domingo, 6 de dezembro de 2015

O Chamado Eficaz(Effectual Calling)

Um Sermão (Nº 0073)
Pregado na Manhã de Domingo, 30 de Março de 1856 pelo
Reverendo C. H. Spurgeon
Na Capela de New Park Street, Southwark — Londres — Inglaterra

“Quando Jesus chegou àquele lugar, olhando para cima, disse-lhe: Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa” (Lucas 19:5).

Não obstante nosso firme convencimento de que vocês, em geral, estão bem instruídos nas doutrinas do Evangelho eterno, em nossas conversações com jovens convertidos nos damos conta de quão absolutamente necessário é repassar nossas primeiras lições, e afirmar e demonstrar repetidamente essas doutrinas que se encontram na base da nossa santa religião. Portanto, nossos amigos, a quem a grandiosa doutrina do chamado eficaz foi ensinada há muito tempo atrás, compreenderão que, visto que eu prego de maneira muito simples nesta manhã, o sermão está dirigido àqueles que são jovens no temor do Senhor, para que entendam melhor este grandioso ponto de partida de Deus no coração, o chamado eficaz dos homens, por meio do Espírito Santo.
Vou usar o caso de Zaqueu como uma grande ilustração da doutrina do chamado eficaz. Vocês recordarão a história. Zaqueu tinha a curiosidade de ver ao maravilhoso Homem Jesus Cristo, o qual estava colocando o mundo de cabeça para baixo, e causando uma imensa excitação nas mentes dos homens. Algumas vezes nos parece que a curiosidade não é algo bom, e afirmamos que é pecado vir à casa de Deus motivado por curiosidade; não estou muito seguro que devamos aventurar uma afirmação dessa natureza. O motivo não é pecaminoso, ainda que, certamente, não seja virtuoso; contudo, freqüentemente tem sido comprovado que a curiosidade é uma das melhores aliadas da graça.
Zaqueu, movido por este motivo, desejava ver a Cristo; porém dois obstáculos se interpunham no caminho: o primeiro, havia uma multidão tão grande de pessoas que ele não podia se aproximar do Salvador; e o segundo, ele era tão excessivamente baixo de estatura que não tinha a menor esperança de poder ver-Lhe por sobre as cabeças das outras pessoas. Que fez, então? Fez o mesmo que alguns garotos estavam fazendo — pois os garotos daquela época eram, sem dúvida, iguais aos garotos no tempo presente — que se empoleiraram nos ramos das árvores para ver a Jesus, enquanto Ele passava.
Embora Zaqueu fosse um homem velho, sobe numa árvore e ali se acomoda no meio dos garotos. Os meninos estavam muito temerosos deste velho publicano severo, temido também pelos próprios pais deles, para poderem derrubá-lo ao solo com um empurrão ou causar-lhe qualquer tipo de inconveniência.
Olhem-no ali. Com que ansiedade espia para baixo, para ver quem é Cristo; pois o Salvador não possuía nenhuma distinção pomposa; na frente dEle não caminhava nenhum sacristão, levando uma maça de prata; não levava em Suas mãos nenhum bastão de ouro: não estava vestido em nenhum traje de pontífice; de fato, ia vestido como todos os que Lhe rodeavam. Possuía uma túnica igual a de qualquer camponês comum, feita de uma só peça, de cima a baixo; e Zaqueu tinha dificuldade em distingui-Lo.
Contudo, antes que Zaqueu tivesse visto a Cristo, Cristo havia fixado Seus olhos em Zaqueu, e detendo-Se debaixo da árvore, Ele olha para cima, e lhe diz: “Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa”. Zaqueu desce rapidamente; Cristo vai a sua casa; Zaqueu se converte num seguidor de Cristo, e entra no Reino dos Céus.

1. 
Agora, em primeiro lugar, o chamado eficaz é uma verdade muito graciosa. Vocês podem deduzir isto do fato que Zaqueu era um personagem que suporíamos ser o último a ser salvo. Ele pertencia a uma cidade má (Jericó), uma cidade que havia recebido uma maldição, e ninguém suspeitaria que alguém poderia sair de Jericó para ser salvo. Foi perto de Jericó que aquele homem caiu nas mãos de ladrões; confiamos que Zaqueu não participou daquele assalto; porém, há quem, além de ser publicano, pode ser ladrão também. Nós também podemos esperar convertidos de St. Giles, ou dos bairros mais baixos de Londres, dos piores e mais vis esconderijos da infâmia, assim como de Jericó naqueles dias.
Ah! meus irmãos, não importa de onde vocês tenham saído; podem vir de uma das ruas mais sujas, um dos piores bairros marginalizados de Londres, porém, se a graça eficaz vos chama, é um chamado eficaz que não faz nenhuma distinção de lugares.
Zaqueu tinha também uma ocupação extremamente má, e provavelmente enganava ao povo para se enriquecer. Na verdade, quando Cristo foi a sua casa, se desatou um murmúrio universal, pois tinha ido para ser hóspede de um homem que era um pecador. Porém, irmãos, a graça não faz distinção alguma, a graça não respeita às pessoas, mas Deus chama a quem quer, e Ele chamou a este homem, o pior dos publicanos, na pior das cidades, envolvido na pior das ocupações. Além do mais, Zaqueu era um dos candidatos menos prováveis para ser salvo, pois era rico. Na verdade, tanto os ricos como os pobres são bem-vindos; ninguém tem a menor escusa para desesperar devido a sua condição; contudo, é um fato que “não são muitos sábios segunda a carne, nem muitos poderosos” os que são chamados, mas “Deus escolheu os pobres deste mundo — ricos na fé”. Porém, a graça não faz nenhuma distinção aqui.
Ao rico Zaqueu é ordenado que desça da árvore; e ele desce, e é salvo. Sempre penso que uma das grandes mostras de condescendência de Deus é que Ele olhe para baixo, para os homens; porém lhes direi que houve uma maior condescendência que essa, quando Cristo olhou para cima, para ver a Zaqueu. Que Deus se digne de olhar para baixo, para suas criaturas: isso é misericórdia; porém, que Cristo se humilhe de tal maneira que tenha que olhar para cima, para uma de Suas criaturas, isso revela uma misericórdia maior.
Ah! Muitos de vocês têm subido na árvore de suas próprias boas obras, e se empoleirado nos ramos de suas santas ações, e confiado no livre-arbítrio das pobres criaturas, ou descansado em alguma máxima mundana; contudo, Jesus Cristo eleva Seus olhos para olhar para pecadores orgulhosos, e os convida a descer. “Desce”, diz Ele, “pois me convém ficar hoje em tua casa”. Se Zaqueu tivesse sido um homem de mente humilde, sentado junto ao caminho, ou aos pés de Cristo, então, ainda assim deveríamos admirar a misericórdia de Cristo; porém, vemo-lo num lugar elevado, e Cristo olha para cima, para ele, e lhe ordena que desça.

2. 
Continuando, dizemos que foi um chamado pessoal. Na árvore também estavam uns garotos, juntamente com Zaqueu, porém, não havia a menor dúvida acerca da pessoa que foi chamada. Foi “
Zaqueu, desce depressa”. A Escritura menciona outros chamados. É dito especialmente: “Porque muitos são chamados, e poucos escolhidos”. Observem que esse não é o chamado eficaz ao que se referia o apóstolo, quando disse: “E aos que chamou, a estes também justificou”. Esse é um chamado geral que muitos homens, ou melhor, todos os homens recusam, a menos que venha acompanhado do chamado pessoal, particular, que nos faz cristãos. Vocês mesmos podem dar testemunho que foi o chamado pessoal que lhes trouxe ao Salvador. Talvez foi algum sermão que lhes conduziu a sentir que vocês eram, sem dúvida, uma das pessoas à quem era dirigido. O texto talvez foi “Tu és Deus que me vê”; e o ministro pôs uma ênfase especial na palavra “me”, de tal forma que pensaste que o olho de Deus estava posto sobre ti; e antes que terminasse o sermão, pensaste que viste a Deus abrindo os livros para te condenar, e teu coração sussurrou: “Ocultar-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? — diz o SENHOR”. Talvez estavas empoleirado numa janela, ou de pé, junto à multidão, no corredor; porém, tiveste a sólida convicção de que o sermão foi pregado para ti, e para ninguém mais. Deus não chama a Seu povo em multidões, mas um a um. “Disse-lhe Jesus: Maria! Ela, voltando-se, lhe disse, em hebraico: Raboni (que quer dizer Mestre)!”. Jesus viu a Pedro e a João pescando no lago, e lhes disse: “Segue-me”. Ele viu a Mateus sentado na coletoria e lhe disse: “Levanta-te e segue-me”, e Mateus assim o fez.
Quando o Espírito Santo vem a algum homem, a flecha de Deus penetra em seu coração: ela não arranha somente seu capacete, ou deixa um pequeno sinal em sua armadura, mas penetra por entre as juntas dos arreios e chega ao mais profundo da alma. Vocês têm sentido, queridos amigos, esse chamado pessoal? Recordam quando uma voz lhes disse: “Levanta-te, Ele te chama”? Podem recordar quando há algum tempo atrás disseram: “Senhor meu, Deus meu”? Quando vocês sabiam que o Espírito estava operando em vocês, e disseram: “Senhor, eu venho a Ti, pois sei que Tu me chamas”? Eu poderia chamar vocês por toda uma eternidade sem nenhum resultado, mas se Deus chama a alguém, haverá mais eficácia por meio de Seu chamado pessoal a uma pessoa do que meu chamado geral a uma multidão.

3. 
Em terceiro lugar, é um chamado apressador. “Zaqueu, desce depressa”. O pecador, quando é chamado mediante um ministério ordinário, replica: “Amanhã”. Escuta um sermão poderoso e diz: “Vou voltar-me para Deus em tal dia”. As lágrimas rolam em sua face, porém são logo limpas. Alguma bondade aparece, porém, como a nuvem matutina, é dissipada pelo sol da tentação. Disse: “Eu prometo solenemente converter-me num homem reformado daqui em diante. Depois de gozar uma vez mais de meu amado pecado, vou renunciar a meus desejos e decidir-me por Deus”. Ah! esse é somente o chamado de um ministro, e não serve para nada.
Dizem que o caminho para o inferno está pavimentado com boas intenções. Estas boas intenções são geradas por chamados gerais. O caminho para a perdição está cheio de ramos de árvores sobre as quais os homens estavam sentados, pois freqüentemente eles arrancam os ramos das árvores, mas, eles mesmos, não descem. A palha colocada diante da porta de um enfermo amortiza o ruído das rodas das carruagens. Assim também há alguns que enchem seu caminho de promessas de arrependimento, e assim avançam mais facilmente e sem ruído à perdição.
Porém, o chamado de Deus não é um chamado para amanhã: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração, como foi na provocação”. A graça de Deus sempre chega com prontidão; e se vocês são atraídos por Deus, então vão correr após dEle, e não estarão falando de esperar. O amanhã não está escrito no almanaque do tempo. Amanhã está escrito no calendário de Satanás, e em nenhuma outra parte. O amanhã é uma rocha esbranquiçada pelos ossos dos marinheiros que naufragaram nela; é o farol dos destruidores, que brilha na costa, atraindo os pobres barcos a sua destruição. O amanhã é a taça na qual o néscio finge encontrar o pé do arco-íris, porém que ninguém nunca encontrou. O amanhã é a ilha flutuante de Loch Lomond, que ninguém jamais viu. O amanhã é um sonho. O amanhã é um engano. Amanhã, ah!, amanhã pode ser que abras teus olhos no inferno, no meios dos tormentos.
Aquele relógio diz: “hoje”; todas as coisas clamam “hoje”; e o Espírito Santo se une a estas coisas e diz: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração, como foi na provocação”. Pecadores, sentem agora a necessidade de buscar ao Salvador? Estão aspirando uma oração? Estão dizendo: 'Agora ou nunca! Devo ser salvo agora!'? Se estão assim, então espero que seja um chamado eficaz, pois Cristo, quando faz um chamado eficaz, diz:“Zaqueu, desce depressa”.

