quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Existem duas vontades em Deus?
por
Dr. Sam Storms


O que a Bíblia quer dizer quando fala da vontade de Deus? Deus sempre impõe sua vontade? Pode a vontade de Deus ser resistida ou frustrada? Considere os seguintes textos:
Bem sei que tudo podes, e nenhum dos teus planos pode ser frustrado. (Jó 42:2).
Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão, nem lhe dizer: Que fazes? (Dn. 4:35)
No céu está o nosso Deus e tudo faz como lhe agrada. (Sl 115:3; cf Ef. 1:11).

Todavia, dizemos que a vontade de Deus é que todos os homens sejam salvos; (I Tm 2:4) que todos cheguem ao arrependimento (2 Pe 3:9). Como podemos reconciliar essas duas declarações aparentemente contraditórias? Uma reposta é encontrada na distinção entre a vontade preceptiva de Deus e sua vontade decretiva.
Considere Ex. 4:21-23 e a dureza do coração de faraó. Deus, através de Moisés, ordenará que Faraó deixe o povo ir. Esta é a vontadepreceptiva de Deus, isto é, sua vontade de preceito ou ordem. Ela é o que Deus diz que deveria acontecer. Outros fazem referência a isso como a vontade revelada de Deus ou sua vontade moral. Mas Deus também diz que endurecerá o coração de Faraó, de sorte que Faraó recusará a ordem de deixar o povo ir. Esta é a vontade decretiva de Deus, ou seja, sua vontade de decreto ou propósito. O que Deus tem ordenado acontecerá. Ela é também conhecida como sua vontade oculta, ou vontade soberana ou vontade eficiente. “Assim, o que vemos [em Êxodo] é que Deus ordena que Faraó faça algo que a vontade do próprio Deus não permite. A boa coisa que Deus ordena ele impede. E aquilo que ele traz envolve pecado” (John Piper, “Are There Two Wills in God?”, 114).
Assim, a vontade decretiva de Deus refere-se ao secreto, tudo que engloba seu divino propósito de acordo com o que ele predestinou, seja o que for que venha a acontecer. Sua vontade preceptiva refere-se às ordens e proibições nas Escrituras. Alguém necessita contar com o fato de que Deus pode decretar aquilo que ele tem proibido. Ou seja, a sua vontade preceptiva pode ter ordenado que o evento X deveocorrer, ao passo que nas Escrituras, a vontade preceptiva de Deus, ordena que o evento X não deva ocorrer.

John Frame coloca isto da seguinte forma:
A vontade de Deus é às vezes frustrada porque ele assim o quer, pois ele tem dado a um dos seus desejos precedência sobre outro. (No Other God, 113)
Deus não planeja causar tudo o que ele valoriza, mas ele nunca falha em causar tudo o que ele planejou. (113)

Ou novamente: Deus está frequentemente satisfeito em ordenar sua própria insatisfação.
1.  Talvez o melhor exemplo seja encontrado em Atos 2:22-23 e 4:27-28. Aqui nós encontramos em certo sentido Deus “desejoso” de entregar seu próprio Filho, enquanto em outro sentido “não desejoso” porque era algo pecaminoso para seus executores cumprirem isto. Como Piper explica, “O desprezo de Herodes por Jesus (Lucas 23:11), a conveniência da covardia de Pilatos (Lucas 23:24), o 'Crucifica-o! Crucifica-o!' dos judeus (Lucas 23:21), e a zombaria dos soldados gentios (Lucas 23:36), também foram atitudes e atos pecaminosos. Ainda em Atos 4:27-28 Lucas expressa seu entendimento da soberania de Deus nestes atos, registrando a oração dos santos de Jerusalém: “porque verdadeiramente se ajuntaram nesta cidade contra o teu santo Servo Jesus, ao qual ungiste, Herodes e Pôncio Pilatos, com gentios as pessoas de Israel, para fazerem tudo o que a tua mão e o teu propósito (boule) predeterminaram”! Herodes, Pilatos, os soldados, e o grupo de judeus levantaram suas mãos para se rebelar contra o Altíssimo somente para provar que a rebelião deles era um serviço inconsciente (pecaminoso) nos inescrutáveis planos de Deus... Portanto, sabemos que não era a “vontade de Deus” que Judas, Pilatos, Herodes, os soldados gentios e os judeus desobedecessem a lei moral, pecando ao entregar Jesus para ser crucificado. Assim, sabemos que Deus, em certo sentido, permite sua vontade e que não permite em outro sentido. (111-112).
O que Deus tem eternamente decretado que acontecerá pode ser o oposto do que ele, nas Escrituras, diz que deve ou não deve acontecer. É importante manter em mente que nossa responsabilidade é obedecer à vontade de Deus revelada,  e não especular sobre o que está oculto. Somente raramente, como no caso da profecia preceptiva, Deus nos revela a sua vontade decretiva. Exemplos da vontade preceptiva ourevelada incluem: Ezequiel 18:3; Mateus 6:10; 7:21; Efésios 5:17; e I Tess. 4:3. Algumas também seriam colocadas nesta categoria: I Tm 2:4 e II Pe 3:9. Exemplos da vontade decretiva ou escondida de Deus incluem: Tiago 4:15; I Co 4:19 e Mat 11:25-26.
(2) Outro exemplo é encontrado em Ap 17:16-17. Claramente “empreender guerra contra o Cordeiro é pecado e pecado contrário à vontade de Deus. Contudo o anjo diz (literalmente), “Porque em seu coração incutiu Deus [os dez reis] que realizem o seu pensamento, o executem a uma e dêem à besta o reino que possuem, até que se cumpram às palavras de Deus” (v.17). Portanto Deus desejou (em um sentido) influenciar os corações dos dez reis de maneira que eles fariam o que era contra sua vontade (em outro sentido)”. (Piper, 112; minha ênfase).
(3) Em Dt 2:26-27, lemos o pedido de Moisés para que os israelitas pudessem passar através da terra de Seom, rei de Hesbom. Teria sido uma “boa” coisa que aquele rei tivesse permitido. Porém, ele não permitiu porque o Senhor “endureceu seu espírito e obstinou seu coração” (Dt 2:30). Assim, “foi a vontade de Deus (em um sentido) que Seom agisse de uma forma que fosse contrária à vontade de Deus (em outro sentido), ou seja, que Israel fosse abençoado, e não amaldiçoado” (115).
(4) Muito do mesmo é encontrado em Josué 11:19-20, onde somos informados que o Senhor “endureceu os corações” de todos aqueles em Canaã para resistir à Israel, de maneira que ele, o Senhor, pudesse destruí-los assim como disse que o faria.
(5) De acordo com I Rs 22:19-23 (II Cr 18:18-22) Acabe estava procurando formar uma aliança com Josafá, rei de Judá, de forma que juntos pudessem atacar Ramote-Gileade, a qual estava sob o controle da Síria. Josafá insistiu para que primeiro eles consultassem o profeta para ver a perspectiva de Deus. Acabe, de outro lado, ajuntou 400 dos seus profetas e disse a eles para atacar Ramote-Gileade e que seriam vitoriosos. Josafá consultou o profeta Micaías, o qual lhe contou a visão que teria tido quando viu o Senhor assentado no seu trono, e todo o exército do céu estava junto a ele. Nesta visão, Deus perguntou quem enganaria a Acabe, para que suba e caia em Ramote-Gileade? Um “espírito” (anjo?) se apresentou para ser o “espírito mentiroso na boca de todos os profetas de Acabe” (v.22). Deus concordou. O espírito foi e assim o fez; Acabe ouviu a voz dos profetas, e foi para a batalha, onde veio a morrer.
Alguns argumentam que o “espírito” era de fato o diabo, todavia, não há indicação disto no texto. O espírito é retratado simplesmente com um em meio aos outros. Não há evidências de que ele tinha uma posição superior ou especial. Seria um anjo caído, um demônio? Provavelmente. Realizou uma função má: incitou os profetas de Acabe a mentir. Apesar do espírito não ser o diabo em si, existem inegáveis paralelos entre este texto e o de Jó 1. Também, a passagem parece atrair uma distinção entre o espírito que inspira os profetas de Acabe e o que inspira Micaías (v. 24). “A implicação é que Micaías e os profetas de Acabe poderiam não ter recebido as mensagens da mesma fonte. Existe, naturalmente, duas fontes distintas, mas é Micaías quem tem a fonte correta. Afinal de contas, é a sua profecia que vem e acontece” (página 79).
Observe que mesmo este espírito demoníaco está absolutamente sujeito à vontade de Deus. É o comando de Deus. Está claro para Micaías que era Deus quem “pôs o espírito mentiroso na boca de todos estes teus profetas; e o Senhor falou o que é mau contra ti” (v.23). Assim Deus pode e frequentemente usa espíritos demoníacos para satisfazer seus propósitos. Novamente, vemos que a pergunta, “Quem fez isto, Deus ou o Diabo?” pode ser respondida, “Sim”. Porém Deus é sempre último. [Um paralelo próximo a essa passagem é encontrado em Juízes 9:23, onde Deus suscitou um espírito de aversão entre Abimeleque e os cidadãos de Siquém.]
O que é importante para o nosso propósito é o fato óbvio de que Deus ordena que suas criaturas não mintam ou enganem. Mentir ou enganar é, portanto, contrário à vontade de Deus. Todas as criaturas de Deus são moralmente obrigadas a dizer a verdade. Todavia, aqui temos um exemplo no qual Deus coloca um espírito enganador nos lábios daqueles homens. Neste sentido, pareceria que as palavras que eles falaram foram de acordo com a vontade de Deus, ao mesmo tempo que, em outro sentido, as palavras que eles falaram foram contra a vontade de Deus.
(6) Outras citações são encontradas em Rm 11:7-9, 31-32 e Mc 4:11-12. No primeiro texto vemos que “embora seja a ordem de Deus que seu povo veja, ouça e responda em fé” (Is 42:18), contudo, Deus tem suas razões para enviar de vez em quando um espírito de estupor de maneira que sua vontade não seja obedecida” (115). Igualmente, “o ponto em Rm 11:31...é que o endurecimento de Israel por Deus não é um fim em si mesmo, mas é parte de um propósito salvador que abraçará todas as nações. Mas, durante um pouco de tempo, temos que dizer que ele deseja uma condição (endurecimento do coração) que ele ordena que as pessoas lutem contra (Não endureçais vossos corações [Hb 3:8,15; 4:7])” (116). No texto de Marcos, “Deus deseja que uma condição prevaleça sobre uma outra que ele considera repreensível. Sua vontade é que eles se arrependam e creiam no Evangelho (Mc 1:15), mas ele age de forma a restringir a realização dessa vontade” (115).
(7) Em I Sm 2:22-25 lemos sobre a maldade dos filhos de Eli; a maldade era claramente contra a “vontade” de Deus. A “vontade” revelada de Deus era para que eles ouvissem a voz de seu pai e parassem de pecar. Aprendemos ainda que a razão pela qual eles não obedeciam a Eli (e Deus) era porque “o Senhor os queria matar.” Como Piper nota, “isto faz sentido somente se o Senhor tivesse o direito e o poder para parar a desobediência deles. Um direito e poder que ele desejou não usar. Assim, devemos dizer num sentido que Deus desejou que os filhos de Eli fossem fazer o que ele não ordenou que fizessem; não honrar seu pai e cometer imoralidade sexual” (117).
(8) Outros exemplos similares ao de I Sm 2 são II Sm 17:14; I Rs 12:9-15; Jz 14:4 e Dt 29:2-4. Estes são todos incidentes, dentre vários outros que poderiam ser citados, onde Deus escolhe (“deseja”) que certos comporamentes aconteçam, os quais ele não ordenou (“não deseja ”) que acontecesse.
(9) Ainda outro exemplo é encontrado em Gn 50:20. Aqui José diz a seus irmãos, “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida”. Diz Grudem: “Aqui, a vontade revelada de Deus para os irmãos de José era que os mesmos deveriam amá-lo e não roubá-lo ou vendê-lo como escravo ou intentar plano de matá-lo. Mas a vontade secreta de Deus era que na desobediência dos irmãos de José uma grande coisa seria feita quando José, tendo sido vendido como escravo no Egito, ganhasse autoridade sobre toda a terra e fosse capaz de salvar sua família” (Systematic Theology, 215).

