer nas declarações que Cristo fez, assim como nas declarações de quaisquer outras pessoas. Não há deficiência de faculdade na mente: o homem é capaz de apreciar como um mero ato intelectual a culpa do pecado tanto como a responsabilidade de um assassinato. Da mesma forma que é possível para mim exercitar a idéia mental de buscar a Deus, posso exercitar o pensamento de ambição. Tenho todo o poder e força mental que possa talvez ser necessário, se o poder mental fosse necessário na salvação de um modo absoluto. Pelo contrário, não há nenhum homem tão ignorante que possa alegar a falta de inteligência como uma escusa para rejeitar o evangelho. Logo, o defeito não reside no corpo, ou, no que chamamos, teologicamente falando, na mente. Não há qualquer deficiência ou insuficiência nela, embora que a depravação da mente, a corrupção ou ruína dela, é, depois de tudo, a própria essência da incapacidade humana.
Permita-me mostrar-lhes onde reside realmente esta incapacidade do homem. Ela reside no profundo de sua natureza. Através da queda, e pelo nosso próprio pecado, a natureza do homem tornou-se tão rebaixada, depravada e corrompida, que é impossível para ele vir a Cristo sem a assistência de Deus o Espírito Santo. Agora, na tentativa de demonstrar como a natureza do homem tem de tal modo o tornado incapaz de vir a Cristo, permitam-me neste momento tomar esta figura. Contemplai uma ovelha; quão voluntariamente ela se alimenta sob a pastagem ! Vocês nunca conheceram uma ovelha suspirar por cadáver; não poderia se alimentar do que come o leão. Agora trazei-me um lobo; e me perguntem se um lobo não pode comer grama, ou se ele não pode ser tão dócil e domesticado da mesma forma como uma ovelha. Respondo: NÃO !!; porque sua natureza é contrário a isso. Você diz: "Bem, ele tem orelhas e patas; não poderia ouvir a voz do pastor, e segui-lo onde quer que o levasse ?" Eu respondo: certamente; não há causa física pela qual não possa fazê-lo, porém sua natureza o impede, e portanto digo: ele não pode fazê-lo. Não poderia ser domado ? não poderia sua ferocidade ser removida ? Provavelmente poderia ser subjugado, e deste modo tornar-se aparentemente domesticado; mas sempre existirá uma marcada distinção entre ele e a ovelha, porque há uma distinção na natureza.
Assim pois, a razão pela qual o homem não pode vir a Cristo, não é porque haja incapacidade em sua mente ou corpo, porém porque sua natureza está tão corrompida que não tem nem o querer nem o poder para vir a Cristo, a menos que seja trazido pelo Espírito. Porém, deixe-me dar-lhes uma ilustração melhor. Vocês vêem uma mulher com seu bebê em seus braços. Coloque uma faca em suas mãos, e ordene-a que apunhale esse bebê no coração. Ela replica, e mui verdadeiramente: "Eu não posso". Agora, no que se refere ao seu poder corporal, ela possui, se quisesse; há uma faca, e há uma criança. A criança não pode resistir, e ela possui suficiente força em sua mão para imediatamente cravar a faca em seu coração. Porém, ela está completamente correta quando diz que não pode fazê-lo. Ela pode pensar em matar em seu filho como um mero ato da mente, e ainda assim diz que lhe é impossível pensar semelhante coisa; e não fala falsamente quando assim diz, porque sua natureza de mãe não lhe permite fazer algo ante o qual toda a sua alma se revolta. Simplesmente porque ela é mãe daquele menino, sente que não pode matá-lo. E assim ocorre com o pecador. O vir a Cristo é tão odioso para a natureza humana que, ainda que no que diz respeito às forças mentais e físicas (e estas não tem senão uma mui pequena ação na salvação), os homens poderiam vir se quisessem: é estritamente correto dizer que não podem nem querem, a menos que o Pai que enviou a Cristo lhes traga. Deixe-nos entrar um pouco mais profundamente na questão, e tentar mostrar no que consiste esta inabilidade do homem, em suas mais minuciosas particularidades.