4. 
Trata-se de um chamado que humilha. “Zaqueu, desce depressa”. Muitas vezes os ministros têm chamado os homens ao arrependimento com um chamado que os deixa orgulhosos, que os exalta em sua própria estima, e que os leva a dizer: “Posso voltar-me a Deus quando quiser; e posso fazê-lo sem a influência do Espírito Santo”. Eles têm sido chamados a subir, e não a descer. Deus sempre humilha a um pecador. Acaso não posso recordar quando Deus me disse para descer? Um dos primeiros passos que tive que dar foi descer imediatamente de minhas próprias obras; e oh!, que tremenda queda foi essa! Logo descansei sobre minha própria suficiência, e Cristo disse: “Desce! Derrubei-te de tuas boas obras, e agora te derrubo de tua própria suficiência”. Tive outra queda, e estava seguro de ter tocado o fundo, porém Cristo disse “desce!”, e me fez descer mais ainda, todavia, a um ponto onde eu ainda sentia que era salvável. “Desce, senhor! Desce ainda mais!”. E desci até que tive que soltar todos os ramos da árvore das minhas esperanças, cheio de desespero: e então disse, “eu não posso fazer nada; estou perdido”.
As águas envolveram minha cabeça e fui privado da luz do dia e pensei que era um estranho no meio da nação de Israel. “Desce ainda mais, senhor! Tu és demasiadamente orgulhoso para ser salvo”. Então fui abatido ainda mais, até ver minha corrupção, minha maldade e minha podridão. “Desce”, diz Deus, quando Ele quer salvar.
Agora, pecadores orgulhosos, ser orgulhoso não lhes serve de nada, nem tampouco o se agarrar à árvores; Cristo lhes pede que desçam. Oh, tu, que moras com a águia na rocha escarpada, tens que descer de tua elevação; tu, por meio da graça, cairás, ou de outra maneira cairás um dia sob a vingança. Ele “derribou do seu trono os poderosos, e exaltou os humildes”.

5. 
Continuando, é um chamado afetuoso. “Pois me convém ficar hoje em tua casa”. Vocês podem imaginar quão facilmente o rosto da multidão mudou! Eles consideravam a Cristo o mais santo e o melhor dos homens, e estavam prontos para fazê-lo rei. Porém Ele disse: “Me convém ficar hoje em tua casa”. Havia um pobre judeu que tinha estado dentro da casa de Zaqueu; ele tinha “sido repreendido”, como se diz na linguagem popular quando as pessoas são levadas ante a justiça, e este homem recordava que tipo de casa era essa de Zaqueu; ele recordava como foi levado ali, e seus conceitos dessa casa eram parecidos aos que uma mosca teria acerca de um ninho de aranhas, após ter escapado. Havia outro homem que tinha sido destituído de quase todas as suas propriedades; e a idéia que ele tinha acerca de ir à casa de Zaqueu era como entrar na cova de leões. “Como”, diziam eles, “este santo varão entrará nessa cova, onde nós, pobres infelizes, fomos roubados e maltratados? Já era suficientemente mal que Cristo se dirigisse a Zaqueu na árvore, porém, quão tremenda era a idéia de ir à sua casa!”
Todos eles “murmuravam, dizendo que Ele se hospedara com homem pecador”. Bom, eu sei o que alguns de seus discípulos pensaram: eles pensaram que era algo muito imprudente; poderia prejudicar Sua reputação, e ofender ao povo. Pensaram que teria podido ir à noite para ver a este homem, como Nicodemus, e dar-lhe uma audiência quando ninguém O veria; porém, reconhecer publicamente a um homem assim, era o ato mais imprudente que Ele poderia fazer.
Porém, por que Cristo fez o que fez? Porque queria fazer a Zaqueu um chamado afetuoso. “Não irei e permanecerei na entrada de sua casa, nem olharei o interior através de tua janela, mas entrarei em tua casa; essa mesma casa onde o pranto das viúvas tem chegado a teus ouvidos, sem que tu o ouvisse; vou a tua sala, onde o lamento dos órfãos nunca moveu tua compaixão; vou ali, onde tu, como um leão faminto, tens devorado a tua presa; vou ali, onde tu tens manchado a tua casa e a feito infame; vou ao lugar onde os gritos têm se elevando ao céu, arrancados das bocas de todos aqueles a quem tens oprimido; vou entrar em tua casa para te abençoar”. Oh! Quanto afeto havia nisso!
Pobre pecador, meu Senhor é um Senhor mui afetuoso. Ele quer ir à tua casa. Que tipo de casa tens? Uma casa que tens feito miserável com tuas bebedeiras?; uma casa que tem sido poluída com tua impureza?; uma casa que tem sido desonrada com tuas maldições e blasfêmias?; uma casa onde manejas negócios sujos, dos quais estarias feliz de se livrar. Cristo diz: “Quero ir a tua casa”. Eu conheço certas casas que uma vez foram guaridas do pecado, mas que agora Cristo vem a cada manhã; o marido e a mulher que antes discutiam e brigavam, agora dobram seus joelhos unidos em oração. Alguns dos meus ouvintes escassamente terão uma hora para comer, mas eles devem ter uma para orar e ler as Escrituras. Cristo vem a eles.
Ali onde as paredes estavam emplastadas de quadros lascivos e frívolos, agora está colocado um almanaque cristão; na cômoda há uma Bíblia; e ainda que a casa tenha somente um aposento, se um anjo entrar e Deus perguntar: “O que vistes nessa casa?”, o anjo responderia: “Vi bons móveis, pois há uma Bíblia ali; livros religiosos em abundância; os quadros com imundícias foram destruídos e queimados; e já não há cartas de baralho no armário desse homem; Cristo entrou em sua casa”.
Oh, que benção que possamos ter nosso Deus em casa, assim como os Romanos tinham os seus falsos deuses! Nosso Deus é o Deus da família. Ele vem para habitar com o Seu povo; Ele ama as tendas de Jacó. Agora, pobre pecador maltrapilho, tu que vives nas guaridas mais imundas de Londres, se estás me lendo hoje, Jesus te diz: “Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa”.

6. 
Além do mais, não foi somente um chamado afetuoso, mas um chamado permanente também. “P
ois me convém ficar hoje em tua casa”. Um chamado comum é mais ou menos assim: “Hoje entrarei em tua casa por uma porta, e sairei por outra”. O chamado geral que o Evangelho dá a todos os homens é um chamado que opera sobre eles durante um tempo, e depois desaparece; porém, o chamado salvador é um chamado permanente. Quando Cristo fala, não diz: “Zaqueu, desce depressa, pois só vim fazer uma visita rápida”; mas, “me convém ficar em tua casa; venho para me sentar, e comer e beber contigo; venho me alimentar contigo; é necessário que fique hoje em tua casa”. “Ah!”, diz alguém, “é difícil dizer quantas vezes tenho ficado impressionado, senhor, tenho freqüentemente tido uma série de solenes convicções, e pensei que era realmente salvo, porém tudo se desvaneceu; como num sonho, quando alguém desperta, tudo que se sonhou desaparece, assim sucedeu comigo”. Ah! Porém, pobre alma, não te desesperes. Sentes os esforços da graça todo-poderosa em teu coração, mandando-lhe que te arrependas hoje? Se tu o fazes, será um chamado permanente. Se Jesus está operando em tua alma, Ele virá e permanecerá em teu coração, e te consagrará para Ele eternamente. Ele diz: “Virei e morarei contigo para sempre. Virei e direi:
Aqui estabelecerei meu repouso permanente,
Já não andarei de cima para baixo;
Não serei mais um estranho, nem um convidado,
Mas o Senhor desta casa”.
“Oh!”, dizes tu, “isso é o que necessito; necessito de um chamado permanente, algo que perdure; eu não quero uma religião que se desbote, mas uma religião de cores perduráveis”. Pois bem, Cristo faz esse tipo de chamado. Seus ministros não podem fazê-lo; porém, quando Cristo fala, Ele fala com poder, e diz: “Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa”.