Os Arminianos tem tradicionalmente objetado contra esta distinção entre “duas vontades em Deus” quando diz respeito à questão da salvação individual. Estou pensando em particular na declaração de I Tm 2:4 e II Pe 3:9. Mas “no final os Arminianos também devem dizer que Deus deseja algo mais fortemente do que ele deseja a salvação de todas as pessoas, pois de fato nem todos são salvosOs Arminianos afirmam que a razão pela qual nem todos são salvos é que Deus deseja preservar o livre arbítrio dos homens mais do que ele deseja salvar alguém. Mas isto não está fazendo uma distinção entre dois aspectos da vontade de Deus? Por outro lado, a vontade de Deus é que todos sejam salvos (I Tm 2:5-6; II Pe 3:9). Mas também em outro sentido sua vontade é de absolutamente preservar o livre arbítrio. De fato, ele deseja a segunda mais do que a primeira. Portanto, isto significa que os Arminianos também necessitam concordar que em I Tm 2:5-6 e II Pe 3:9 Deus não diz que ele deseja a salvação de todos de uma maneira absoluta e não qualificada – eles também necessitam concordar que os versículos fazem referência a um tipo ou a um aspecto da vontade de Deus (684).
Tanto Calvinistas como Arminianos, portanto, devem concordar que existe algo mais que Deus considera como mais importante que a salvação de todos: “Teólogos reformados dizem que Deus julga sua própria glória mais importante do que a salvação de todos, e que (de acordo com Rm 9) a glória de Deus é também promovida pelo fato de que nem todos são salvos. Os teólogos Arminianos também dizem que algo é mais importante para Deus do que a salvação de todos os homens, a saber, a preservação do livre arbítrio dos homens. De maneira que no sistema reformado o mais alto valor para Deus é sua própria glória, e no sistema Arminiano, o mais alto valor para Deus é o livre arbítrio do homem”. (684).

Adendo: Observações de Edwards

É importante tomar nota da explanação de Jonathan Edwards sobre este ponto:
Quando a distinção é feita entre a vontade revelada de Deus e sua vontade secreta, ou seu desejo de comando ou decreto, a vontade é certamente tomada em dois sentidos: Sua vontade de decreto não é a sua vontade no mesmo sentido que sua vontade de comando. Portanto, não difícil de forma alguma supor, que uma pode ser o contrário da outra: sua vontade em ambos os sentidos é sua inclinação. Mas quando dizemos que ele deseja virtude, ou ama a virtude, ou a felicidade de sua criatura, então através disso, é pretendido que a virtude, ou a felicidade da criatura, absoluta ou simplesmente considerada, está de acordo com a inclinação da sua natureza. Sua vontade de decreto é sua inclinação para uma coisa, não tal para coisa absoluta e simplesmente, mas com respeito à universalidade das coisas que foram, são ou serão. Assim, Deus, embora odeie uma coisa como ela é simplesmente, poder inclinar-se para ela com referência à universalidade das coisas. Embora ele odeie o pecado em si, todavia, ele pode permiti-lo, para a maior promoção de sua santidade nessa universalidade, incluindo todas as coisas, em todos os tempos. Assim, embora ele não tenha nenhuma inclinação para a miséria da criatura, considerada absolutamente, todavia, ele pode desejá-la, para a maior promoção de felicidade nessa universalidade. Deus se inclina para excelência, que é harmonia, mas, todavia, ele pode se inclinar para o sofrimento que não é harmonioso em si, para promoção da harmonia universal, ou para a promoção da harmonia que há na universalidade, e fazê-la brilhar com mais intensidade (Misc., 527-28).