1. Primeiramente, ela reside na obstinação da vontade humana. "Oh", diz o Arminiano, "os homens podem serem salvos se quiserem." Nós replicamos: "Meu querido senhor, todos nós cremos nisto; mas é precisamente no se eles quiserem onde está a dificuldade. Afirmamos que ninguém quer vir a Cristo, a menos que ele seja trazido; pelo contrário, nós não afirmamos isto, mas o próprio Cristo o declara: "Mas não quereis vir a mim para terdes vida"; e enquanto este "não quereis" permanecer registrado na Santa Escritura, não seremos inclinados a crer em qualquer doutrina da liberdade da vontade humana. É estranho como as pessoas, quando falam sobre o livre-arbítrio, discutem de coisas que eles não tem nenhum entendimento. "Ora", diz alguém, "eu creio que os homens podem serem salvos se eles quiserem." Meu querido senhor, de modo algum é esta a questão. A questão é: os homens alguma vez são encontrados naturalmente dispostos a submeterem-se aos termos humilhantes do evangelho de Cristo ? Declaramos, sob a autoridade das Escrituras, que o homem está tão desesperadamente em ruína, tão depravado, e tão inclinado a tudo o que é mal, e tão oposto a tudo o que é bom, que sem a poderosa, sobrenatural e irresistível influência do Espírito Santo, nenhum ser humano quererá jamais ser constrangido para Cristo.
Você replica, que os homens algumas vezes estão desejosos, sem a ajuda do Espírito Santo. Eu respondo: Você encontrou alguma vez alguma pessoa que estivesse? De dezenas e centenas, pelo contrário, de milhares de Cristãos de diferentes opiniões com os quais tenho conversado, jovens e velhos, jamais tive a sorte de encontrar-me com um que pudesse afirmar que veio a Cristo por si mesmo, sem ser trazido. A confissão universal de todos verdadeiros crentes é estas: "Eu sei que se Jesus Cristo não me houvesse buscado quando eu era um errante peregrino do redil de Deus, agora estaria longe, muito longe dEle, e amando cada vez mais esta distância." Em consentimento mútuo, todos crentes afirmam a verdade que, os homens não viriam a Cristo até que o Pai que O enviou lhes trouxesse.
2. Novamente, não somente é a vontade obstinada, mas o entendimento está entenebrecido. Disto temos abundante provas nas Escrituras. Não estou fazendo meras afirmações, mas declarando doutrinas autoritariamente ensinadas nas Sagradas Escrituras, e gravadas na consciência de cada Cristão – que o entendimento do homem está tão entenebrecido, que não pode por quaisquer meios entender as coisas de Deus até que seu entendimento seja aberto. O homem é cego por natureza. A cruz de Cristo, tão carregada de glórias e de esplêndidos atrativos, nunca atrai o pecador, porque é cego e não pode ver suas belezas. Fale-lhe das maravilhas da criação, mostre-lhe o arco multicolor que cruza os céus, deixe-lhe contemplar as glórias de uma paisagem, e ele será capaz de ver todas estas coisas; mas fale-lhe das maravilhas do concerto da graça, da segurança do crente em Cristo, das belezas da pessoa do Redentor, e será completamente surdo para todas suas descrições; na verdade, tu serias como um que tocara uma bela melodia; porém ele não prestaria atenção, ele é surdo, não pode compreender. Ou, para retornar ao verso que tão especialmente marcamos em nossa leitura: "Ora, o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhes parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente"; e na medida em que ele é um homem natural, não está em seu poder o discernir as coisas de Deus. "Bem", diz alguém, "eu acredito que tenho chegado a um discernimento bastante tolerável nos assuntos de teologia. Creio que entendo quase todos os pontos." Certo, podes haver chegado, porém somente na letra; porque no espírito dela, na verdadeira recepção para a alma, à uma compreensão real dela, é impossível que você tenha chegado, a menos que você tenha sido trazido pelo Espírito. Enquanto as Escrituras permanecerem verdadeiras, a mente carnal não poderá receber as coisas espirituais, será verdade que você não pode recebê-las, a menos que tenhas sido regenerado e feito um homem espiritual em Cristo Jesus. A vontade, então, e o entendimento são duas grandes portas, ambas bloqueadas e impedindo o nosso vir a Cristo, e até que elas sejam abertas pelas doces influências do Divino Espírito, elas deverão permanecer para sempre fechadas para qualquer coisa semelhante ao vir a Cristo.