7. 
Há mais uma coisa, contudo, que não posso esquecer, e é que foi um chamado necessário. Vamos ler a passagem novamente: “Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa”. Não era algo que poderia fazer, ou não fazer; mas era um chamado necessário. A salvação de um pecador é para Deus um assunto tão necessário, como o cumprimento de Seu pacto de que a chuva não voltará a criar um dilúvio no mundo. A salvação de cada filho comprado com o sangue é algo necessário por três razões; é necessário porque é a promessa de Deus. É necessário que os filhos de Deus sejam salvos. Alguns teólogos pensam que é muito errado colocar uma ênfase na palavra “devam”, especialmente nessa passagem que diz: “E era-lhe necessário passar por Samaria”. “Bem”, dizem eles, “era-lhe necessário passar por Samaria, pois não tinha outra alternativa, e, portanto, se viu forçado a ir por esse caminho”. Sim, senhores, nós respondemos, sem dúvida; porém, poderia ter ido por outro caminho. A providência estabeleceu que era-lhe necessário passar por Samaria, e que Samaria ficaria na rota que Ele tinha escolhido. “E era-lhe necessário passar por Samaria”.
A providência guiou aos homens para que edificassem Samaria diretamente no caminho, e a graça moveu ao Salvador para que fosse nessa direção. Não foi: “Zaqueu, desce depressa, pois poderia ficar hoje em tua casa”, mas “me convém” [NT: “é necessário”, em algumas traduções]. O Salvador sentiu uma forte necessidade. Uma necessidade tão inescapável como a morte de cada homem, uma necessidade tão rígida como a necessidade de que o sol nos ilumine de dia e a lua de noite, e uma necessidade tão grande como a de que todos os filhos de Deus comprados com sangue deverão ser salvos. “Me convém ficar hoje em tua casa”.
E oh!, quando o Senhor chega a este ponto, que deve e que quer, que coisa tão grande é esta para o pecador! Em outras ocasiões perguntávamos: “Deixá-lo-ei sequer entrar? Há um estranho à porta; está batendo agora; já bateu antes; deixá-lo-ei entrar?”. Porém, agora é: “Me convém ficar hoje em tua casa”. Não houve nenhuma chamada à porta, senão que a porta se desintegrou em pequenos átomos e Ele entrou: “Devo fazê-lo, quero fazê-lo e o farei; não me importa teus protestos, tua vileza, nem tua incredulidade; devo fazê-lo e quero fazê-lo, é necessário que fique em tua casa”.
“Ah”, diz alguém, “eu não creio que Deus me leve a crer como tu crês, ou a me tornar um cristão, de forma alguma.”. Ah!, porém se somente diz: “me convém ficar hoje em tua casa”, não poderás apresentar nenhuma resistência. Há alguns de vocês que desprezariam a própria idéia de ser um religioso hipócrita; “Como, senhor? Acaso você supõe que eu posso me converter num de seus religiosos?”. Não, meu amigo, eu não o suponho; eu o sei com toda certeza. Se Deus diz “devo fazê-lo”, não poderá haver nenhuma oposição. Quando Ele diz “devo”, assim se fará.
Vou-lhes contar uma anedota para demonstrar isto. “Um pai estava a ponto de enviar seu filho à universidade; porém, como conhecia a influência a qual estaria exposto, tinha uma profunda e ansiosa preocupação pelo bem-estar espiritual e eterno de seu filho favorito. Temendo que os princípios da fé cristã, que o pai havia se esforçado para inculcar na mente de seu filho, fossem rudemente atacados, porém também confiando na eficácia dessa palavra que é viva e poderosa, lhe comprou, sem que o filho soubesse, um elegante volume da Bíblia, e o colocou no fundo do baú.
O jovem começou sua carreira universitária. As bases de uma piedosa educação logo foram quebradas, e o jovem passou da especulação às dúvidas, e das dúvidas passou a negar a realidade da religião. Depois de se converter, em sua própria estima, em alguém mais sábio que o seu pai, descobriu um dia com grande surpresa e indignação, enquanto inspecionava seu baú, o depósito sagrado. Retirou-o dali e enquanto deliberava acerca do que faria com o livro, determinou que o usaria como papel descartável, com o qual limparia a navalha ao se barbear. De acordo com isto, cada vez que ia fazer a barba, arrancava uma página ou duas do santo livro, e as usava até que quase metade do livro já tinha sido destruído. Porém, enquanto levava a cabo este ultraje contra o livro sagrado, fixava os olhos em algum texto de vez em quando, que penetrava como a ponta aguda de uma flecha em seu coração. Ao cabo de um tempo, escutou um sermão, que lhe revelou o seu próprio caráter, e como se encontrava debaixo da ira de Deus, e se gravou em sua mente a impressão que ele tinha recebido da última página arrancada do bendito, ainda que insultado, volume. Se houvesse mundos a sua disposição, os teria dado com todo prazer, se isso lhe houvesse servido para desfazer o que havia feito. Finalmente encontrou o perdão aos pés da cruz. As folhas que tinha arrancado do volume sagrado trouxeram cura à sua alma; pois essas folhas o levaram a descansar na misericórdia de Deus, que é suficiente para o principal dos pecadores”.
Digo-lhes que não há um réprobo caminhando pelas ruas e contaminando o ar com suas blasfêmias, e nenhuma criatura quase tão depravada como o próprio Satanás, que não possa, se for um filho da vida, ser alcançado pela misericórdia. E se Deus diz: “Me convém ficar hoje em tua casa”, então, certamente o fará. Tu, meu querido ouvinte, sentes, neste exato momento, algo em tua mente que parece te dizer que resististes ao Evangelho durante muito tempo, porém que hoje já não podes resistir mais? Sei que sentes que uma mão mui forte te agarrou, e ouves uma voz que diz: “Pecador, é necessário que fique em tua casa; freqüentemente tens me desprezado, freqüentemente tens rido de mim, freqüentemente tens cuspido ao rosto da misericórdia, freqüentemente tens blasfemado do meu Nome, porém pecador, devo ficar em tua casa; ontem fechaste a porta na cara do missionário, queimaste o livro que te deu, ristes do ministro, amaldiçoastes a casa de Deus, profanastes o dia do Senhor; mas, pecador, Eu devo ficar em tua casa, e ficarei!”.
“Como, Senhor?”, respondes, “Ficar em minha casa? Ela está coberta de iniqüidade. Ficar em minha casa? Não há nem uma sala, nem uma mesa que não gritem contra mim. Ficar em minha casa? As vigas, as colunas e o piso levantariam e Te diriam que não sou digno de beijar a orla do Teu vestido. Como, Senhor? Ficar em minha casa?”. “Sim”, Ele diz, “devo fazê-lo; há uma necessidade mui poderosa; meu poderoso amor me constrange, e, quer me deixes entrar ou não, estou decidido a fazer o que quero, e tu me deixarás entrar”.
Não te surpreende isto, pobre pecador temeroso; tu, que pensavas que o dia da misericórdia já tinha passado, e que a campainha da destruição já tinha soado nos funerais de tua morte? Oh! não te surpreende isto, que Cristo não somente está te pedindo que venhas a Ele, mas que Ele mesmo está Se convidando à tua mesa, e ainda mais, quando tu quiser rejeitá-Lo, amavelmente diz: “É necessário, tenho que entrar”?
Pense somente em Cristo, caminhando após um pecador, clamando após ele, rogando ao pecador que O permita salvá-lo; e isso é exatamente o que Jesus faz com os Seus eleitos. O pecador foge dEle, porém a graça imerecida o persegue dizendo: “Pecador, vem a Cristo”; e se nossos corações estão fechados, Cristo põe Sua mão na porta, e se não O recebemos, mas O rechaçamos com frieza, Ele diz: “É necessário, devo entrar”; Ele chora sobre nós até que Suas lágrimas nos ganhem; Ele chama após nós até que Sua voz prevaleça; e finalmente, na hora que Ele determinou, entra em nosso coração, e ali mora.“Me convém ficar hoje em tua casa”, disse Jesus.

8. E agora, por último, esse chamado foi um chamado eficaz, pois vemos os frutos que produziu. A porta de Zaqueu foi aberta; sua mesa foi servida; seu coração era generoso; suas mãos foram lavadas; sua consciência foi aliviada; sua alma estava gozosa. “Senhor”, disse ele, “eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se em alguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado”. E Zaqueu despoja de outra parte de seus bens.
Ah! Zaqueu, tu irás à cama esta noite sendo muitíssimo mais pobre de como o eras esta manhã (porém, infinitamente mais rico também), pobre, muito pobre, em bens deste mundo, comparado ao que tinhas quando subiste a esse sicômoro; porém mais rico (infinitamente mais rico) em tesouros celestiais. Pecador, nisto saberemos se Deus te chama: se Ele chama, será um chamado eficaz; não um chamado que tu escutas e logo esqueces. Mas um chamado que produz boas obras. Se Deus te chamou esta manhã, cairá ao chão teu cálice de bêbado, e se elevarão tuas orações; se Deus te chamou esta manhã, todas as persianas de tua loja estarão fechadas, e porás um letreiro que diz: “Esta casa está fechada no dia do Senhor, e nunca voltará a estar aberta neste dia”. Amanhã haverá esses e aqueles divertimentos mundanos, porém, se Deus te chamou, não irás. E se roubaste a alguém (e quem sabe se não há um ladrão entre os meus ouvintes?), se Deus te chama, restituirás ao roubado; abandonarás tudo para poder seguir a Deus de todo o seu coração.
Não cremos que um homem tenha se convertido, a menos que renuncie aos erros de seus caminhos; a menos que, de maneira prática, chegue ao conhecimento que o próprio Cristo é Senhor de sua consciência e que Sua lei é a sua delícia. “Zaqueu, desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa”. E Zaqueu desceu depressa e O recebeu cheio de gozo. “E, levantando-se Zaqueu, disse ao Senhor: Senhor, eis que eu dou aos pobres metade dos meus bens; e, se em alguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado. E disse-lhe Jesus: Hoje, veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão. Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido”.
Agora, uma ou duas lições. Uma lição para o orgulho. Desçam, corações orgulhosos, desçam! A misericórdia corre nos vales, porém não sobe aos picos das montanhas. Desçam, desçam, espíritos altivos! “Porque ele abate os que habitam em lugares sublimes, e a cidade exaltada humilhará até ao chão, e a derribará até ao pó”. E logo a constrói outra vez. Além do mais, uma lição para ti, pobre alma desesperada: me dá gosto ver-te na casa de Deus nesta manhã; é um bom sinal. Não me importa para que vieste. Talvez ouviste que há um tipo estranho que prega aqui. Não te preocupes por isso. Tu és tão estranho quanto ele. É necessário que haja homens estranhos para que possam reunir aos outros homens estranhos.
Agora, eu tenho uma multidão de pessoas congregadas aqui; e se me permitem usar uma figura de linguagem, eu poderia compará-los a um grande montão de cinzas entremescladas com limalhas de aço. Porém, se meu sermão tem o apoio da graça divina, servirá como um tipo de imã: não atrairá às cinzas; elas ficarão onde estão; porém, terá a capacidade de atrair às limalhas de aço. Tenho ali a um Zaqueu; ali acima está uma Maria, e a um João ali embaixo, a Sara, ou a William, ou a Tomé. Ali estão (os escolhidos de Deus) as limalhas de aço no meio da congregação de cinzas, e o meu Evangelho, o Evangelho do Deus bendito, como um grandioso imã, os extrai das cinzas. Ali vem, ali vem. Por quê? Porque existiu um poder magnético entre o Evangelho e os seus corações.
Ah!, pobre pecador, vem a Jesus, crê em Seu amor, confia em Sua misericórdia. Se tu tens o desejo de vir, se estás abrindo caminho entre as cinzas para vir a Cristo, então, é porque Cristo está te chamando. Oh! todos vocês que se reconhecem como pecadores, seja homem, mulher, ou criança, sim, vocês pequeninos (porque Deus tem me dado muitos de vocês, para que sejam minha recompensa), sentem-se pecadores? Então, creiam em Jesus e serão salvos. Tu tens vindo aqui por pura curiosidade, muitos de vocês. Oh! que vocês sejam encontrados e salvos. Preocupo-me por vocês, para que não se afundem no fogo do inferno. Oh! escutem a Cristo, enquanto Ele lhes fala. Cristo diz, “desce”, nesta manhã.
Vão para casa e humilhem-se diante de Deus: vão e confessem suas iniqüidades com as quais tem pecado contra Ele; vão para casa e digam a Ele que estão na miséria e na ruína sem Sua graça soberana; e logo olhem para Ele, pois tenham a certeza que Ele olhou para vocês primeiro. Tu podes dizer: “Oh, senhor! Eu quero verdadeiramente ser salvo, porém temo que Ele não queira me salvar”. Alto lá! Alto lá! Basta! Sabes que isso é uma blasfêmia parcial? Quase. Se não fosses um ignorante, eu te diria que é uma blasfêmia parcial. Não podes olhar para Cristo antes que Ele tenha olhado para ti. Se queres ser salvo, é porque Ele pôs em ti esse desejo. Crê no Senhor Jesus Cristo, e recebe o batismo e serás salvo. Confia que o Espírito Santo esta te chamando. Jovem que estás aí em cima, tu também que estás na janela, desce depressa! Desce! Ancião que estás sentando neste banco, desce. Comerciante que estás naquele corredor, desce depressa. Dama e jovem que não conhecem a Cristo, oh, que Ele olhe para vocês. Avó anciã, escute este chamado de graça imerecida; e tu, jovem rapaz, Cristo pode estar olhando para ti (confio que Ele está) e te dizendo: “desce depressa, pois me convém ficar hoje em tua casa”.