Novamente, ele insiste que:
Não há inconsistência ou contrariedade entre a vontade decretiva e preceptiva de Deus. É bastante consistente supor que Deus possa odiar a coisa em si, e, todavia, desejar que ela aconteça. Sim, eu não receio em afirmar que a coisa em si possa ser contrária à vontade de Deus, e ainda que possa ser agradável que sua vontade venha a acontecer em outro caso. Supor que Deus tem vontades contrárias para com o mesmo objeto, é uma contradição; mas não o é quando se supõe que ele tenha vontades contrárias sobre diferentes objetos. A coisa em si, e que a coisa que deva acontecer, são diferentes, como é evidente; porque é possível que uma possa ser boa e o outra possa ser má. A coisa em si pode ser má, e ainda pode ser bom que ela aconteça. Pode ser bom que uma coisa má aconteça; e frequentemente, muito certamente e inegavelmente, é isso o que acontece, e provado está. (Misc., 542-43)


Traduzido por: Marcos Medeiros
Agradecemos ao tradutor, que gentilmente se dispôs a traduzir esse artigo para o site Monergismo.com.
Este artigo é parte integrante do portal http://www.monergismo.com/. Exerça seu Cristianismo: se vai usar nosso material, cite o autor, o tradutor (quando for o caso), a editora (quando for o caso) e o nosso endereço. Contudo, ao invés de copiar o artigo, preferimos que seja feito apenas um link para o mesmo, exceto quando em circulações via e-mail.

A Soberania de Deus e a Responsabilidade Humana


.
Por: Arthur W. Pink
"Porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade." (Filipenses 2:13).
No capítulo anterior consideramos a questão da vontade humana.

Temos visto que a vontade do homem natural não é soberana nem também não livre, senão antes bem serva de sua natureza caída e do pecado.

Não é possível sustentar a doutrina bíblica da depravação humana a menos que sustentemos também o conceito bíblico da escravatura da vontade humana. Até que seja ensinado por Deus, o homem natural negará que o pecado tem escravizado tanto a sua mente como as suas emoções e a sua vontade. O homem caído vangloria-se de seu "livre arbítrio", quando em realidade está em servidão ao pecado e é levado cativo à vontade de Satanás. (Veja 2 Timóteo 2:26). Mas se a vontade do homem natural não é livre, significa então que não é responsável pelos seus atos? Acaso Deus não pode inculpá-lo pelo seu orgulho, rebelião e incredulidade?

As Escrituras falam continuamente da corrupção moral e da ruína espiritual do homem. Também declaram que o homem é incapaz de fazer o bem espiritual, mas isto não significa que as Escrituras neguem que seja responsável. Antes bem, falam continuamente dos seus deveres para Deus e para o seu próximo, e exigem uma obediência perfeita aos mandamentos de Deus. Então, o assunto mais difícil é definir a relação entre a soberania de Deus e a responsabilidade humana.

Muitos, em seu empenho por manter a verdade da responsabilidade humana, acabam negando de uma ou outra forma a soberania de Deus. Estas pessoas dizem que se Deus fosse a exercer um controle direto sobre a vontade humana, o homem ficaria reduzido a um fantoche. Portanto, afirmam que Deus não pode fazer mais do que advertir e exortar o h.; pois se Deus fizesse algo mais direto, isto acabaria com a liberdade humana. Outros têm caído no erro do fatalismo; ou seja, tratam de usar a soberania de Deus para justificar a sua desobediência e pecado, como se Deus tivesse a culpa.

Podemos resumir o ensino bíblico sobre este assunto com o seguinte:
.

  1. Deus é inteiramente soberano, em todo sentido, sobre todas as coisas, incluso sobre a vontade humana. Mas a soberania de Deus não tira nem diminui em forma alguma a responsabilidade humana.
  2. Os homens são completamente responsáveis; são responsáveis pelos seus atos, são responsáveis de obedecer, de crer, de fazer a vontade de Deus, responsáveis por tudo quanto fazem. Mas em sentido nenhum a responsabilidade humana tira ou diminui a soberania de Deus.
  3. Não existe contradição alguma entre estas duas verdades. Paulo em Romanos 9:11-24 dá uma exposição das duas coisas. O leitor deveria realizar um cuidadoso estudo dos argumentos apresentados pelo apóstolo em Romanos 9 em defesa desta verdade. Também muitos outros versículos declaram juntamente estas duas verdades. Veja por exemplo Atos 2:23, Lucas 22:22, Atos 4:24-28, Atos 13:45-48 y 2 Tessalonicenses 2:8-14. .
Neste capítulo trataremos com as seguintes perguntas:.
  1. Como pode Deus deter a alguns homens de realizarem o que eles desejam e impulsionar a outros a fazer o que não querem, e ao mesmo tempo preservar a sua responsabilidade? (Ou seja, considerá-los responsáveis).
  2. Como pode o pecador ser responsável de fazer o que por natureza é incapaz de fazer? Como pode ser condenado por não fazer o que é incapaz de fazer?
  3. Como pode Deus decretar que os homens façam certos pecados e depois responsabilizá-los por cometê-los?
  4. Como pode o pecador ser responsável de receber a Cristo e ser responsável por rejeitá-lo, quando Deus não o tem escolhido para ser salvo?.

Primeiro: Como pode Deus deter a alguns homens de realizarem o que eles desejam e impulsionar a outros a fazer o que não querem, e ao mesmo tempo preservar a sua responsabilidade?

Em Gênesis 20:6 lemos: "E disse-lhe Deus em sonhos: Bem sei eu que na sinceridade do teu coração fizeste isto; e também eu te tenho impedido de pecar contra mim; por isso não te permiti tocá-la". Aqui temos um caso claro onde Deus deteve Abimeleque de pecar, impedindo que fizesse o que por si mesmo teria feito. (Veja também os caps. 22 ao 24 de Números e 2 Crônicas 17:10, como exemplos de vezes em que Deus deteve o pecado).


Se Deus pode fazer isso, muita gente pergunta, por que então não impediu Adão de pecar? Por que não deteve a Satanás? Ou, como o expressam muitos na atualidade, por que permite que ocorra tanto sofrimento e maldade no mundo? Alguns respondem dizendo que Deus quer detê-lo, mas não pode porque não pode violar o "livre arbítrio" humano sem reduzir o homem a um robô. Tal resposta é absurda e indigna de Deus. Quem é o homem para dizer que o Todo Poderoso Deus quer mas não pode fazer? A resposta bíblica apropriada é que tanto o pecado como a queda de Adão são usados para manifestar melhor a sabedoria e os bons propósitos de Deus. Entre outras coisas, o pecado provê ocasião para que o amor e a superabundante graça de Deus sejam manifestados.
.
Como é possível que Deus impeça os homens de pecar sem interferir com a sua liberdade e com a sua responsabilidade? A resposta encontra-se numa compreensão da seguinte pergunta: Em que consiste a verdadeira liberdade moral? A resposta é que a liberdade moral consiste na liberação da escravatura do pecado. Isto é o que Cristo expressou em João 8:36: "Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres". Quer dizer, quanto mais seja a pessoa liberada do controle do pecado, mais livre será. Os homens têm uma definição falsa da liberdade, porque acreditam que a liberdade consista em serem livres para pecar. A Bíblia afirma que o pecado não é liberdade, mas escravidão. Isto é o que Cristo disse em João 8:34: "Respondeu-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que todo aquele que comete pecado é servo do pecado".
.
O homem natural supõe que a única liberdade encontra-se no fato de não estar sob nenhuma autoridade, nem sob o controle de ninguém salvo ele mesmo, cumprindo os desejos de seu próprio coração. No obstante, este tipo de "liberdade" em realidade resulta ser a pior escravidão e miséria possíveis.

A Escritura nos diz que Deus não pode ser tentado pelos maus (Tiago 1:14), que Deus não pode mentir, nem cometer injustiça. Acaso significa que Deus não é livre porque não pode fazer o que é mau? Certamente não. Portanto, quando Deus intervém e impede os pecadores, isto também não diminui a sua verdadeira liberdade. O homem já estava em escravidão e então Deus não tem tirado nada do homem, senão que tem aumentado a sua verdadeira liberdade. Entre mais o homem seja impedido de pecar e liberado da escravatura do pecado, mais liberdade tem..

Segundo: Como pode o pecador ser responsável de fazer o que por natureza é incapaz de fazer? Como pode ser condenado por não fazer o que é incapaz de fazer?
.