3. Consideraremos agora esta incapacidade nas afeições, que constituem uma grande parte do indivíduo e que estão também depravadas. O homem, tal como ele é antes de receber a graça de Deus, ama qualquer e todas coisas mais do que as coisas espirituais. Se querem evidências disto, olhem ao redor de vocês. Não é necessário nenhum monumento para a depravação das afeições humanas. Lancem os seus olhos em qualquer lugar – não há uma rua, nem uma casa, mais ainda, nenhum coração, que não possa demonstrar a triste evidência desta terrível verdade. Por que os homens não são universalmente encontrados no Dia do Senhor reunidos na casa de Deus? Por que não somos mais constantemente achados lendo nossas Bíblias? Por que a oração é um dever quase universalmente negligenciado? Por que Cristo Jesus é tão pouco amado? Porque até seus seguidores professos são tão frios nas suas afeições para com Ele? De onde originam-se estas coisas? Certamente, queridos irmãos, não podemos atribui-las a nenhuma outra fonte que não seja esta: a corrupção e perversão das afeições. Amamos o que deveríamos odiar, e odiamos o que deveríamos amar. É devido a natureza humana, a natureza humana caída, que os homens amam esta presente vida mais do que a vida vindoura. Não é senão pelo efeito da queda, que o homem ama mais o pecado do que a justiça, e os caminhos deste mundo do que os caminhos de Deus. E novamente repetimos, até que estas afeições sejam renovadas, e transformadas em um fresco canal pela misericórdia do Pai, não é possível para qualquer homem amar o Senhor Jesus Cristo.
4. Uma vez mais – a consciência, também tem sido subjugada pela queda. Eu creio que não há maior e mais rude erro feito pelos teólogos, do que quando ensinam às pessoas que a consciência é o representante de Deus na alma, e que é um daqueles poderes que conservam sua primitiva dignidade, levantando-os no meio da queda de seus companheiros. Meus irmãos, quando o homem caiu no jardim, caiu completa e inteiramente; não há um só pilar no templo da humanidade que permaneceu de pé. É verdade que a consciência não foi destruída. O pilar não foi estilhaçado; ele caiu, caiu inteiro, e ali permaneceu como o mais poderoso vestígio do que foi a obra perfeita de Deus no homem. Porém que a consciência caiu, estou seguro. Contemplai os homens. Quem dentre eles é possuidor de uma "boa consciência para com Deus", senão o homem regenerado ? Imaginas que, se as consciências dos homens sempre falassem em alta voz e claramente para eles, poderiam viver em diária concessão de atos, que são tão opostas à justiça como as trevas à luz ? Não, amados; a consciência pode me dizer que sou um pecador, porém a consciência não pode me fazer sentir que sou. A consciência pode dizer-me que tal e tal coisa é errada, porém quão errada ela é, a consciência por si só não pode saber. Tem a consciência do homem, sem a iluminação do Espírito, alguma vez lhe advertido que seus pecados merecem a condenação ? Ou se o tem feito, levou qualquer homem a sentir um aborrecimento do pecado como pecado ? De fato, tem a consciência jamais trazido um homem à renúncia de si mesmo, de forma que ele se auto-abominasse totalmente e a todas as suas obras, e vindo a Cristo ? Não, a consciência, embora não morta, está arruinada, seu poder está debilitado, já não tem aquela pureza de olhos e aquela força de mão, nem aquele trovão de voz, que teve antes da queda; porém tem cessado em grande grau de exercer sua supremacia na cidade da Alma Humana. Assim pois, amados, se torna necessário por esta mesma razão - porque a consciência está depravada - que o Espírito Santo intervenha, para nos mostrar a nossa necessidade de um Salvador, e levar-nos ao Senhor Jesus Cristo.