Traduzido por: Felipe Sabino de Araújo Neto
Cuiabá-MT, 11 de Março de 2005.
Via Monergismo

sábado, 5 de dezembro de 2015

Encorajamento para desenvolver a santidade

Joel Beeke10 de Julho de 2008 - Crescimento
O desenvolvimento da santidade é uma necessidade. Thomas Watson chamou isso de “trabalho árduo”. Felizmente, Deus nos providencia muitas motivações para a santidade em sua Palavra. Para encorajar-nos na busca pela santidade, precisamos focalizar as seguintes verdades bíblicas.
Deus nos chamou à santidade
“Porquanto Deus não nos chamou para a impureza, e sim para a santificação” (1 Ts 4.7). Todas as coisas às quais o Senhor nos chama são necessárias. Sua própria chamada, assim como todos os benefícios de um viver santo que experimentamos, devem nos induzir a buscar e praticar a santidade. A santidade aumenta o nosso bem-estar espiritual. Deus nos assegura que “nenhum bem sonega aos que andam retamente” (Sl 84.11). “O que a saúde é para o coração”, observou John Flavel, “a santidade é para a alma”.1 Na obra escrita por Richard Baxter sobre a santidade, os próprios títulos dos capítulos são esclarecedores: “Santidade é o único caminho de segurança”; “Santidade é o caminho mais benéfico”; “Santidade é o único meio honroso”; “Santidade é o caminho mais agradável”. Contudo, ainda mais importante, a santidade glorifica ao Deus que você ama (Is 43.21). Como afirmou Thomas Brooks: “A santidade faz o máximo para honrar a Deus”.
A santidade fomenta a semelhança a Cristo
Thomas Watson escreveu: “Devemos nos empenhar em sermos semelhantes a Deus em santidade. Este empenho é um espelho nítido no qual podemos ver um rosto; é um coração santo no qual pode ser visto algo do caráter de Deus”.4 Cristo é o padrão de santidade para nós — o padrão de humildade santa (Fp 2.5-13), compaixão santa (Mc 1.41), perdão santo (Cl 3.13), altruísmo santo (Rm 15.3), indignação santa contra o pecado (Mt 23) e oração santa (Hb 5.7). Desenvolver a santidade que procura assemelhar-se a Deus e tem a Cristo como padrão nos salva de muita hipocrisia e de um cristianismo apenas domingueiro. Esta santidade nos dá vitalidade, propósito, significado e direcionamento no viver diário.
A santidade dá evidência da justificação e da eleição
A santificação é um fruto inevitável da justificação (1 Co 6.11). Estes dois elementos podem ser distinguidos, mas nunca separados; o próprio Deus os uniu. A justificação está organicamente ligada à santificação; o novo nascimento dá origem à uma nova vida. O justificado andará no “caminho de santidade do Rei”. Em Cristo e através dEle, a justificação dá ao filho de Deus o direito e a ousadia de entrar no céu; a santificação dá-lhe a aptidão para o céu e a preparação necessária para chegar lá. A santificação é a apropriação pessoal dos frutos da justificação. B. B. Warfield observa: “A santificação é tão-somente a execução do decreto de justificação. Pois, se a santificação falhasse, a pessoa justificada não seria liberta de acordo com sua justificação”. Conseqüentemente, o decreto de justificação de Cristo, em João 8.11 (“Nem eu tampouco te condeno”), é imediatamente seguido pelo chamado à santidade: “Vai e não peques mais”. A eleição é também inseparável da santidade: “Deus vos escolheu desde o princípio para a salvação, pela santificação do Espírito e fé na verdade” (2 Ts 2.13). A santificação é a marca de identificação das ovelhas eleitas de Cristo. Por isso, a eleição é sempre uma doutrina confortante para o crente, pois esta é o seguro fundamento que explica a graça de Deus operando nele. Por isso, os nossos antepassados reformados consideravam a eleição como um dos maiores consolos do crente, visto que a santificação torna visível a eleição. Calvino insistiu que a eleição não deveria desanimar ninguém, pois o crente recebe consolo dela, e o incrédulo não é chamado a considerá-la — antes, ele é chamado ao arrependimento. Aquele que fica desanimado pela eleição, ou confia-se à eleição sem viver uma vida de santidade, está se tornando vítima de um mau uso satânico desta doutrina preciosa e encorajadora (veja Dt 29.29). Como afirma J. C. Ryle: “Não é permitido a nós, neste mundo, estudar as páginas do Livro da Vida, e ver se nossos nomes encontram-se ali. Mas, se há algo nítido e plenamente declarado a respeito da eleição, é isto — que os homens e mulheres eleitos serão conhecidos e distinguidos por vidas santas”.8 A santidade é o lado visível de sua salvação. “Pelos seus frutos os conhecereis” (Mt 7.16).
A santidade promove a segurança
“Todos podem estar seguros de sua fé por meio de seus frutos” (Catecismo Heidelberg, Questão 86). Teólogos reformados concordam que muitas das formas e graus de segurança experimentados por crentes genuínos — especialmente segurança diária — são alcançados gradualmente no caminho da santificação , mediante o cuidadoso conhecimento da Palavra de Deus, dos meios da graça e da conseqüente obediência.9 Uma aversão crescente pelo pecado, mediante a mortificação, e um amor crescente pela obediência a Deus, por meio da vivificação, acompanham o progresso da fé, enquanto ela cresce em segurança. A santidade centralizada em Cristo e operada pelo Espírito é a maior e mais sã evidência da filiação divina (Rm 8.1-16). O meio de perder um senso diário de segurança é deixar de buscar santidade diariamente. Muitos crentes vivem de modo relapso. Tratam o pecado despreocupadamente, ou negligenciam as devocionais diárias e o estudo da Palavra. Outros vivem de maneira muito inativa. Não desenvolvem a santidade, mas assumem a postura de que nada pode ser feito para nutrir a santificação, como se esta fosse algoexterno a nós, exceto em raras ocasiões, quando algo muito especial “acontece” interiormente. Viver de maneira descuidada e inerte é pedir por escuridão espiritual, desalento e falta de frutos diariamente.
A santidade nos purifica
“Todas as coisas são puras para os puros; todavia, para os impuros e descrentes, nada é puro” (Tt 1.15). A santidade não pode ser exercitada, quando o coração não foi fundamentalmente transformado por meio de regeneração divina. Por meio do novo nascimento, Satanás é destituído, a lei de Deus é escrita no coração do crente, Cristo é coroado Senhor e Rei e o crente é feito “disposto e pronto, conseqüentemente, para viver em Cristo” (Catecismo Heidelberg, Questão 1). “Cristo em nós” (Christus in nobis) é um complemento essencial para “Cristo por nós” (Christus pro nobis). O Espírito de Deus não apenas ensina ao crente o que Cristo fez, como efetiva a santidade e a obra de Cristo em sua vida pessoal. Por meio de Cristo, Deus santifica seu filho e faz suas orações e ações de graças aceitáveis. Como disse Thomas Watson: “Um coração santo é o altar que santifica a oferta; se não é por satisfação, é por aceitação”.
A santidade é essencial para um serviço efetivo a Deus
Paulo une a santificação à utilidade: “Assim, pois, se alguém a si mesmo se purificar destes erros, será utensílio para honra, santificado e útil ao seu possuidor, estando preparado para toda boa obra” (2 Tm 2.21). Deus usa a santidade para assistir aos pregadores do evangelho, para aumentar a influência da fé cristã, a qual é desonrada pelo descuido dos crentes e hipócritas que freqüentemente servem como os melhores aliados de Satanás. 

Nossas vidas estão sempre fazendo o bem ou o mal; elas são uma carta aberta para que todos leiam (2 Co 3.2). Um viver santo influencia e impressiona mais do que qualquer outra coisa; nenhum argumento pode igualar- se a uma vida santa. Ela mostra a beleza da religião; dá credibilidade ao testemunho e ao evangelismo (Fp 2.15).13 A “santidade”, escreve Hugh Morgan, “é o modo mais eficiente de influenciar pessoas não convertidas e de criar nelas uma disposição para ouvir a pregação do evangelho” (Mt 5.16; 1 Pe 3.1-2). A santidade manifesta-se em humildade e reverência a Deus. Deus procura e usa pessoas humildes e reverentes (Is 66.2). Como observa Andrew Murray: “O maior teste para sabermos se a santidade que professamos buscar ou possuir é verdade e vida, será observar se ela se manifesta na crescente humildade que produz. Na criatura, a humildade é algo necessário para permitir que a santidade de Deus habite nela e brilhe por meio dela. Em Jesus, o Santo de Deus que nos faz santos, a humildade divina foi o segredo de sua vida, sua morte e sua exaltação. O teste infalível para nossa santidade será a humildade diante de Deus e dos homens, a qual nos marca. A humildade é o esplendor e a beleza da santidade”.
A santidade nos prepara para o céu
Hebreus 12.14 diz: “Segui [literalmente: buscai]... a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor”. Como escreveu John Owen: “Não há imaginação que iluda tanto o homem, que seja mais tola e mais perniciosa do que esta: que pessoas não purificadas, não santificadas, que não buscam santidade em suas vidas possam depois ser levadas a um estado de bênção, que consiste no gozo de Deus. Nem podem tais pessoas ter gozo de Deus, nem tampouco Deus ser o galardão delas. De fato, a santidade é aperfeiçoada no céu; contudo, o começo dela está invariavelmente restringido a este mundo. Deus leva para o céu somente aquele que Ele santifica nesta terra. O Deus vivo não admitirá pessoas mortas no céu”. A santidade e o mundanismo, portanto, são opostos um ao outro. Se estivermos apegados a este mundo, não estamos preparados para o porvir.
Joel Beeke

Via Ministério Fiel

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Perseverança Final
(Final Perseverance)

Um Sermão (Nº 0075)
Pregado na Manhã de Domingo, 23 de Março de 1856 pelo
Reverendo C. H. Spurgeon
Na Capela de New Park Street, Southwark– Inglaterra
“Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se fizeram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa palavra de Deus, e os poderes do mundo vindouro, e recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento; pois assim, quanto a eles, de novo crucificam o Filho de Deus, e o expõem ao vitupério” (Hebreus 6:4-6).