Alguns têm concluído erroneamente que a queda do homem e sua incapacidade espiritual têm terminado com sua responsabilidade moral. Dizem que não é possível que o homem seja tanto incapaz como responsável; dizem que isto é uma contradição. A Bíblia responde que a pesar da depravação e a pesar de sua incapacidade, o homem é inteiramente responsável: responsável de buscar a Deus, responsável de obedecer ao evangelho, responsável de arrepender-se e confiar em Cristo, responsável de deixar seus ídolos e submeter-se a Deus.
.
O fato de que Deus exija ao homem coisas que ele é incapaz de fazer é uma realidade; por exemplo, lemos na Bíblia: "amarás a Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua mente", "sede vós perfeitos como vosso Pai nos céus é perfeito", "arrependei-vos e crede no evangelho". O homem não regenerado é incapaz de fazer todas estas coisas, mas isto não muda sua responsabilidade e dever de fazê-las. Deus não pode exigir menos que a santidade e a justiça. Embora o homem tenha perdido a sua capacidade, isto não tem anulado nem acabado com sua obrigação. [1]
. 
É simplesmente um argumento filosófico o que diz que a responsabilidade humana é limitada pela incapacidade. Este argumento conduz a uma absurda conclusão de que, quanto mais pecaminoso seja alguém, menos responsabilidade teria. O diabo é um bom exemplo disto. Ninguém duvida da depravação total do diabo. Não há dúvida alguma de que aborrece a Deus, de que é incapaz de fazer o bem e ainda incapaz de arrepender-se. Mas nenhuma destas coisas o desculpa em nada; ao contrario, aumentam sua culpabilidade e sua condenação.
.
Agora é necessário fazer alguns comentários sobre a natureza da incapacidade humana:
 .
  1. O homem caído não só é incapaz de fazer o bem espiritual, senão também é culpável de sua própria incapacidade.
  1. O homem é culpável porque tem continuado na mesma rebelião de Adão. Este caiu voluntariamente e nós nele (Veja Romanos 5:12). Mas, como uma raça, temos continuado em rebelião até o dia de hoje. Cada ser humano tem participado voluntariamente da mesma rebelião de Adão. O fato de que nenhuma pessoa liberada a si mesma queira arrepender-se e voltar-se a Deus é a prova de sua rebelião.
  1. É necessário entender a distinção entre a incapacidade física (natural) e a incapacidade moral (espiritual). Por exemplo, existe uma diferença entre a cegueira de Bartimeu e a cegueira daqueles que fecham seus olhos para não ver. Existe uma diferença entre os que são surdos de nascimento e aqueles que cobrem seus ouvidos para não ouvir a verdade. A capacidade natural (física) tem a ver com as faculdades que recebemos como seres humanos, por exemplo: a capacidade de pensar, de falar, de ver, de ouvir e sobre tudo, de escolher. Os homens têm mente e vontade e a capacidade de escolher o que desejam. Qual é, então, o problema? O problema radica em seus "desejos". Por natureza os homens não têm o desejo de serem salvos; não querem vir a Cristo.
.
Isto é o que Cristo assinalava quando dizia: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai que me enviou o não trouxer (...) Por isso eu vos disse que ninguém pode vir a mim, se por meu Pai não lhe for concedido" (João 6:44,65). Quando a Bíblia diz que os homens não pode vir, significa que a incapacidade é espiritual e moral. Não podem porque não querem. Assim o disse Cristo em João 5:40: "E não quereis vir a mim para terdes vida". Os homens não podem porque aborrecem a Deus e amam seus pecados (veja João 3:19-20 e Romanos 8:5-8). Esta incapacidade é moral e espiritual e nela encontra-se a raiz da depravação humana.
.

Terceiro: Como pode Deus decretar que os homens façam certos pecados e depois responsabilizá-los por cometê-los?
.

Para responder esta pergunta vamos considerar a traição e a crucifixão de Cristo. O Antigo Testamento profetizou que Cristo seria traído (Zacarias 11:12) e morto (Isaias 53). Em Atos 2:23 se declara: "A este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, prendestes, crucificastes e matastes pelas mãos de injustos". Note que os homens são inculpados por aquilo que foi predeterminado por Deus. Também Atos 4:27-28 diz: "Porque verdadeiramente contra o teu santo Filho Jesus, que tu ungiste, se ajuntaram não só Herodes, mas Pôncio Pilatos, com os gentios e os povos de Israel; para fazerem tudo o que a tua mão e o teu conselho tinham anteriormente determinado que se havia de fazer".

.
Foi o propósito de Deus que Cristo morre-se crucificado. Ainda assim, o propósito dos homens de trair e crucificar a Cristo não foi para obedecer a Deus, senão antes bem uma manifestação de seu ódio e rebelião contra Ele. Judas mesmo confessou suas malvadas intenções em Mateus 27:4: "Pequei, traindo o sangue inocente". Por este motivo Judas foi condenado por Deus. A traição de Judas formou uma parte do plano eterno de Deus, mas isto não o livrou de sua responsabilidade. Cristo mesmo afirmou este ponto em Lucas 22:22, dizendo: "E, na verdade, o Filho do homem vai segundo o que está determinado; mas ai daquele homem por quem é traído!".
.
Deus não colocou no coração de Judas, nem também não dos judeus, o desejo de trair a Cristo. Deus não aprova o pecado nem também não é o seu autor.
.
Os motivos e os propósitos malvados dos homens nascem de seu próprio coração (veja Tiago 1:13-14), e portanto são responsáveis perante Deus. o coração perverso dos homens produz as más obras, mas Deus refreia e dirige esta maldade para cumprir através dela seus propósitos. Os seguintes textos afirmam esta verdade: "O coração do homem planeja o seu caminho, mas o SENHOR lhe dirige os passos." (Provérbios 16:9); "Certamente a cólera do homem redundará em teu louvor; o restante da cólera tu o restringirás." (Salmo 76:10).
.
Portanto os decretos de Deus não são a causa dos pecados humanos, antes bem seus decretos limitam e dirigem os atos malvados dos homens para cumprir seu plano eterno. Deus não forçou Judas a realizar a maldade que ele fez, senão que Deus usou a maldade de Judas para cumprir o plano da redenção.
 .
Quarto: Como pode o pecador ser responsável de receber a Cristo e ser responsável por rejeitá-lo, quando Deus não o tem escolhido para ser salvo?