"Então", dirá alguém, "pelo que você tem dito até agora, me parece que você considera que a razão porque os homens não vem a Cristo é a de não querer em vez de a de não poder". Certo, mais do que certo. Eu creio que a grande razão da incapacidade humana é a obstinação de sua vontade. Uma vez superado isto, creio que está revolvida a grande pedra do sepulcro, e a parte mais difícil da batalha já está ganha. Porém, permitam-me que vá um pouco mais longe. Meu texto não diz: "Ninguém quer vir", mas diz, "Ninguém pode vir". Agora bem, muitos intérpretes crêem que o pode aqui, é senão uma forte expressão transmitindo não mais do que o significado da palavra querer. Estou firmemente seguro que esta interpretação não é correta. Há no homem, não somente indisposição para ser salvo, mas também uma impotência espiritual para vir a Cristo; e isto provarei ao menos para cada Cristão. Amados, falo a vós que já haveis sido vivificados pela graça divina; não vos ensina vossa experiência que há tempos que quereis servir a Deus, e todavia não tens o poder para fazê-lo ? Não tem havido ocasiões nas quais vocês tem sido obrigados a dizer que quiseram crer, porém tiveram que orar: "Senhor, ajuda minha incredulidade?". Porque, embora desejosos de receber testemunho de Deus, vossa natureza carnal foi forte demais para vocês, e sentiram a necessidade de ajuda sobrenatural. Vocês são capazes de entrar em vosso quarto a qualquer hora que quiserem, e cair sobre seus joelhos e dizer: "Agora, é a minha vontade que serei extremamente fervoroso na oração, e que me aproximarei de Deus ?" Eu pergunto: encontrareis vosso poder semelhante ao vosso querer ? Podereis dizer, até mesmo diante do tribunal de Deus, que sois sinceros em vossa boa vontade; estão desejosos de serem envoltos na devoção, e é vosso desejo que vossa alma não se aparte de uma pura contemplação do Senhor Jesus Cristo, porém vejam que, até quando vocês estão dispostos, não podereis fazê-lo sem a ajuda do Espírito. Agora bem, se os filhos vivificados de Deus encontram uma incapacidade espiritual, quão muito mais o pecador que está morto em delitos e pecados ? Se até o Cristão maduro, depois de trinta ou quarenta anos, se encontra às vezes disposto e todavia sem poder – se tal é sua experiência – não parecerá mais do que lógico que o pobre pecador que ainda não creu, necessite o poder tanto como o querer da vontade ?
Porém ainda há outro argumento. Se o pecador tem poder para vir a Cristo, gostaria de saber como vamos interpretar as contínuas descrições que se nos fazem na santa Palavra de Deus sobre a situação do pecador ? Ora, o pecador é dito como estando morto em delitos e pecados. Afirmarei que a morte implica nada mais do que a ausência de vontade ? Certamente um cadáver é totalmente incapaz como indisposto. Ou novamente, não vê todos os homens que há distinção entre querer e poder ? Não poderia ser vivificado este cadáver o suficiente para ter um desejo, e apesar disso seguir tão impotente que não levantaria nem sequer um pé ou uma mão ? Não temos visto casos nos quais pessoas tem sido o suficiente reanimadas para dar evidência de vida, e todavia tem estado tão perto da morte que não podem realizar o mais leve movimento ? Não existe uma clara diferença entre a presença da vontade e a presença do poder ? De qualquer forma, é totalmente certo que onde a vontade está presente, o poder seguirá. Fazei a um homem desejoso, e ele será feito poderoso; porque quando Deus dá a vontade, não atormenta a pessoa fazendo-a desejar algo que não pode dar; no entanto Ele faz tal divisão entre a vontade e o poder, que será percebido que ambas as coisas são completamente dons distintos do Senhor Deus.
Portanto, tenho que fazer outra pergunta: se tudo quanto o homem necessita que lhe seja dado é o querer, não despreza de imediato o Espírito Santo ? Não estamos habituados a dar toda a glória da salvação operada em nós ao Espírito de Deus ? Porém agora, se tudo que Deus o Espírito faz por mim é me dar o desejo para fazer todas estas coisas por mim mesmo, não estamos em uma grande medida participando com o Espírito Santo na glória ? e poderíamos ousadamente nos levantar e dizer: "É certo que o Espírito me deu a vontade para fazer estas coisas, porém apesar disso foi eu quem fiz por mim mesmo, e portanto posso me gloriar; e se tenho feito estas coisas por mim mesmo sem a ajuda do alto, não arremessarei minha coroa aos Seus pés; é a minha própria coroa, eu a consegui, e eu a guardarei." Na medida em que o Espírito Santo é sempre na Sagrada Escritura apresentado como a Pessoa que opera em nós tanto o querer como o efetuar segundo a Sua boa vontade, sustentaremos com legítima inferência que Sua obra consiste em algo mais que outorgar-nos o mero querer; e que portanto, há outra necessidade além do querer na vontade de um pecador – há absoluta e real necessidade de poder.