Há alguns lugares na Europa que têm sido os cenários de freqüentes guerras, como por exemplo, o reino da Bélgica, que poderia ser chamado de o campo de batalha da Europa. A guerra tem se alastrado por toda a Europa, porém em alguns tristes lugares, batalha após batalha tem sido travada. Assim também, quase não há uma só passagem da Escritura que não tenha sido disputada entre os inimigos da verdade e os defensores dela; mas esta passagem, com uma ou duas outras, tem sido objeto de ataques especiais. Este é um dos textos que tem sido pisoteado pelos pés da controvérsia; e há opiniões sobre ele tão opostas como os pólos, alguns afirmando que significa uma coisa, e outros declarando que significa outra. Acreditamos que algumas delas se aproximam mais da verdade; contudo, outras se apartam desesperadamente da mente do Espírito. Chegamos a esta passagem com a intenção de lê-lo com a simplicidade de uma criança, e declarar seja o que for que encontremos ali; e se o que declararmos não parecer concordar com algo que tenhamos sustentado até aqui, estaremos preparados para lançar fora qualquer doutrina nossa, antes que uma só passagem da Escritura.
Olhando para o escopo da passagem inteira, parece-nos que o apóstolo queria motivar os discípulos a prosseguir. Há uma tendência na mente humana de parar um pouco antes do alvo celestial. Tão logo alcançamos os primeiros rudimentos da religião, e tenhamos passado pelo batismo, e entendido a ressurreição dos mortos, há uma tendência em nós de sentarmos quietos; de dizer: "Eu passei da morte para vida; aqui posso parar e descansar"; contudo, a vida cristã não tem por meta que nos sentemos quietos, mas sim a de ser uma carreira, um movimento perpétuo. O apóstolo, portanto, se esforça e urge os discípulos para que sigam adiante, e corram com diligência a carreira celestial, olhando para Jesus. Ele lhes diz que não é suficiente ter, num certo dia, passado por uma certa mudança gloriosa - ter experimentando num certo momento uma operação maravilhosa do Espírito; ma ele lhes ensina que é absolutamente necessário que tenham o Espírito durante todas a vida - que eles devem, enquanto viverem, progredir na verdade de Deus. Para fazê-los perseverar, se possível, eles lhes mostra que se não o fizerem, eles devem, com toda certeza, perecer; pois não há outra salvação além daquela que Deus já lhes havia concedido, e se esta salvação não os guardar, e não lhes fizer progredir, e se não apresentá-los sem mancha diante de Deus, não poderá haver outra salvação. Porque é impossível, ele diz, que os que já uma vez foram iluminados, , e recaíram, sejam outra vez renovados para arrependimento.
Iremos, nesta manhã, responder uma ou duas perguntas. A primeira pergunta será: Quem são as pessoas aqui mencionadas? São verdadeiros cristãos ou não? Em segundo lugar: O que se quer dizer por recaíram? E em terceiro lugar: O que se pretende dizer quando se afirma que é impossível que sejam renovados para arrependimento?