 .
Em primeiro lugar, temos que compreender que ninguém pode saber com plena certeza que não é um dos escolhidos de Deus. Este conhecimento pertence ao conselho secreto de Deus, ao qual nenhum ser humano tem acesso (Deuteronômio 29:29). A vontade revelada de Deus é a norma da responsabilidade humana. Deus tem revelado em sua Palavra que todas as pessoas devem arrepender-se a crer no evangelho (Atos 17:30 e 1 João 3:23). As mesmas Escrituras dizem que todos aqueles que se arrependam e acreditem serão salvos. Todos os homens são responsáveis de esquadrinhar as Escrituras, "que podem fazer-te sábio para a salvação" (2 Timóteo 3:15). Já que a fé vem pelo ouvir a Palavra de Deus (Romanos 10:17), então é o dever de cada pecador esquadrinhar as Escrituras, rogando a Deus que lhe conceda entendimento para a salvação de sua alma. Façamos o que Deus tem nos ordenado e deixemos o resto em suas mãos. 
.
Como já mostramos, é um fato que o homem não quer se voltar a Deus, nem obedecê-Lo, nem amá-Lo, o que é a fonte de sua incapacidade.
.
Isto é o que origina a necessidade da graça eletiva de Deus. Se não fosse por esta graça, ninguém seria salvo (Isaias 1:9). Já que o homem é incapaz de cumprir com as exigências de Deus, então, que deveria fazer? Primeiro, deveria humilhar-se e reconhecer a sua incapacidade. Segundo, deveria clamar a Deus e pedi-Lhe a graça para superar sua incapacidade. Cada crente verdadeiro reconhece sua incapacidade e depravação, e roga a Deus fervorosamente por sabedoria, graça e poder para conseguir realizar o que é agradável perante Ele.
.
Da mesma maneira, cada pecador é responsável de invocar o Senhor reconhecendo que a Palavra de Deus diz a verdade quando descreve sua condição depravada, e reconhecendo que o juízo de Deus é justo. Seu dever então é clamar a Deus e Lhe pedir o poder de Seu Espírito Santo para conduzir seu coração à obediência e submissão a Cristo. Se o pecador faz isto sinceramente, então Deus responderá a seu clamor, porque a Escritura diz: "Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo" (Romanos 10:13). Tal como um homem que esteja morrendo sem forças nem habilidade para salvar a si mesmo deveria clamar por ajuda, assim também o pecador incapaz de salvar a si mesmo deve clamar a Deus a fim de que Ele faça o que ele é incapaz de realizar. Porém, se o pecador está decidido a perecer e recusa vir a Cristo, então não pode inculpar a ninguém, salvo a si mesmo. 
.
Se o pecador pode ou não entender como harmonizar a soberania de Deus e a responsabilidade humana, de todas maneiras permanece como responsável de invocar a Cristo para salvação do pecado e da ira de Deus.
.
Talvez enquanto leia estes capítulos, tenham surgido algumas perguntas.
.
Quiçá tenha se perguntado: por que os crentes incomodam-se em predicar o evangelho aos inconversos se em verdade os homens não têm a capacidade de receber a Cristo como seu Salvador? Ou a pergunta seja: por que os crentes devem preocupar-se por orar se Deus já tem decidido o que vai acontecer? Ou, então: por que devem realizar um esforço os crentes para chegar a ser melhores pessoas, se Deus mesmo está controlando as suas vidas? Talvez esteja pensando que é uma injustiça e um agravo de Deus escolher só certas pessoas para serem salvas. Nopróximo capítulo tentaremos responder estas perguntas.
___________________________________
Este artigo foi traduzido do espanhol para o português por Daniela Raffo. Este artigo é parte de um livro que foi traduzido de uma versão abreviada em inglês intitulada "Quem está no controle?", publicado por Grace Publications Trust, e em sua versão original em inglês por Baker Book House. O título da versão original em inglês é: "A soberania de Deus".

Nota:
[1] As seguintes ilustrações [tomadas de várias fontes pelo tradutor] servirão para confirmar este ponto: a) um bêbado que atropela e mata uma pessoa ao estar dirigindo seu carro não é considerado inocente [ou não responsável], ainda que não fosse capaz de controlar seu veiculo; b) o ladrão, que é controlado pela concupiscência e a avareza, não pode deixar de roubar. Mas o fato de que não possa deixar de fazê-lo não o inocenta [não tira a sua responsabilidade]; c) a segunda carta de Pedro nos fala de aqueles que "Tendo os olhos cheios de adultério, e não cessando de pecar". Mas isto não diminui em maneira alguma sua culpa e sua responsabilidade; d) o argumento proposto pelos homossexuais na atualidade é que são pervertidos por natureza e nasceram assim. Portanto dizem que não é possível que deixem seu pecado. Contudo, Romanos 1:26-28 diz que recebem em si mesmos a retribuição devida a seu extravio; e) a escusa daqueles que dizem: "Sou assim e não posso mudar" não serve senão para condená-los; f) a pessoa que tem uma dívida que não pode pagar. A lei não a escusa, por este fato, de sua responsabilidade de pagar. Em forma semelhante, Deus não tem perdido seu direito de exigir o pagamento, embora os homens tenham perdido sua capacidade de pagar. A impotência humana não cancela a obrigação nem a responsabilidade; g) o fato de que o coração humano é depravado, o fato de que ame o pecado e não possa deixá-lo, não faz de modo algum que alguém seja menos responsável dos seus pecados. Se não fosse assim, então entre mais depravado e mais endurecido que alguém chegasse a ser, menos responsabilidade teria. Nesse caso, Deus não poderia julgar ninguém.

Extraído do site: [ Eleitos de Deus ]

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

A Vontade de Deus
por
Arthur W. Pink


Ao tratar da Vontade de Deus alguns teólogos têm diferenciado entre Sua vontade decretiva e Sua vontade permissiva, insistindo que há certas coisas que Deus tem positivamente pré-ordenado, mas outras coisas que Ele meramente tolera existir ou acontecer. Mas tal distinção não é uma distinção de maneira alguma, na medida em que Deus somente permite o que está de acordo com Sua vontade. Nenhuma distinção teria sido inventada, tivesse esses teólogos discernido que Deus pode ter decretado a existência e atividades do pecado sem Ele mesmo ser o Autor do pecado. Pessoalmente, nós preferimos adotar a distinção feita pelos antigos Calvinistas entre a vontade secreta e revelada de Deus, ou, para expressar de uma outra forma, Sua vontade dispositiva e preceptiva.

A vontade revelado de Deus é feita conhecida em Sua Palavra, mas Sua vontade secreta são Seus próprios conselhos encobertos. A vontade revelada de Deus é o definidor de nosso dever e o padrão de nossa responsabilidade. A primária e básica razão pela qual eu devo seguir certo curso ou fazer certa coisa é por causa da vontade de Deus, a Sua vontade sendo claramente definida para mim em Sua Palavra. Que eu não deveria seguir um certo curso, que eu devo me abster de fazer certas coisas, é porque elas são contrárias à vontade revelada de Deus. Mas suponha que eu desobedeça a Palavra de Deus, então, eu não contrario Sua vontade? E se é assim, como pode ainda ser verdade que a vontade de Deus sempre é feita e Seu conselho consumado todas as vezes? Tais questões fazem evidente a necessidade de se defender uma distinção aqui. A vontade revelada de Deus é freqüentemente contrariada, mas Sua vontade secreta nunca é frustrada. Que é legítimo fazermos tal distinção concernente à vontade de Deus, é clara a partir das Escrituras. Tome esta duas passagens: "Porque esta é a vontade de Deus, a saber, a vossa santificação: que vos abstenhais da prostituição" (1 Tessalonicenses 4:3); "Dir-me-ás então. Por que se queixa ele ainda? Pois, quem resiste à sua vontade?" (Romanos 9:19). Pode um leitor pensativo declara que a "vontade" de Deus tem precisamente o mesmo significado em ambas dessas passagens? Nós seguramente esperamos que não. A primeira passagem refere-se à vontade revelada de Deus, a última à Sua vontade secreta. A primeira passagem concerne a nosso dever, a última declara que o propósito secreto de Deus é imutável e deve acontecer não obstante a insubordinação das Suas criaturas. A vontade revelada de Deus nunca é perfeitamente ou completamente realizada por alguém de nós, mas Sua vontade secreta nunca falha na consumação até mesmo no mais minucioso detalhe. Sua vontade secreta concerne principalmente a eventos futuros; Sua vontade revelada, nosso dever presente: uma tem que ver com Seu irresistível propósito, o outro com Seu agrado manifestado: uma é elaborada sobre nós e realizada através de nós, a outra é para feita por nós.
A vontade secreta de Deus é Seu eterno, imutável propósito concernente a todas as coisas que Ele fez, para produzir certos meios para seus fins apontados: disto Deus declara explicitamente: "Meu conselho subsistirá, e farei toda Minha vontade" (Isaías 46:10). Esta é a absoluta, eficaz vontade de Deus, sempre efetuada, sempre realizada. A vontade revelada de Deus contêm não Seu propósito e decreto, mas nosso dever, - não o que Ele fará de acordo com Seu eterno conselho, mas o que nós deveríamos faze se quiséssemos agradá-LO, e isto é expresso nos preceitos e promessas de Sua Palavra. O que quer que Deus tenha determinado consigo mesmo, seja para Ele próprio fazer, ou para fazer pelos outros, ou tolerar que seja feito, enquanto isto está em Seu próprio seio, e não foi feito conhecido por algum evento na providência, ou por preceito, ou por profecia, é Sua vontade secreta. Tais são as coisas profundas de Deus, os pensamentos de Seu coração, os conselhos de Sua mente, que são impenetráveis para todas criaturas. Mas quando estas coisas são feitas conhecidas, elas tornam-se Sua vontade revelada: tal é quase todo o livro do Apocalipse, no qual Deus tem feito conhecido a nós "coisas que brevemente devem acontecer" (Apocalipse 1:1 - "deve" porque Ele eternamente propôs que deveriam acontecer).