Agora, antes de abordar esta consideração, permitam-me que me dirija a vós um momento. Freqüentemente me acusam de pregar doutrinas que podem fazer muito dano. Pois bem, não vou negar tal acusação, porque não me preocupa muito o respondê-la. Aqui presentes, estão minhas testemunhas que provarão que, efetivamente, quando tenho pregado tenho feito grande dano, porém não à moralidade ou à igreja de Deus, porém a Satanás e sua causa. Não há um ou dois, mas centenas, que esta manhã regozijam que eles tem sido trazidos para perto de Deus; eles haviam sido profanadores e quebrantadores do Dia do Senhor, bêbados ou pessoas mundanas, mas agora tem sido trazidos a conhecer e a amar ao Senhor Jesus Cristo; e se isto é fazer dano, queira Deus em sua infinita misericórdia maltratar-nos desta maneira milhares e milhares de vezes mais. Porém há mais ainda: Que verdade não ferirá ao que faça mal uso dela ? Os que pregam a redenção universal, gostam de proclamar a grande verdade da misericórdia de Deus até o último momento da vida. Porém, como ousais pregar isso? Muitas pessoas causam dano ao adiar o dia da graça, pensando que a última hora pode ser tão boa como a primeira. Porque, se nunca pregamos qualquer coisa que o homem possa fazer mal uso, e abusar, deveríamos segurar nossas línguas para sempre. Também há quem diz: "Assim pois, se eu não posso salvar-me por mim mesmo, se eu não posso ir a Cristo, não me preocuparei em absoluto, nem intentarei fazer nada." Os que assim falam com pleno conhecimento, estão firmando sua sentença. Muitas vezes temos dito com toda claridade que há muitas coisas que vós podeis fazer. O vir à casa de Deus está em vossa mão; o estudar sua Palavra com diligência está a vosso alcance; o renunciar a vossa carnalidade, e abandonar os vícios aos quais vos entregais, o viver uma vida honrada, sóbria e virtuosa, está em vosso poder. Para isso não necessitais de nenhuma ajuda do Espírito Santo, pois tudo isto o podeis fazer por vós mesmos; porém o vir a Cristo, certamente, não está em vossa capacidade se antes não haveis sido renovados pelo Espírito Santo. E não esqueçais que vossa falta de poder não vos escusa, dado que não quereis vir e que viveis em contínua e voluntária rebelião contra Deus. Vossa falta de poder radica principalmente na obstinação da natureza.
Suponha que um mentiroso diga que não está em seu poder falar a verdade, que ele tem sido um mentiroso por tanto tempo, que ele não pode deixar de o ser; isto é uma escusa para ele ? Suponha que um homem, que tenha durante muito tempo se entregado à lascívia, vos dissesse que se sente aprisionado por elas como por uma grande rede de ferro, e que não pode desfazer-se de seus desejos; aceitarias esta razão como uma escusa ? Sinceramente não há justificação alguma. Se um bêbado tem se tornado tão abominavelmente um beberrão, que lhe fosse impossível passar diante de uma taberna sem entrar nela, lhe escusaria isso, então ? Não, porque sua incapacidade para reformar-se reside em sua natureza, que não sente o desejo de refrear ou superar. O efeito e a causa, sendo ambos procedentes da raiz do pecado, são dois maus que não podem escusar-se um ao outro. Qual é a causa de que o etíope não pode mudar sua pele, nem o leopardo suas manchas ? É pelo fato de haver aprendido a fazer o mal, pelo que agora não podeis fazer o bem; e portanto, em lugar de permitir que você se assente para escusar a si mesmo, permita-me colocar um raio debaixo do assento de sua indolência, para que você possa ser atemorizado por ele e despertado. Recordai, que o permanecer sem fazer nada é estar condenado para toda a eternidade. Oh ! que Deus o Espírito Santo possa fazer uso desta verdade em um sentido muito diferente ! Confio que antes de terminar, serei capacitado para mostrar-vos como esta verdade, que aparentemente condena aos homens e lhes fecham a porta, é, depois de tudo, a grande verdade que tem sido abençoada para a conversão dos homens.