I. Em primeiro lugar, então, responderemos a pergunta: QUEM SÃO AS PESSOAS AQUI MENCIONADAS? Se você ler o Dr. Gill, o Dr. Owen, e quase todos os eminentes escritores calvinistas, todos eles afirmam que estas pessoas não são cristãs. Eles dizem que aqui é dito o suficiente para descrever um homem que é um cristão externamente, mas não o suficiente para dar a descrição de um crente verdadeiro. Agora, me parece que eles não teriam dito isto se não houvessem tido que sustentar alguma doutrina; pois uma criança, lendo esta passagem, diria que as pessoas de quem se falam aqui devem ser cristãs. Se o Espírito Santo quisesse descrever cristãos, não vejo que teria podido usar termos mais explícitos que os que estão aqui. Como se pode dizer que um homem tenha sido iluminado, e que tenha provado o dom celestial, e feito participante do Espírito Santo, sem que tenha sido feito um filho de Deus? Com todo o respeito que merecem todos estes versados doutores, e eu amo e admiro a todos eles, humildemente penso que eles permitiram que seus juízos fossem um pouco torcidos quando disseram isso; e penso que poderei mostrar que ninguém senão os crentes verdadeiros são aqui descritos.
Em primeiro lugar, eles são ditos como tendo sido uma vez iluminados. Isto se refere à influência iluminadora do Espírito de Deus, derramada na alma no momento da convicção, quando o homem é iluminado com respeito ao seu estado espiritual, e se lhe mostra que coisa tão má e amarga é pecar contra Deus, e é levado a sentir quão impotente é para levantar-se da tumba da corrupção, e é adicionalmente iluminado para pode ver que "pelas obras da lei nenhuma carne será justificada", e para contemplar a Cristo sobre a cruz, como a única esperança do pecador. A primeira obra da graça é iluminar a alma. Por natureza estamos completamente nas trevas; o Espírito, como uma lâmpada, derrama Sua luz no coração entenebrecido revelando sua corrupção, mostrando seu triste estado de indigência, e no momento devido, revelando também a Jesus Cristo, para que em Sua luz possamos ver a luz. Eu não posso considerar que um homem esteja verdadeiramente iluminado a menos que seja um filho de Deus. O termo não indica uma pessoa ensinada por Deus? A experiência cristã não está composta somente disso; porém, não é uma parte dela?
Tendo nos iluminado, como o texto diz, a próxima coisa que Deus nos concede é um provar do dom celestial, pelo que entendemos, o dom celestial da salvação, incluindo o perdão dos pecados, a justificação pela justiça imputada de Jesus Cristo, a regeneração pelo Espírito Santo, e todos aqueles dons e graças, que na primeira aurora da vida espiritual transmitem a salvação. Todos os crentes verdadeiros provaram do dom celestial. Não é suficiente para um homem o ser iluminado; a luz pode resplandecer em seus olhos e, contudo, ainda morre; ele deve provar, assim como ver que o Senhor é bom. Não é suficiente que eu veja que sou corrupto; eu devo provar que Cristo é capaz de remover minha corrupção. Não é suficiente para mim saber que Ele é o único Salvador; eu devo provar de Sua carne e de Seu sangue, e ter uma união vital com Ele. Acreditamos que quando um homem foi iluminado e teve uma experiência da graça, ele é um cristão; e seja o que for que aqueles grandes teólogos possam sustentar, não podemos acreditar que o Espírito Santo descreveria um homem não regenerado como tendo sido iluminado, e como tendo provado do dom celestial. Não, meus irmãos, se eu provei do dom celestial, então, esse dom celestial é meu; se experimentei alguma vez o amor de meu Salvador, então eu sou dEle; se Ele me trouxe aos pastos verdejantes, e me fez provar das águas tranqüilas e da terna grama, não preciso temer se sou realmente um filho de Deus.
Então, o apóstolo dá uma descrição adicional, um estado mais alto da graça: santificação pela participação do Espírito Santo. É um privilégio peculiar aos crentes, depois de terem primeiro provado do dom celestial, serem feitos participantes o Espírito Santo. Ele é um Espírito que habita interiormente; Ele habita nos corações, nas almas e nas mentes dos homens; Ele faz desta carne moral Sua morada; Ele faz de nossa alma Seu palácio, e ali Ele descansa; e nós afirmamos (e cremos, sobre a autoridade da Escritura), que nenhum homem pode ser feito participante do Espírito Santo e, todavia, não ser regenerado. Onde o Espírito habita deve haver vida; e se eu participo do Espírito Santo, e tenho comunhão com Ele, então, posso descansar seguro de que minha salvação foi comprada pelo sangue do Salvador. Tu não deves temer, amado; se tens o Espírito Santo, tu tens isso que assegura tua salvação; se tu, por uma comunhão interna, podes participar de Seu Espírito, e se por um perpétuo habitar o Espírito Santo descansa em ti, tu não somente és um cristão, mas tens alcançado certa maturidade em e pela graça. Tu tens ido além da mera iluminação: tens passado do simples provar - tens chegado a um verdadeiro festim e a uma participação do Espírito Santo.
Contudo, para que não haja nenhuma dúvida acerca de que essas pessoas são filhos de Deus, o apóstolo prossegue para um novo estágio da graça. Eles "provaram a boa palavra de Deus". Agora, me aventuro a dizer que há aqui alguns bons cristãos que provaram o dom celestial, mas que nunca "provaram a boa palavra de Deus". Com isto quero dizer que eles são verdadeiros convertidos, provaram o dom celestial, mas não cresceram tão fortalecidos na graça a ponto de conhecerem a doçura, a riqueza e a abundância da própria palavra que os salva. Eles foram salvos pela palavra, mas não chegaram a ponto de compreender e amar e se alimentar da palavra, como muitos outros têm feito. Uma coisa é Deus operar uma obra da graça na alma, e outra coisa totalmente diferente é Deus nos mostrar tal obra; uma coisa é a palavra operar em nós - e outra coisa é que nós, de maneira real e habitual, possamos saborear, provar e regozijar nessa palavra. Alguns de meus ouvintes são cristãos verdadeiros; mas eles não chegaram ao estágio onde eles podem amar a eleição, e tragá-la como um doce bocado, na qual podem contemplar as grandiosas doutrinas da graça, e alimentar-se delas. Porém, estas pessoas tinham alcançado esse estágio. Tinham provado a boa palavra de Deus, assim como recebido o dom celestial: eles tinham alcançado tal estágio pois amavam a palavra, a provaram e tinham tido um festim com ela. Ela era o seu braço direito; consideravam-na mais doce do que o mel - ah, mais doce que o licor dos favos. Eles tinham "provado a boa palavra de Deus". Eu digo novamente: se estas pessoas não são crentes, o que são?
E eles tinham ido mais adiante. Eles tinham alcançado o cume da piedade. Eles tinham recebido "os poderes do mundo vindouro". Não os dons miraculosos, que nos são negados nestes dias, mas todos aqueles poderes com os quais o Espírito Santo capacita um cristão. E quais são? Ora, há o poder da fé, que ordena até mesmo que os próprios céus chovam, e eles chovem, ou tapa os containers dos céus, para que não chovam. Há o poder da oração, que coloca uma escada entre o céu e a terra, e ordena que o anjo suba e desça, para levar nossas necessidades a Deus, e trazer bênçãos de cima. Há o poder com o qual Deus cinge o seu servo quando fala por inspiração, que o capacita para instruir a outros, e levá-los a Jesus; e qualquer outro pode de haja - o poder de manter comunhão com Deus, ou o poder de pacientemente esperar o Filho do Homem - eram possuídos por estes indivíduos. Eles não eram simplesmente filhos, mas homens; não estavam meramente vivos, mas dotados com poder; eram homens com músculos firmes e ossos fortes; eles tinham se tornados gigantes na graça, e não somente recebido a luz, mas também os poderes do mundo vindouro. Seja qual for o significado do texto, devemos dizer que eles eram, indubitavelmente, cristãos reais e verdadeiros , e nenhuma outra coisa mais.
II. E agora responderemos a segunda pergunta: O QUE SE QUER DIZER POR RECAÍRAM?
Devemos recordar nossos amigos que há uma vasta distinção entre recair [NT: apostatar] e cair [1]. A Escritura não menciona em nenhuma parte que se um homem cai, ele não pode ser renovado; pelo contrário, "sete vezes cairá o justo, mas ele se levantará novamente"; e embora muitas vezes o filho de Deus caia, o Senhor ainda sustenta o justo; sim, quando nossos ossos estão quebrados, Ele restaura nossos ossos outra vez, e nos coloca uma vez mais sobre uma rocha. Ele diz: "Voltai, oh filhos rebeldes; porque eu sou como esposo paar vós"; e se o cristão tropeça e se aparta de Deus, ainda assim a misericórdia todo-poderosa clama: "Voltai, voltai, voltai, e buscai o coração de um Pai ferido". Ele ainda chama seus filhos de volta. Cair não é recair [NT: isto é, cair de maneira final e irremediável]. Permita-me explicar-lhes a diferença; pois um homem que cai pode comportar-se como um que cai definitivamente; e, contudo, há uma grande distinção entre os dois. Eu não posso usar uma melhor ilustração do que a distinção entre desmaiar e morrer. Ali jaz uma jovem criatura; ela com muita dificuldade pode respirar, não pode por ela mesma levantar sua mão, e se levantada por alguém, de imediato cai. Ela está fria e dura; ela está desmaiada, mas não morta. Há outra pessoa ali, tão fria e dura como ela está, mas há esta diferença - ela está morta. O cristão pode desmaiar, e pode cair no meio do desmaio também, e alguém poderá levantar e afirmar que está morto; porém não está. Se cai, Deus o levantará novamente; porém se recai [NT: cair definitivamente, apostatar], nem o próprio Deus pode salvá-lo. Porque é impossível, se o justo recai, "que seja outra vez renovado para arrependimento".
Além do mais, recair não é cometer pecado, sob uma tentação que surpreende temporariamente. Abraão vai para o Egito; ele teme que sua esposa seja levada para longe dele, e ele diz: "Ela é minha irmã". Este foi um pecado cometido sob uma surpresa temporal - um pecado, do qual, não muito tempo depois, ele se arrependeu e Deus o perdoou. Isto é cair; mas não é recair. Até mesmo Noé pode cometer um pecado, o qual degradou sua memória até os nossos dias, e o desonrará até o final dos tempos; porém, sem dúvida, Noé se arrependeu e foi salvo pela graça soberana. Noé caiu, mas não recaiu. Um cristão pode de desviar uma vez, e voltar rapidamente outra vez; e embora seja uma coisa triste, dolorosa e má o ser surpreendido em pecado, todavia, há uma grande diferença entre este e o pecado que seria ocasionado por um recaída total da graça.
Nem pode ser dito que um homem que comete um pecado, sem ser necessariamente surpreendido, recaiu. Eu creio que alguns cristãos - (Deus não permita que digamos muito a respeito! - cubramos com um manto a nudez de nosso irmão), mas creio que há alguns cristãos que, durante um período de tempo, foram desviados pelo pecado e, todavia, não recaíram positivamente. Ali está o caso negro de Davi - um caso que tem confundido a milhares. Certamente durante alguns meses, Davi viveu sem fazer uma confissão pública de seu pecado, porém, sem dúvida, sentia dores em seu coração, pois a graça não tinha cessado sua obra: havia uma centelha entre as cinzas que Natã instigou, que nos mostra que Davi não estava morto, pois do contrário o fósforo que o profeta riscou não teria produzido luz tão rapidamente. E assim, amados, vocês podem se desviar no pecado por um tempo, e se apartarem de Deus; e, contudo, vocês não são as pessoas cujo caráter é aqui descrito, em relação aos quais é dito que é impossível que sejam salvos; mas, ainda que vocês se desviem, vocês ainda são os filhos de seu pai, e a misericórdia clama: "Arrependei-vos, arrependei-vos; voltai para o vosso primeiro marido, porque melhor lhes seria então do que agora. Voltai, oh desviados, voltai".
Novamente, recair não é nem sequer renunciar à profissão. Alguns dirão: Por exemplo, ali está fulano de tal; ele costumava fazer uma profissão do Cristianismo, e agora ele o nega, e o que é pior, ousa amaldiçoar e jurar, e diz que nunca conheceu a Cristo. Certamente ele deve ter recaído". Meus amigos, ele caiu, caiu de forma horrível e pesarosa; porém, me recordo um caso na Escritura de um homem que negou a seu Senhor e Deus diante de Sua própria face. Vocês lembram seu nome; ele é um velho amigo de vocês - nosso amigo Simão Pedro! Ele negou com juramentos e maldições, e disse, "Não conheço esse homem". E, contudo, Jesus olhou para Simão. Ele tinha caído, mas não tinha recaído; pois, somente dois ou três dias depois disso, ali estava Pedro na tumba de seu Mestre, tendo corrido para esse lugar para encontrar-se com seu Senhor, para ser um dos primeiro a encontrá-Lo ressurreto. Amados, vocês podem até ter negado a Cristo numa profissão aberta e, contudo, se se arrependem, há misericórdia para vocês. Cristo não lhes lançará fora; vocês ainda se arrependerão. Vocês não recaíram. Se tivessem, não poderia pregar-lhes; porque é impossível que os que tenham recaído sejam outra vez renovados para arrependimento.
Mas alguém dirá: "O que é recair?" Bem, nunca houve um caso disso,portanto, não posso descrevê-lo por observação; mas eu direi o que suponho que seja. Recair seria ter o Espírito Santo tirado totalmente de um homem - Sua graça inteiramente cessada; não estar dormindo, mas deixar de ser - que Deus, que começou uma boa obra, deixe de completá-la inteiramente - é o retirar completo e inteiro de Sua mão e dizer: "Está bem, homem! Eu te salvei; agora te condenarei". Isto é o que significa recair. Não é pecar temporalmente. Um filho pode pecar contra seu pai, e ainda assim estar vivo; mas recair é como cortar completamente a cabeça do filho. Não cair meramente, pois então nosso Pai pode nos levantar, mas ser lançado num precipício, onde estamos perdidos para sempre. Recair envolveria uma mudança na natureza viva da graça de Deus. A imutabilidade de Deus se tornaria variável, e a fidelidade de Deus se tornaria mutável, e o próprio Deus teria Sua Deidade retirada; porque todas estas coisas seriam requeridas para uma recaída.
III. Mas se um filho de Deus pode recair, e a graça pode cessar no coração de um homem - agora vem a terceira pergunta - Paulo diz, É IMPOSSIVEL QUE SEJAM RENOVADOS. O que o apóstolo quer dizer? Um eminente comentarista diz que ele quis dizer que seria muito difícil. Seria muito difícil, certamente, para um homem que recaiu, ser salvo. Mas replicamos: "Meu querido irmão, não é dito absolutamente nada acerca de que é muito difícil; é dito que é impossível, e dizemos que seria absolutamente impossível, se tal caso suposto acontecesse; impossível para o homem, e também impossível para Deus; porque Deus propôs que Ele nunca concederá uma segunda salvação para salvar aqueles a quem a primeira salvação falhou em libertar. Parece-me, contudo, que ouço alguém dizer: "Parece-me que é possível para alguns recair", pois é dito: "é impossível, se eles recaírem, renová-los novamente para arrependimento". Bem, meu amigo, vou considerar sua teoria por um momento. Você é um bom cristão nesta manhã; apliquemos isto a você mesmo, e vejamos se te agrada. Você creu em Cristo, e entregou sua alma a Deus, porém pensa que num momento desafortunado podes recair inteiramente. Observe bem, se você vir a mim e me disser que recaiu, como gostaria de que dissesse: "Meu amigo, você está tão condenado como o demônio no inferno! pois é impossível te renovar para arrependimento?" "Oh! não, senhor", você diria, "vou me arrepender novamente e me unir à Igreja". Essa é precisamente a teoria arminiana; mas não se encontra na Escritura de Deus. Se você alguma vez recair, estás tão condenado como qualquer pessoa que sofre no inferno para sempre. Contudo, temos escutado um homem falar sobre pessoas sendo convertidas três, quatro e até cinco vezes, e regeneradas repetidamente. Lembro-me de um bom homem (suponho que era) apontando para um homem que estava andando na rua, e dizendo: "Aquele homem nasceu de novo três vezes, e isso eu sei com certeza". Eu poderia mencionar o nome do indivíduo, mas me abstenho de fazê-lo. "E eu creio que ele vai cair novamente", disse ele, "pois é tão apegado à bebida, que eu não creio que a graça de Deus possa fazer algo por ele, a menos que ele se torne um abstêmio". Agora, tais homens não podem ler a Bíblia; pois no caso de seus membros recaírem positivamente, o texto diz que, como um fato positivo, é impossível que sejam outra vez renovados para arrependimento. Mas eu pergunto ao meu amigo arminiano: acaso não crês que enquanto haja vida, há esperança? "Sim", ele diz:
"Enquanto a lâmpada está ardendo,
O mais vil dos pecadores pode retornar."