Tem sido objetado pelos teólogos Arminianos que a divisão da vontade de Deus em secreta e revelada é insustentável, pois ela faz com que Deus tenha duas vontades diferentes, uma oposta a outra. Mas isto é um engano, devido a falha deles em ver que a vontade secreta e revelada de Deus dizem respeito a objetos inteiramente diferentes. Se Deus requeresse e proibisse a coisa, ou se Ele decretasse que a mesma coisa aconteceria ou não, então Sua vontade secreta e revelada seria contraditória e sem propósito. Se aqueles que objetam à vontade secreta e revelada de Deus como sendo inconsistentes, fizessem a mesma distinção neste caso que eles fazem em muitos outros casos, a aparente inconsistência imediatamente desapareceria. Quão freqüentemente os homens traçam uma astuta distinção entre o que é desejável em sua própria natureza, e o que não é desejável considerando todas as coisas. Por exemplo, o pai carinhoso não deseja simplesmente considerar punir seu filho ofensivo, mas, considerando todas as coisas, ele sabe que este é o seu dever obrigatório, e assim corrige seu filho. E embora ele conte ao seu filho que ele não deseja castigá-lo, mas que ele está certo que isto é o melhor ao fazer considerando todas as coisas, então um filho inteligente verá que não há inconsistência entre o que o pai diz e faz. Exatamente assim o Criador Todo-sábio pode consistentemente decretar acontecer coisas que Ele odeia, proibir e condenar. Deus escolhe que algumas coisas existem que Ele odeia completamente (na intrínseca natureza delas), e Ele também escolhe que algumas coisas, todavia não existam, as quais Ele ama perfeitamente (na intrínseca natureza delas). Por exemplo: Ele ordenou que Faraó deixasse Seu povo ir, porque isso era justo na natureza das coisas, todavia, Ele secretamente havia declarado que Faraó não deveria deixar o Seu povo ir, não porque era justo em Faraó recusar, mas porque era melhor considerando todas as coisas que ele não os deixasse ir - isto é, melhor porque favoreceu um propósito mais amplo de Deus.

Novamente; Deus nos manda sermos perfeitamente santos nesta vida (Mateus 5:48), porque isto é justo na natureza das coisas, mas Ele decretou que nenhum homem será perfeitamente santo nesta vida, porque é melhor, considerando todas as coisas, que ninguém seja perfeitamente santo (experimentalmente) antes de deixar este mundo. Santidade é uma coisa, o acontecimento da santidade é outra; assim, pecado é uma coisa, o acontecimento do pecado é outra. Quando Deus requer santidade, Sua vontade preceptiva ou revelada considera a natureza ou excelência moral da santidade; mas quando Ele decreta que a santidade não ocorra (completa e perfeitamente), Sua vontade secreta ou decretiva considera somente o evento de que ela não ocorre. Assim, novamente, quando Deus proíbe o pecado, Sua vontade preceptiva ou revelada considera somente a natureza ou o mal moral do pecado; mas quando Ele decreta que o pecado ocorrerá, Sua vontade secreta considera somente sua real ocorrência para servir o Seu bom propósito. Portanto, a vontade secreta e revelada de Deus considera objetos inteiramente diferentes.

A vontade do decreto de Deus não é a Sua vontade no mesmo sentido como Sua vontade de mandamento é. Portanto, não há dificuldade em supor que uma possa ser contrária à outra. Sua vontade, em ambos sentidos, é Sua inclinação. Tudo que concerne a Sua vontade revelada é perfeitamente de acordo com Sua natureza, como quando Ele ordena amor, obediência, e serviço de Suas criaturas. Mas o que concerne a Sua vontade secreta tem em vista Seu fim supremo, para o qual todas as coisas estão agora operando. Portanto, Ele decreta a entrada de pecado no Seu universo, embora Sua própria natureza santa odeie todo pecado com infinita repulsa, todavia, porque este é um dos meios pelos quais Ele apontou o fim para ser alcançado, Ele tolera a entrada dele. A vontade revelada de Deus é a medida de nossa responsabilidade e o determinante de nosso dever. Com a vontade secreta de Deus nós não temos nada para fazer: esta é de Sua incumbência. Mas Deus, sabendo que falharemos em fazer perfeitamente Sua vontade revelada, ordenou Seus eternos conselhos conseqüentemente, e estes eternos conselhos, que aconteça Sua vontade secreta, embora desconhecida para nós, embora inconscientemente, cumprida em e através de nós.

Se o leitor está preparado ou não para aceitar a distinção acima na vontade de Deus, ele deve reconhecer que os mandamentos das Escrituras declaram a vontade revelada de Deus, e ele deve também aceitar que algumas vezes Deus não quer impedir a quebra daqueles mandamentos, porque Ele na realidade não o impede. Que Deus quer permitir o pecado é evidente, porque Ele o permite. Certamente ninguém dirá que o próprio Deus faz o que Ele não quer fazer.

Finalmente, deixe-me dizer novamente que, minha responsabilidade em relação à vontade de Deus é medida pelo que Ele fez conhecido na Sua Palavra. Ali eu aprendo que é meu dever usar os meios de Sua providência, e humildemente orar para que Ele possa Se agradar em abençoá-los para mim. Recusar assim fazer sobre o fundamente de que eu sou ignorante do que possa ou não possa ser Seus conselhos secretos concernentes a mim, não somente é um absurdo, mas também o ápice da presunção. Nós repetimos: a vontade secreta de Deus não nos diz respeito; é Sua vontaderevelada que mede nossa responsabilidade. Que não há conflito entre a vontade secreta e revelada de Deus é claro a partir do fato que, a primeira é realizada pelo meu uso dos meios registrados na última.

NOTA DO TRADUTOR:
 O presente artigo é um dos apêndices (o quarto) do excelente livro “A Soberania de Deus”, de Arthur Pink. Este livro foi traduzido para o português e publicado pela Editora Fiel, com o título “Deus é Soberano”. Contudo, não consta na versão brasileira o capítulo sobre “A Soberania de Deus na Reprovação” e nenhum dos quatro apêndices, os quais podem ambos ser lidos aqui no site Monergismo.com.


Tradução livre: Felipe Sabino de Araújo Neto

O que são os atos proféticos?