II. Nosso segundo ponto é AS ATRAÇÕES DO PAI. "Ninguém pode vir mim, se o Pai que me enviou não o trouxer." Como, pois, traz o Pai os homens ? Os teólogos arminianos geralmente dizem que Deus traz os homens por meio da pregação do evangelho. Mui certo; a pregação do evangelho é o instrumento para trazer os homens, porém deve haver algo mais do que isto. Deixe-me perguntar: a quem Cristo dirigiu essas palavras ? Ao povo de Cafarnaum, onde Ele havia pregado com freqüência, onde havia anunciado com tristeza e dor as maldições da Lei e os convites do evangelho. Naquela cidade havia feito muitos grandes sinais e obrado muitos milagres. De fato, por causa de tais ensinamentos e semelhantes milagres atestados a eles, que Ele declarou que Tiro e Sidon teriam se arrependido a muito tempo atrás em panos de saco e cinzas, se eles tivessem sido abençoados com tais privilégios. Assim pois, se a pregação do próprio Cristo não bastou para trazer aqueles homens a Ele, é impossível crer que o Pai intentará trazer-lhes simples e totalmente por meio da pregação. Não, irmãos; deveis notar que Ele não disse que ninguém pode vir se o ministro não lhe trouxer, porém se o Pai não lhe trouxer. Desde logo, existe tal coisa como ser trazido pelo Evangelho e ser trazido pelo ministro, sem haver sido trazido por Deus. Porém, certamente é uma atração divina a que se quer indicar com isto; ser trazido pelo Altíssimo Deus – a Primeira Pessoa da Santíssima Trindade enviando a Terceira, o Espírito Santo, para induzir os homens a vir a Cristo. Há outros que mudam de postura e dizem com desprezo: "Então, crês ti que Cristo arrasta aos homens para Ele apesar de que não queiram ?" Recordo haver-me encontrado uma vez com um que me disse: "Senhor, você prega que Cristo pega as pessoas pelos cabelos da cabeça e as traz para Ele". Eu perguntei-lhe se ele poderia referir a data do sermão onde preguei tão extraordinária doutrina, porque se ele pudesse, eu ficaria muito agradecido. Contudo, ele não pode. Porém eu lhe disse: Cristo não traz as pessoas para Si pelos cabelos de suas cabeças, eu creio que Ele as traz totalmente pelo coração tão poderosamente como sua caricatura sugeriu. Notai que no trazer do Pai não há compulsão alguma; Cristo nunca compeliu qualquer homem a vir para Ele contra sua vontade. Se um homem estiver indisposto para ser salvo, Cristo não o salva contra sua vontade. Como, então, o Espírito Santo lhe traz ? Fazendo-lhe disposto. É verdade que Ele não usa a "persuasão moral"; Ele conhece um método íntimo de alcançar o coração. Ele vai na secreta origem do coração, e Ele sabe como, por algumas misteriosas operações, volver a vontade em uma direção contrária, de maneira que, como Ralph Erskine paradoxalmente colocou isto, o homem seja salvo "com pleno consentimento contra sua vontade"; isto é, seja salvo contra sua velha vontade. Mas ele é salvo com pleno consentimento, porque ele tem sido feito desejoso no dia do poder de Deus. Não imaginem que qualquer homem vá ao céu chutando e esforçando-se durante todo o caminho contra a mão que o leva. Não concebam a idéia de que qualquer homem será mergulhado em banho no sangue do Salvador, enquanto ele esteja aspirando apartar-se do Salvador. Oh, não. É completamente certo que, no princípio, todo homem se recusa a ser salvo. Quando o Espírito Santo coloca sua influência no coração, se cumpre a Escritura: "Leva-me tu; correremos após ti" (Cantares de Salomão 1:4). Seguimo-LO enquanto Ele nos leva, contentes de obedecer a voz que uma vez desprezamos. Porém, a essência da questão repousa na mudança da vontade. Como ocorre isto, nenhuma carne o sabe; é um daqueles mistérios que são claramente percebidos como um fato, mas cuja causa nenhuma língua pode contar, e nenhum coração adivinhar. De qualquer forma, a forma aparente na qual o Espírito Santo opera, podemos lhes contar. A primeira coisa que o Espírito Santo faz quando entra no coração do homem é esta: Ele o encontra com uma muito boa opinião de si mesmo: e não há nada que impeça tanto ao homem vir a Cristo como o ter uma boa opinião de si mesmo. Porque, diz o homem: "Eu não quero ir a Cristo. Tenho uma justiça tão boa como qualquer um poderia desejar. Sinto que posso entrar no céu por meus próprios méritos". O Espírito Santo desnuda o seu coração, permite-lhe ver o repugnante câncer que está corroendo sua vida, lhe descobre toda a negridão e corrupção daquela fonte do inferno – o coração humano -, e então o homem permanece perplexo. "Jamais pensei que eu fosse assim. Oh ! aqueles pecados que considerava como pequenos, tem crescido em imensa estatura. O que eu tinha por um montículo de terra, tem se tornado uma montanha; o que era antes o hissopo na parede, tem agora se tornado o cedro do Líbano". "Oh", diz o homem dentro de si, "tentarei me reformar; farei tantas boas obras que lavarei aquelas negras ações. Então vem o Espírito Santo e mostra-lhe que ele não pode fazer isto; tira todo seu fantasioso poder e força de tal forma que o homem cai sobre seus joelhos em agonia, e clama: "Oh ! uma vez pensei que poderia salvar a mim mesmo por minhas boas obras, porém agora percebo que:

"Poderia minha lágrimas eternamente derramar,
Poderia meu zelo não conhecer descanso,
Tudo isto meu pecado não poderia expiar,
Tu, deves me salvar, e somente Tu."