Bem, isso não é muito consistente, dizer isto logo após o que nos disseste, ou seja, que há algumas pessoas que recaem e, conseqüentemente, caem em tal condição que não podem ser salvas. Eu gostaria de saber como estas duas coisas se encaixam; eu gostaria que você fizesse estas duas doutrinas concordarem; e até que um indivíduo empreendedor traga o pólo norte, e o coloque sobre o topo do sul, não vejo como poderá fazer isso. O fato é que você está totalmente certo em dizer: "Enquanto há vida, há esperança"; porém estás errado quando diz que qualquer indivíduo que caia em tal condição pode ser salvo, pois é impossível para ele ser salvo.
Faremos agora duas coisas: primeiro, provar a doutrina, de que se um cristão recai, ele não pode ser salvo; e, em segundo lugar, aprimorar a doutrina, ou seja, mostrar sua aplicação,
I. Então, vou provar a doutrina de que se um cristão recair - não cair, porque vocês entendem o que já lhes expliquei; mas se um cristão cessa de ser um filho de Deus, e se a graça é extinta de seu coração - ele está além da possibilidade de salvação, e é impossível para ele ser renovado. Permita-me mostrar o porque. Primeiro, é absolutamente impossível, se vocês considerarem a obra que já foi arruinada. Quando os homens constroem pontes sobre os rios, se eles elas tem sido construídas com os materiais mais fortes e com a técnica mais excelente e, todavia, o fundamento são tão maus que não suportará nada, o que eles dizem? Dirão: "Já temos testado o melhor que a engenharia ou arquitetura nos tem ensinado; o melhor já falhou; não conhecemos nada que possa superar os materiais que temos testado; e, portanto, sentimos que não resta nenhuma possibilidade de poder colocar uma ponte nesse rio, ou cruzar uma linha de estrada de ferro neste lamacal, ou neste pântano, porque já testamos o que é reconhecido como o melhor sistema". Como o apóstolo diz, "estas pessoas foram uma vez iluminadas; elas estiveram sob a influência do Espírito Santo, revelando-lhes o seu pecado: o que resta para ser provado? Eles foram uma vez convencidos - há algo superior a esta convicção?" A Bíblia promete ao pobre pecador que haja algo além da convicção de seu pecado que o faça sensível ao mesmo? Há algo mais poderoso que a espada do Espírito? Se isto não tem transpassado o coração do homem; há alguma outra coisa que possa fazê-lo? Eis aqui um homem sob o martelo da lei de Deus; mas isso não tem quebrado o seu coração; você pode encontrar algo mais forte? A lâmpada do Espírito de Deus já iluminou as cavernas de sua alma; se isto não for suficiente, onde você tomará outra emprestada? Pergunte ao sol: acaso ele tem uma lâmpada que brilhe mais do que a iluminação do Espírito? Pergunte às estrelas: acaso elas têm uma luz mais brilhante que a luz do Espírito Santo? A criação responde que não. Se isso falha, então, não resta mais nada. Além do mais, estas pessoas provaram o dom celestial; e embora elas tenham sido perdoadas e justificadas, contudo, o perdão por meio de Cristo e a justificação não foram suficientes (segundo esta suposição) para salvá-los. De que outra maneira podem eles ser salvos? Deus lançou-os fora; depois que Ele falou em salvá-los por estes meios, que outra coisa poderá libertá-los? Eles já provaram o dom celestial; há uma misericórdia maior para eles? Há algum vestido mais brilhante que o traje da justiça de Cristo? Há algum banho mais eficaz que essa "fonte repleta de sangue?" Não. Toda a terra ecoa: "Não". Se estas coisas falharam, o que mais resta?
Estas pessoas, também, foram feitas participantes do Espírito Santo; se isso falha, o que mais podemos lhes dar? Meus ouvintes, se o Espírito Santo habita em tua alma, e esse Espírito Santo não te santifica e te guarda até o fim, que outra coisa poderá ser provada? Porque ao que blasfema se ele conhece um ser, ou ousa supor a existência de um ser superior ao Espírito Santo! Há um ser maior do que a Onipotência? Há algum poder maior que esse que habita no coração nascido de novo dos crentes? E se o Espírito Santo já falhou, oh, céus! diga-nos onde podemos encontrar algo que sobre-passe o Seu poder. Se Ele é ineficaz, o que resta para ser experimentado? Estas pessoas também já tinham "provado a boa Palavra da Vida"; eles amavam as doutrinas da graça; essas doutrinas tinham entrado em suas almas, e eles haviam se alimentado delas. Que novas doutrinas podem ser pregadas a eles? Profetas dos tempos! Onde vocês encontrarão outro sistema de teologia? A quem teremos? Levantaremos Moisés da tumba? Traremos a todos os antigos videntes, e lhes pediremos que profetizem? Se, então, há somente uma doutrina que é verdadeira, e essas pessoas recaíram após recebê-la, como poderão ser salvas?
Novamente, estas pessoas, de acordo com o texto, provaram "os poderes do mundo vindouro". Eles tinham tido o poder para vencer o pecado - poder na fé, poder na oração e poder na comunhão; com que maior poder poderiam ser dotados? Se isto já falhou; o que mais pode ser feito? Oh, vós, anjos! respondei, o que mais? Que outros meios ainda restam? Que outra coisa podemos usar, se as grandes coisas da salvação já foram vencidas? O que mais pode ser tentado? Ele foi salvo uma vez; mas, contudo, supõe-se que está perdido. Como, então, pode ser salvo agora? Há uma salvação suplementar? Há algo que possa superar a Cristo e ser um Cristo ali onde Jesus foi derrotado?
E, então, o apóstolo diz que a grandeza do pecado em que eles incorreriam, se de fato eles recaíssem, os colocaria além do alcance da misericórdia. Cristo morreu, e por Sua morte Ele fez uma expiação por seus próprios assassinos; Ele fez uma expiação por aqueles pecados que O crucificaram uma vez; porém, já lemos alguma vez que Cristo morrerá alguma vez por aqueles que O crucificam duas vezes? Mas o apóstolos nos diz que se os crentes recaírem, eles irão "de novo crucificar o Filho de Deus, e O expor ao vitupério". Quando, estão, haverá uma expiação para isto? Ele morreu por mim; sim! ainda que os pecados de todo o mundo estivessem sob os meus ombros, ainda assim esses pecados O crucificariam uma só vez, e essa única crucificação teria expurgado todos aqueles pecados; mas se O crucifico novamente, onde encontrarei o perdão? Poderia os céus, poderia a terra, poderia o próprio Cristo, com as estranhas cheias de amor, me apontar um outro Cristo, me mostrar um segundo Calvário, dar-me um segundo Getsemâne? Ah!, não! essa mesma culpa nos poria além do recinto da esperança, se recaíssemos.
Novamente, amados, pensem no que se requer para salvar a um homem assim. Cristo morreu por ele uma vez, todavia, ele recaiu e e está perdido; o Espírito o regenerou uma vez, e essa obra regeneradora foi inútil. Deus lhes deu um novo coração (estou falando, claro, apenas sob a suposição do apóstolo), Ele pôs Sua lei nesse coração, todavia, ele se apartou dEle, contrariamente à promessa de que não se apartaria; Ele o fez "como a luz da aurora", mas ele "não mais brilhará até ser dia perfeito", ele brilhou somente para a escuridão. O que vem a seguir? Deve haver uma segunda encarnação, um segundo Calvário, um segundo Espírito Santo, uma segunda regeneração, uma segunda justificação, embora a primeira tenha sido terminada e completa - de fato, eu não sei o que vem a seguir. Seria necessário o transtorno de todo o reino da natureza e da graça, e certamente seria um mundo invertido, se o gracioso Salvador, após falhar, tentasse fazer a obra novamente.
Se vocês lerem o versículo 7, verão que o apóstolo chama a natureza em sua ajuda. Ele diz: "Porque a terra que embebe a chuva, que muitas vezes cai sobre ela, e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada, recebe a bênção de Deus: Mas a que produz espinhos e abrolhos, é reprovada, e perto está da maldição; o seu fim é ser queimada". Olhem! há um campo; a chuva é derramada sobre ele e é produzido bom fruto. Nem, então, tem a bênção de Deus. Mas, de acordo com a suposição de vocês, há outro campo, sobre o qual desce a mesma chuva, que o mesmo orvalho umedece; ela tem sido arada e preparada, assim como a outra, e o lavrador tem exercitado toda sua arte sobre essa terra e, contudo, não é fértil. Bem, se a chuva do céu não a fertilizou, o que resta? Já se tentou todas as artes da agricultura, os últimos instrumentos têm sido trazidos e postos sobre sua superfície e, contudo, todo tem sido inútil. O que vem a seguir? Não resta nada senão ser queimada e amaldiçoada - será abandonada como o deserto do Saara e destinada à destruição. Assim, meu ouvinte, será possível que a graça opere em ti e, então, não afete tua salvação - que a influência da graça divina possa descer, como a chuva do céu, e, todavia, voltara para Deus vazia? Não haveria então nenhuma esperança para você, porque estarias "perto de ser amaldiçoado", e teu fim seria "ser queimado".
Há uma idéia que tem nos ocorrido. Parece-nos uma coisa mui singular que nossos amigos sustentem que os homens podem ser convertidos, feitos novas criaturas, e, então, recaíam e sejam convertidos novamente. Eu sou uma velha criatura por natureza; Deus cria em mim uma nova coisa, me faz uma nova criatura. Eu não posso voltar a ser uma velha criatura, porque meu processo de criação não pode ser revertido. Porém, todavia, suponhamos que minha qualidade de nova criatura não é suficientemente boa para me levar ao céu. O que vem depois disso? Deveria haver algo acima de uma nova criatura: uma nova nova criatura. Realmente, meus amigos, temos entrado no país dos sonhos; porém, somos forçados a seguir nossos oponentes nesta região de absurdos, pois não sabemos de outra maneira que podemos tratar com eles.
E um pensamento a mais. Não há nada na Escritura que nos ensine que há algum tipo de salvação, exceto a única salvação de Jesus Cristo - nada que nos diga acerca de qualquer outro poder, super-excelente e sobre-passe o poder do Espírito Santo. Estas coisas já tem sido provadas pelo homem e, todavia, de acordo com a suposição, elas falharam, porque eles recaíram. Agora, Deus nunca nos revelou uma salvação suplementar para os homens em quem a única salvação não teve efeito; e até que nos aponte uma passagem da Escritura que declara isto, sustentamos que a doutrina do texto é esta: que se a graça é ineficaz, se a graça não guarda o homem, então, não resta nada, senão que ele deva ser condenado. E o que é isto senão dizer, exceto fazendo-se um pequeno rodeio, que a graça o fará? Assim que estas palavras, em vez de militar contra a doutrina calvinista da perseverança final, forma uma das mais finas provas em favor dela.
E agora, finalmente, chegamos ao ponto de aplicar esta doutrina. Se os cristãos podem recair e deixar de ser cristãos, eles não podem ser renovados para arrependimento. "Mas", alguém diz, "você diz que eles não podem recair". Qual é o sentido de colocar este "se" como um bicho-papão para assustar as crianças, ou como um fantasma que não tem uma existência? Meu sábio amigo: "Quem és tu para replicar contra Deus?" Se Deus o colocou ali, Ele o colocou por sábias razões e para excelentes propósitos. Permita-me mostrar o porque. Em primeiro lugar, oh cristão, está posto ali para te guardar de recair. Deus preserva a seus filhos de que recaíam; mas Ele os guarda pelo uso de meios; e um deles é este, os terrores da lei, mostrando-lhes o que aconteceria se eles recaíssem. Ali está um profundo precipício: qual é a melhor forma de evitar que alguém caia nele? Certamente dizer-lhe que se ele cair ali, inevitavelmente será feito em pedaços. Em alguns velhos castelos há um porão profundo, onde há uma grande quantidade de ar e gás fixos, que mataria qualquer pessoa que descesse ali. O que diz o guia? "Se você descer, nunca sairá vivo". Quem pensaria em descer? O simples fato que o guia nos diga as conseqüências, nos guardaria disso. Nosso amigo tira de perto de nós um copo de arsênico; ele não quer que o bebamos, mas ele diz: "Se você beber, te matará". Acaso dele supõe por um momento que devemos bebê-lo? Não; ele nos diz as conseqüências, e ele está certo de que não o faremos. Assim Deus diz: "Meu filho, se você cair neste precipício você será feito em pedaços". O que fará então o filho? Ele diz: "Pai, guarda-me; me sustenha e estarei seguro". Isto leva o crente a uma maior dependência de Deus, a um santo temor e precaução, porque ele sabe que se recair, ele não poderá ser renovado, e, portanto, se coloca longe do abismo, pois sabe que se cair nele, não haverá salvação para ele. Se pensasse como o arminiano pensa, isto é, que eu posso recair, e então retornar novamente, recairia freqüentemente, porque a carne e o sangue pensariam que é mui agradável recair, e ser um pecador, e ir e assistir as peças no teatro, ou se embriagar, e então voltar para Igreja, e ser recebido novamente como um querido irmão que recaiu por um pequeno tempo. Sem dúvida o ministro diria: "Nosso irmão Charles é um pouco instável às vezes". Um pouco instável! Ele não conhece nada sobre a graça; pois a graça engendra uma santa preocupação, porque sentimos que se não fôssemos preservados pelo poder divino, pereceríamos. Dizemos a nosso amigo que coloque azeite em sua lâmpada, para que possa continuar a queimar! Isso significa que seria permitido se apagar? Não, Deus lhe dará azeite suficiente para derramar em sua lâmpada continuamente. Como a figura de John Bunyan; há um fogo, e ele viu um homem apagando-o com água. "Agora", diz o pregador, "não vês que esse fogo vai apagar, que a água está calculada para apagá-lo, e se o apaga, esse fogo nunca voltará a reviver"; porém Deus nunca permitirá isso! Pois há um homem detrás da parede que está derramando azeite no fogo; e esse é motivo de gratidão para nós, pois se o azeite não fosse derramado pela mão celestial, seríamos inevitavelmente levado a destruição. Tome cuidado, então, cristão, porque este é um aviso.
2. É para motivar nossa gratidão. Suponha que você diga ao seu filhinho: "Você sabia, pequeno Tommy, que se eu não te desse o teu almoço e a tua janta, você morreria? Não há ninguém mais para te dar almoço e janta, Tommy". O que aconteceria, então? A criança não pensará que não vais dar o seu almoço e a sua janta; ele sabe que você dará, e está agradecido contigo por isso. O químico nos diz que se o oxigênio não estivesse misturado com o ar, os animais morreriam. Você supõe por isso que não haverá oxigênio e, portanto, morreremos? Não, ele somente nos ensina a grande sabedoria de Deus, em ter misturado os gases em suas devidas proporções. Um dos antigos astrônomos: "Há uma grande sabedoria em Deus em ter colocado o sol exatamente na distância correta - nem tão longe para que congelemos, e nem tão perto para que sejamos queimados". Suporá o homem que o sol ficará milhões de milhas mais perto, e, portanto, morreremos queimados? Ele diz: "Se o sol estivesse um milhões de milhas mais longe, morreríamos congelados". Ele quer dizer que o sol ficará um milhão de milhas mais longe, e, portanto, morreremos congelados? De maneira nenhuma. Todavia, é uma maneira mui racional de nos dizer quão gratos devemos ser a Deus. Assim diz o apóstolo. Cristão! se você recaísse, nunca poderias ser renovado outra vez para arrependimento. Agradeça, então, a teu Senhor, porque Ele te guarda.
"Veja como se sustém uma pedra no ar; veja como vive uma centelha no mar;
Com vida ainda que rodeada de morte; eu dou toda a glória a Deus".
Há um cálice de pecado que condenaria tua alma, oh cristão. Oh! que graça é essa que sustém teu braço, e não permite que o bebas? Ali estás tu, nesta hora, como o caçador de pássaros de Santa Kilda, tu estás sendo levado ao céu por meio de uma só corda; se essa mão que te sustenta te deixar cair, se essa corte corda que te sustém se romper, serás arrojado nas rochas da condenação. Eleve teu coração a Deus, então, e bendiga-O porque Seu braço não se cansa, e nunca está encolhido para que não possa salvar. O Lorde Kenmure, quando estava morrendo, disse a Rutherford: "Homem! meu nome está escrito na mão de Cristo, e eu o vejo! sei que o que estou dizendo é um pouco atrevido, mas eu o vejo!" Então, se esse é o caso, Sua mão deve ser arrancada de Seu corpo antes que meu nome desapareça; e se está gravado em Seu coração, Seu coração deve ser extraído antes que possam arrancar meu nome dali.
Então, crente, mantenha-se firme e creia! tu tens uma "âncora da alma, segura e firme, e que penetra até ao interior do véu". Os ventos estão soprando, as tempestades uivando; se o cabo se arrebentar, ou tua âncora quebrar, tu estarás perdido. Veja aquelas rochas, para as quais miríades se dirigem, e tu também naufragarás ali, se a graça te deixar; veja aquelas profundezas, nas quais esqueletos de marinheiros dormem, e tu também dormirás ali, se tua âncora falhar. Seria impossível te amarrar novamente, se essa âncora uma vez quebrar; porque não há outra âncora, não há outra salvação, e se essa salvação falhar, é impossível que sejas salvo alguma vez. Portanto, dê graças a Deus pois tens uma âncora que não pode falhar, e entoe esse hino com grande voz -
"Como poderia me afundar com um sustentáculo,
Como o meu eterno Deus,
Que sustenta os gigantescos pilares da terra,
E estende os céus como cortina?"