atos_profeticos
Antes de qualquer coisa é preciso dizer que a intenção deste artigo não é denegrir a imagem de ninguém e nem difamar quem quer que seja, especialmente porque acreditamos sempre que existe a possibilidade de arrependimento e mudança de atitude diante de uma postura errada, principalmente porque, como cristãos, devemos sempre esperar que haja o exercício do arrependimento, confissão e perdão (2Cr 7:14).
Um dos problemas mais comuns e recorrentes na igreja evangélica brasileira diz respeito às falhas de interpretação bíblica, quando alguns textos são distorcidos, ora propositalmente ora por imperícia, imprudência ou negligência. De uma forma ou de outra, a utilização inadequada de um texto ou de uma passagem bíblica tem levado muitas pessoas ao engano e ao erro. É exatamente isso o que ocorre com as práticas dos atos proféticos, tão comuns entre aqueles que seguem o Movimento da Fé.
Mas, afinal de contas, o que é um ato profético?
René Terranova, que foi ungido apóstolo, depois “paipóstolo” e Patriarca, por Morris Cerrullo, tem se destacado como um dos principais líderes defensores do Ato Profético no Brasil. Ele diz: “A linguagem profética traz ao reino físico a existência do mundo espiritual. Na maioria dos seus discursos, Jesus falava de uma forma espiritual e o povo entendia na forma física, porque lhes faltava discernimento espiritual” (TERRANOVA, 2009) [1].
Ainda, o grupo Reavivamento Europa dá a seguinte definição para Ato Profético:
Como o nome já sugere são ações realizadas por homens, profetas de Deus com determinado sentido profético, com intuito de profetizar com ações e símbolos. São sinais que apontam para o reino espiritual e que tem conseqüências no reino físico. São ações expressas em atitudes e palavras [2].
Então, na visão dos seguidores do Movimento da Fé, o Ato Profético seria uma ação envolta em simbologia que supostamente traria ao mundo físico as realidades espirituais. Para isso, os defensores desse pensamento utilizam passagens bíblicas, especialmente do Antigo Testamento, em que Deus manda que os profetas utilizem símbolos para transmitir a Sua mensagem, a exemplo dos umbrais das portas com sangue na noite da décima praga do Egito (Ex 12), a pregação sem roupas de Isaías (Is 20:3-4), as sete voltas em torno de Jericó (Josué), a canga de Jeremias (Jr 27:2), o cinto de linho enterrado às margens do rio Eufrates (Jr 13:1-11), a botija de barro quebrada diante do povo (Jr 19:1-11) etc.
Em primeiro lugar, as ações praticadas pelos profetas bíblicos não traziam nada à existência, como afirmam os seguidores do Movimento da Fé. Antes, tinham um caráter didático de ensino, instrução e orientação para o povo de Deus, a exemplo do profeta Oséias que casou com uma prostituta. A ação de Oséias, ordenada por Deus, visava fazer o povo entender que havia se prostituído diante do Senhor, mas que Ele, o Senhor, continuava fiel ao Seu povo (Os 3) buscando tirá-lo da prostituição, assim como Oséias fez com aquela mulher. Essa passagem bíblica nos mostra que a situação de Gômer, a prostituta, era a mesma situação do povo de Israel. Esse meio didático utilizado por Deus só demonstra que o povo estava em prostituição.
Essas ações proféticas encontradas na Bíblia não trazem à existência coisas espirituais. Elas tinham um caráter didático para corrigir o povo, ensinar o povo ou trazer juízo sobre um povo. Por isso diz-se que tais ações fazem parte dos atos salvadores de Deus na história.
Por essa razão é que o escritor aos Hebreus declara:
Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles. (Hb 1:1-4)
Em segundo lugar, a interpretação bíblica é distorcida com os Atos Proféticos da atualidade. Isso ocorre porque tais pessoas confundem o que é relato histórico e o que é ordem direta.
Um relato histórico é a descrição de algo que ocorreu no passado. Por exemplo, a Escritura relata que Judas traiu Jesus. E mais, a Bíblia revela que o próprio Jesus disse: “O que fazes, faze-o depressa” (Jo 13:27). Ainda, a Bíblia revela que Deus disse à Moisés: “tira as sandálias dos pés, porque o lugar em que estás é terra santa” (Ex 3:5). Ainda, a Bíblia revela que Jesus “cuspiu na terra e, tendo feito lodo com a saliva, aplicou-o aos olhos do cego” (Jo 9:6). Ainda, a Bíblia revela que quando os sacerdotes entrassem na tenda da congregação, ou quando fossem ministrar no altar, deveriam lavar as mãos e os pés com água para não morrerem, e “isto lhes será por estatuto perpétuo, a ele e à sua posteridade, através de suas gerações” (Ex 30:20,21). Ou seja, se um relato bíblico e histórico é entendido como uma ordem para o povo de Deus e deve ser visto em forma de Ato Profético, deveríamos, então, trair Jesus, pois Ele mesmo disse “O que fazes, faze-o depressa”; deveríamos tirar as sandálias toda vez que entrássemos na presença de Deus em oração, na igreja ou em uma reunião espiritual com irmãos (Ex 3:5); deveríamos cuspir na terra e fazer “lodo” para passar nos olhos dos cegos para os quais oramos (Jo 9:6); deveríamos lavar as mãos e os pés todas as vezes que fôssemos oferecer algum tipo de serviço ao Senhor, para não sermos mortos (Ex 30:20,21) etc.
O fato é que esses atos, encontrados em sua grande maioria no Antigo Testamento, são direcionados à um povo, evento ou situação específica, e a Bíblia está apenas relatando o que houve. A Bíblia não está estabelecendo uma regra ou dizendo que deveríamos reproduzir o ato. Ainda, o leitor da Bíblia deve observar o que o texto está dizendo, para quem está dizendo e para quando está dizendo. Muitas vezes algumas pessoas erram porque se apropriam de promessas que dizem respeito ao povo de Israel no Antigo Testamento, como se isso dissesse respeito a nós hoje. Portanto, uma coisa é a Bíblia relatar um fato, e outra coisa completamente diferente é a Bíblia dar uma ordem direta e aplicável a nós hoje, como essa:
Mas, agora, vos escrevo que não vos associeis com alguém que, dizendo-se irmão, for impuro, ou avarento, ou idólatra, ou maldizente, ou beberrão, ou roubador; com esse tal, nem ainda comais. Pois com que direito haveria eu de julgar os de fora? Não julgais vós os de dentro? Os de fora, porém, Deus os julgará. Expulsai, pois, de entre vós o malfeitor. (1Co 5:11-13)
Em terceiro lugar, erram por ignorar a suficiência das Escrituras.
A busca por Atos Proféticos é gerada pela sensação de que a Bíblia não é suficiente para nos falar, para nos corrigir e nem para nos orientar, e muito menos para suprir nossas reais necessidades.
O apóstolo Paulo alerta seu discípulo Timóteo sobre isso:
Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas. Tu, porém, sê sóbrio em todas as coisas, suporta as aflições, faze o trabalho de um evangelista, cumpre cabalmente o teu ministério. (2Tm 4:1-5)
Exatamente por essa razão, Jesus disse: “Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus” (Mt 22:29).
O fato é que tais pessoas sentem a necessidade de algo mais, de uma nova experiência. Isso ocorre porque se afastaram dos princípios elementares da fé cristã e do Sola Scriptura. Para estes a Sagrada Escritura já não é suficiente, pois buscam algo mais. Contudo, esquecem que os atos dos profetas no Antigo Testamento, normalmente, estavam relacionados com o afastamento do povo dos princípios estabelecidos pelo Senhor, e como este povo estava negligenciando a Sagrada Escritura, Deus usa de outro meio para lhes falar ao coração. Por isso, ao buscar um suposto e hipotético Ato Profético estão apenas confessando publicamente o quão distante se encontram da Bíblia Sagrada.
Em quarto lugar, erram na contextualização e na aplicação dos princípios bíblicos.
Um exemplo que pode ser citado para ilustrar a questão é a armadura de Deus, em Efésios 6:10-20. Ali, naquele Texto, o apóstolo Paulo utiliza o artifício da ilustração para falar de verdades espirituais, e essas verdades são ilustradas através de uma realidade física. Ou seja, Paulo usa a armadura romana para falar da verdade da batalha espiritual, alicerçada no Evangelho da Paz (sandálias), Justiça (couraça), Salvação (capacete), Fé (escudo) e a Palavra de Deus (espada). Isso não quer dizer que o cristão tenha que usar uma armadura de verdade, ou que tenha que ter miniaturas de armaduras em sua casa como uma mandala, patuá ou amuleto, para estar protegido, pois isso seria superstição. Da mesma forma, os atos encontrados no Antigo Testamento, por exemplo, não precisam ser repetidos em nosso meio hoje, pois semelhantemente isso seria superstição, ou no mínimo seria o mesmo que achar que um método pode substituir ou provocar a ação do Espírito Santo, o que seria recair no erro do pragmatismo. Mas, é exatamente isso o que tem acontecido, quando essas “práticas” e “ações” são executadas com a finalidade de “bloquear”, “anular”, “derrubar” ou “vencer” fortalezas espirituais. Isso é o mesmo que os espíritas fazem ao usar sabonetes e sal grosso para tomar banhos de descarrego, ou usar alguns pós com supostos poderes especiais que acreditam poder livrar as pessoas de mal olhado, ou quando usam o pé de pinhão roxo para proteger suas casas e comércios, ou quando fazem um despacho para, supostamente, fechar o corpo contra maus espíritos. Tudo isso não passa de superstição, paganismo, feitiçaria e macumbaria.