Então o coração se desfaz e o homem se encontra pronto ao desespero. E diz: "Eu nunca poderei ser salvo. Nada pode me salvar." Então, vem o Espírito Santo e mostra ao pecador a cruz de Cristo, e ungindo seus olhos com colírio celestial Lhe diz: "Olhai para aquela cruz; aquele Homem morreu para salvar pecadores; você sente que és um pecador; Ele morreu para te salvar." E Ele capacita o coração a crer, e para vir a Cristo.
E quando ele vem para Cristo, por esta doce atração do Espírito, encontra "uma paz com Deus, que excede todo o entendimento, o qual guardará seu coração e pensamentos em Cristo nosso Senhor." Agora, podeis claramente perceber que tudo isto pode ocorrer sem qualquer compulsão. O homem é trazido tão voluntariamente que parece que não foi trazido; e ele vem para Cristo com pleno consentimento, com tão pleno consentimento como se nenhuma influência secreta jamais houvesse sido exercida em seu coração. Porém, esta influência deve ser exercida, ou se não, nunca teria existido nem jamais existiria qualquer homem que pudesse ou tampouco quisesse vir ao Senhor Jesus Cristo.
III. E agora, quando estamos próximos de terminar, concluiremos nosso sermão fazendo uma aplicação prática da doutrina, e confiamos que sirva para consolo. "Bem", dirá alguém, "se o que este homem prega é verdade, que farei com minha religião ? porque você sabe que tenho me esforçado durante muito anos, e não gosto de ouvir-lhe dizer que um homem não pode salvar a si mesmo. Eu creio que ele pode, e intento persistir; mas se eu crer no que você diz, devo abandonar tudo e começar de novo". Meus queridos amigos, seria algo muito maravilhoso se assim o fizésseis. Não pensem que me alarmaria se assim fizessem. Lembrem-se que o que estais fazendo é construir vossa casa sobre a areia, e isto é apenas um ato de caridade se posso sacudi-la um pouco para vocês. Permitam-me lhes assegurar, em nome de Deus, que se vossa religião não tem bases mais firmes que vossa própria força, não resistireis o juízo de Deus. Nada permanecerá por toda a eternidade, exceto Aquele que procede da eternidade. A menos que o eterno Deus tenha feito uma boa obra em vossos corações, tudo o que vocês tenham feito deverá ser desfeito no último dia de acerto. É em vão que sejam assíduos visitantes de igrejas ou capelas, guardadores do Dia do Senhor, observadores de vossas orações; será em vão que passeis por pessoas honestas ante vossos vizinhos e respeitáveis em vossas conversações; é em vão que confieis nestas coisas, se são toda vossa esperança de salvação. Continuem; sejam tão honestos como quiserem, guardem perpetuamente o Dia do Senhor, vivei tão santamente como podeis. Eu não vos dissuadirei dessas coisas. Deus não o permita; crescei nelas, mas Oh, não confiai nelas, porque se vocês contarem com essas coisas, descobrireis que quando mais as necessitar, não vos servirão para nada. E se há algo mais para o que vos achais capazes de fazer sem o auxílio da graça divina, quanto antes vos desembaraceis da esperança que tem sido engendrada por isto, tanto melhor para vós; porque é vã ilusão o confiar nas obras da carne. Um céu espiritual deve ser habitado por homens espirituais, e a preparação para entrar nele deve ser operada pelo Espírito de Deus. "Porém", diz algum outro, "eu tenho seguido as doutrinas de uma religião na qual, por boca de seus ministros, se me tem ensinado que poderia me arrepender e crer quando quisesse; e eis aqui que eu tenho demorado dia após dia. Cri que poderia fazê-lo em qualquer momento e que só teria que dizer: Senhor, tem misericórdia de mim, e crer, e assim seria salvo. Você me tem despojado de toda minha esperança, e sinto o horror e o espanto se apoderar de mim." A ti te digo também, meu querido amigo: Me alegro disso; Este era o efeito que eu esperava alcançar. E oro para que este sentimento te seja multiplicado. Quando desesperas de salvar-te a ti mesmo, confio em que Deus tem começado já a fazê-lo. Me regozijarei quando te ouvir dizer: "não posso ir a Cristo. Senhor, leva-me, ajuda-me"; porque se alguém sente o desejo, ainda que não tenha o poder, é sinal de que a graça tem começado a obrar em seu coração, e Deus não o deixará até que sua obra seja consumada. Porém não esqueça, descuidado pecador, que tua salvação depende da mão de Deus. Oh! recorda que estás completamente em Suas mãos. Tu tens pecado contra Ele e, se quiser te condenar, condenado tu estás. Não podes resistir a Sua vontade nem frustrar Seu propósito. Tens merecido Sua ira, e se Ele quiser derramar sobre tua cabeça toda a abundância de Sua cólera, tu não podes fazer nada para evitá-lo. Porém se por outra parte decide salvar-te, Ele é poderoso para fazê-lo até o fim. Tu és em Suas mãos o que uma indefesa traça de verão seria entre teus dedos. Ele é o Deus a quem tu tens ofendido todos os dias. Não te faz estremecer o pensamento de que teu destino eterno está nas mãos dAquele a quem tens enojado e irado ? não tremem teus joelhos e teu sangue coagula ? Se assim é me regozijo nisto, porque isto pode ser o primeiro efeito da ação do Espírito em tua alma. Oh! trema ao pensar que o Deus a quem tu tens encolerizado é o Deus de quem depende completamente tua salvação ou condenação. Trema e "beijai o Filho, para que se não ire e pereçais no caminho, quando em breve se inflamar sua ira".
E eis aqui o pensamento que servirá de consolo: muito de vós sois conscientes de estar acercando-vos a Cristo esta manhã. Não haveis começado a derramar lágrimas de arrependimento ? Não vos trancais a sós em vossa habitação antes de vir, orando em devota preparação para ouvir a Palavra de Deus ? E durante o culto desta manhã, não tem clamado vosso coração desde o mais profundo: "Senhor, salva-me ou pereço, porque eu não posso salvar-me a mim mesmo" ? E não podeis agora levantar de vossos assentos e cantar:

"Oh, soberana graça meu coração dominou;
Serei conduzido em triunfo, também,
Um desejoso cativo de meu Senhor
A cantar o triunfo de Sua Palavra"?
Não tenho ouvido eu mesmo que haveis dito em vosso coração: "Jesus, Jesus, toda minha confiança está em ti. Eu sei que nenhuma de minhas justiças e virtudes podem salvar-me; somente Tu, Oh Cristo, podes fazê-lo; passe o que passar me entrego completamente a ti" ?Oh, irmão!; estás sendo trazido pelo Pai, porque não poderias vir se Ele não te trouxesse. Doce pensamento ! E se tens sido trazido, sabes qual a maravilhosa conclusão ? Deixa-me dizer-lhes com palavras da Escritura, e oxalá te sirvam de consolo: "o Senhor me apareceu, dizendo: Pois que com amor eterno te amei, também com amorável benignidade te atraí". Sim irmão meu que choras, posto que vens a Cristo, Deus te tem trazido; e posto que Ele te tem trazido, isso é a prova de que te amou desde antes da fundação do mundo. És um dos seus, deixa que teu coração salte dentro de ti. Teu nome foi escrito nas mãos do Salvador quando foram cravadas no maldito madeiro. Teu nome brilhas hoje no peitoral do Sumo Sacerdote; sim, ali estava antes que a estrela da alva conhece seu lugar, ou os planetas iniciassem seu ciclo. Regojiza-te no Senhor, tu que tens vindo a Cristo, e daí saltos de alegria todos os que haveis sido trazidos pelo Pai. Porque esta é vossa prova, vosso solene testemunho, de que haveis sido escolhidos dentre todos os homens em eterna eleição, e que sereis guardados pelo poder de Deus, mediante a fé, para alcançar a salvação que está preparada para ser manifesta.

Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, Brasil