Como poderia morrer, se Jesus vive,
Que se levantou dos mortos?
Perdão e graça minha alma recebe,
Da minha Cabeça exaltada".

Via Monergismo

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Lutando contra os Males da Pornografia

Por Hugo Coutinho
Não é fácil ser um jovem nos dias de hoje. Talvez nunca tenhamos vivido tempos tão complicados como os atuais. Os desafios que os jovens cristãos, que querem realmente se manter em santidade, enfrentam parecem ser mais difíceis do que nunca. Nossa sociedade se entregou ao sexo. A sexualidade é exaltada e propagada de todos os modos. Desenhos, propagandas, filmes ou revistas, para onde quer se olhe há exaltação da sexualidade. Vivemos num tempo em que a cultura esta toda voltada ao sexo.

Pior do que isto, hoje, a apenas um “clique”, temos acesso a todo tipo de pornografia degradante e imoral. Ela está disponível em grande quantidade, em várias (des)qualidades e ainda por cima gratuitamente. É um convite suculento a corações corrompidos pelo pecado, e tendenciosos as obras da carne (Gl 5.19). Os que estão na carne têm “olhos cheios de adultério, e não cessão de pecar” (2 Pe 2.14); eles são dados a pecar.
PORNOGRAFIA E MASTURBAÇÃO
Pornografia e masturbação são a perfeita antítese do ideal de Deus para o sexo. A pornografia é violenta, é uma perversão da sexualidade, é uma degradação. Ela esta além das regras do amor, apenas satisfaz os desejos mais sórdidos e imundos do ser humano.

A masturbação quebra a mutualidade do ato sexual, o sexo é feito para ser compartilhado pelo casal, este é o propósito de Deus para a sexualidade. A masturbação pega um ato criado por Deus e o torna em um ato sujo, egoísta, vergonhoso e nojento.

MAS E O QUE A BÍBLIA NOS DIZ SOBRE SEXO?
O propósito do sexo é prover intimidade entre o casal. O sexo é um meio de satisfação MÚTUA, em que o marido pensa primeiro em sua esposa, e ela primeiramente nele. Ao satisfazerem as necessidades do outro, eles se satisfazem. Note bem o aspecto mútuo do sexo “dar e receber”.
O sexo, é para ser compartilhado apenas entre um marido e sua esposa, e não pode ser estendido para outros, quer antes do casamento, quer durante o casamento (Mateus 5:27,28). O sexo não deve ser despertado até a hora certa (Cantares 8:4). Sexo é para ser praticado regularmente, durante um casamento (1 Coríntios 7:1-5).
OS PERIGOS DA PORNOGRAFIA  E DA MASTURBAÇÃO
Elas nos afastam de Deus. Uma vida de pecado nos afasta de Deus, é impossível imaginar que um consumidor costumeiro de pornografia esteja em santidade, santidade esta que, sem qual, não veremos a Deus (Hebreus 12.14b). Esta é a vontade de Deus, a santidade do seu povo “Porque esta é a vontade de Deus, a vossa santificação; que vos abstenhais da imoralidade; que cada um de vós saiba possuir o seu vaso em santificação e honra; não na paixão da concupiscência, como os gentios, que não conhecem a Deus” (1 Tessalonicenses 4.4-6).

A masturbação poliu sua mente. A razão mais comumente dada por que as pessoas não devem se masturbar é que polui a mente. A satisfação sexual não é apenas um ato físico, mas um ato que envolve a mente. O ato em si traz muito menos culpa do que a imaginação que o acompanha – as imagens da mente – que são uma parte inevitável da experiência. A fantasia raramente envolve parceiros sexuais legítimos, assim como as cenas de sexo dos filmes raramente envolvem casais casados, que podem, diante de Deus, ter relações sexuais legítimas.  LEMBRE-SE “Mas eu digo a você que todo aquele que olhar para uma mulher com intenção sensual, já cometeu adultério com ela em seu coração” (Mateus 5:28).

A pornografia sempre requererá mais de você. Esta é a verdadeira natureza do pecado, não é? O pecado é progressivo por natureza. Se você dá uma polegada, ele logo pede para tirar uma milha. O pecado nunca está satisfeito, mas sempre procura e deseja mais. É um abismo chama outro abismo (Sl 42:7).

A pornografia e a masturbação te aprisionam. O Diabo tem usado a culpa e a vergonha de muitos que têm caído neste pecado para aprisiona-los. Quantas vezes você já disse NÃO há um chamado ou serviço cristão por vergonha ou por não se achar digno dele?

MAS, E COMO LUTAR CONTRA ESTES MALES?
Confesse seu pecado: Saiba que Deus perdoa uma pessoa que se masturba e vê pornografia. Mas só após esta pessoa se confessar e se arrepender “Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar todos os pecados e nos purificar de qualquer injustiça.” 1 Jo 1:9

Procure um líder da sua congregação: Vocês não estão sozinhos nesta batalha. Se você verdadeiramente quer superar a pornografia, procure o seu pastor ou algum irmão mais experiente em sua igreja.

Lute contra ele: Sim irmãos, temos que lutar contra estes impulsos e extermina-los “Exterminai, pois, as vossas inclinações carnais; a prostituição, a impureza, a paixão, a vil concupiscência, e a avareza, que é idolatria pois por estas coisas vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência;” (Colossenses 3:5,6).

Para todos que lutam contra este pecado, tenham bom ânimo. Não se limite a dizer que “todo mundo faz isso”. O sangue de Cristo naquela cruz foi forte o bastante para te libertar destes ou de qualquer outro pecado. Não seja prisioneiro da imoralidade sexual, Deus pode, e quer, libertar você!
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Fonte: Reformai
Via Electus