Além do mais, é preciso destacar que não encontramos nenhuma ordem bíblica para que façamos tais coisas. É preciso relembrarmos que uma coisa é a Bíblia relatar algo que ocorreu, e outra, completamente diferente, é a Bíblia ordenar que pratiquemos algo.
Por isso, mais uma vez é preciso repetir o que o escritor aos Hebreus declara:
Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, NESTES ÚLTIMOS DIAS, NOS FALOU PELO FILHO, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles. (Hb 1:1-4)
Portanto, no passado Deus utilizou alguns meios didáticos para ensinar o povo e conduzi-los à verdade da chegada e da presença do Messias, Jesus Cristo. Mas, a partir de Jesus o meio que Deus tem utilizado é o próprio Jesus, mediante a ação do Espírito Santo, por meio da Sagrada Escritura. Se no passado Deus usou, por exemplo, o Urim e o Tumim (Ex 28:30), hoje Ele usa a Sua Sagrada Palavra, revelada aos Seus filhos.
Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e penetra até à divisão da alma e do espírito, e das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração. E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar. (Hb 4:12-13)
Tu, porém, permanece naquilo que aprendeste, e de que foste inteirado, sabendo de quem o tens aprendido, e que desde a tua meninice sabes as sagradas Escrituras, que podem fazer-te sábio para a salvação, pela fé que há em Cristo Jesus. Toda a Escritura é divinamente inspirada, e proveitosa para ensinar, para redargüir, para corrigir, para instruir em justiça; para que o homem de Deus seja perfeito, e perfeitamente instruído para toda a boa obra. (2 Tm 3:14-17)
A TRANSFERÊNCIA DE GERAÇÃO COMO UM ATO PROFÉTICO
A ideia de “Transferência de Geração”, praticada pelo grupo Diante do Trono, é caracterizada simplesmente como uma distorção e afastamento das Escrituras, baseada em manipulações de datas.
Para ver o vídeo da “Transferência de Geração” no youtube, clique AQUI.
O argumento utilizado para se defender a “Transferência de Geração” é de que existe uma promessa em Joel 1:3, em que são citadas cinco gerações, sabendo que uma geração dura em torno de 40 anos. Além disso, afirmam que um país só é considerado como tal após a sua independência, e como a independência do Brasil só ocorreu no dia 7 de setembro de 1822, a promessa de Deus é conduzida até meados dos anos 1980. Os defensores deste pensamento afirmam especificamente o ano de 1982. Então, essa geração de 1982 seria a responsável por promulgar um santo jejum, convocar uma assembleia solene, congregar todos os anciãos e todos os moradores da terra para a Casa do SENHOR e clamar à Ele (Joel 1:14).
O primeiro problema com o argumento utilizado é para quem foi destinada a promessa de Joel 1:3. Para quem o Texto está falando?
O contexto do livro de Joel diz respeito a devastação da terra por uma dupla praga, de locustas [3] e seca. Então, a promessa de Joel é de que se o povo de Israel voltar à adoração do Deus verdadeiro, a sua terra será restaurada, tanto da praga dos gafanhotos como da seca. Portanto, essa profecia diz respeito às pragas derramadas sobre o próprio povo de Deus por sua apostasia, na época de Joel. Dessa forma, se o fundamento para a transferência de Gerações, praticada pelo Diante do Trono, é o texto de Joel, então esse grupo está confessando publicamente a sua apostasia, assim como foi com o povo do profeta Joel.
O profeta Joel alerta o povo de que essa praga não deveria ser esquecida, e, por isso, precisava ser relembrada às gerações futuras para que estas gerações entendessem que ela era a representação de um juízo ainda maior no porvir. Se esta praga foi terrível, o Dia do Senhor será muito mais (Jl 2:1-11). Portanto, o que deveria ser lembrado às gerações futuras era o derramamento do juízo de Deus, que não tem nenhuma relação com a suposta Transferência de Gerações.
O segundo problema com o argumento utilizado é que não há nenhuma evidência bíblica de que uma geração dure 40 anos, como essas pessoas desejam.
Orlando Boyer afirmou que a geração é a “duração média da vida de um homem” (1998, p.292) [4], e Werner Kaschel e Rudi Zimmer afirmaram que uma geração é a “sucessão de descendentes em linha reta: pais, filhos, netos, bisnetos, trinetos, tataranetos (Sl 112.2; Mt 1.17)” (1999, p.79) [5], ainda afirmaram que geração pode ser o “conjunto de pessoas vivas numa mesma época” (Idem).
Então, o texto bíblico de Mateus 1:17 nos diz que de Abraão até Davi são 14 gerações, em que temos um tempo médio de mil anos. Portanto, cada geração dura em média 71 anos. Ainda, o Salmo 90:10 nos diz que “os dias da nossa vida chegam a setenta anos”, que é a duração média de uma vida. Portanto, aqui, uma geração dura em média 70 anos.
Com isso, não há nada que faça pensar que uma geração dure 40 anos, como pretendem os defensores dos Atos Proféticos e da Transferência de Geração.
O terceiro problema com o argumento utilizado é afirmar que um país só é considerado como tal após a sua independência. Mas a promessa de Joel não tem nenhuma relação com a formação de um país, especialmente porque o Israel étnico sempre existiu como nação, preservando a sua cultura e religiosidade, até mesmo quando não tinha um território, e mesmo durante os cativeiros. Ainda, este povo só passou a ser reconhecido como um país em 1948, quando foi fundado o Estado Moderno de Israel.
O quarto problema com o argumento utilizado é tentar fazer uma correlação entre esta profecia e o Brasil. Não existe nada no texto, absolutamente nada, que dê chance para isso. Dessa forma, podemos ver claramente como esses grupos distorcem a Bíblia deliberadamente e como fazem isso contando sempre com a falta de conhecimento, falta de discernimento e falta de entendimento do povo. Esse é um claro exemplo de como a Bíblia tem sido tratada com desprezo e descaso por esses grupos.
Para piorar a situação, ainda mais, utilizam os textos de 1Samuel 16:13 e 2Coríntios 3:4-6 para fundamentar a prática de Transferência de Geração. Vejamos os textos:
Tomou Samuel o chifre do azeite e o ungiu no meio de seus irmãos; e, daquele dia em diante, o Espírito do SENHOR se apossou de Davi. Então, Samuel se levantou e foi para Ramá. (1Sm 16:13)
E é por intermédio de Cristo que temos tal confiança em Deus; não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus, o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica. (2Co 3:4-6)
O texto de 1Sm 16:13 relata o encontro entre Davi e Samuel, quando Davi foi ungido pela primeira vez. Esse texto fala da chamada de Davi ao trono de Israel, mas não pode ser visto como algo que se repete nos dias de hoje, especialmente porque o texto diz que nesse momento, com Davi, o Espírito do SENHOR se apossou dele. Contudo, na Nova Aliança o Espírito Santo se apossa do convertido no momento da conversão. Por isso que o apóstolo Paulo nos diz que “em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito” (1Co 12:13). E diz mais, pois “não estais na carne, mas no Espírito, se, de fato, o Espírito de Deus habita em vós. E, se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dele” (Rm 8:9). Portanto, não podemos afirmar que o fato de alguém ser ungido com azeite nos dias de hoje é o princípio para a chegada do Espírito Santo e nem para a Sua descida. Muito menos que é sinal da aprovação Divina.
O que vemos com isso, mais uma vez, é a apropriação indevida de um texto que está em outro contexto, dentro de outra Aliança e que é dirigido à outra pessoa. Um texto que é descritivo e que é manipulado para parecer uma ordem direta ou orientação Divina para sua repetição na atualidade.
O texto de 2 Coríntios 3:4-6 é outro que tem sido muito distorcido e mal interpretado por muitas pessoas. Essa passagem diz respeito a Nova Aliança, em que todo membro é um sacerdote, diferente da antiga Aliança. Se na antiga Aliança havia um grupo exclusivo de sacerdotes, na Nova Aliança todo membro é um ministro e sacerdote, como pode ser visto aqui. Portanto, todo aquele que nasceu de novo é um ministro da Nova Aliança, e esta Aliança não é da letra, ou seja, não é igual àquela que foi gravada com letras em pedras (3:7), porque a letra mata (3:6). Mas que letra é essa? Como já foi dito, é a letra que foi gravada em pedras (3:7), isto é, a Lei que foi dada à Moisés. Esta letra que mata, portanto, não tem nenhuma relação com o estudo ou pesquisa, mas com a Lei do Antigo Testamento.
Nesse sentido, Moisés fez algo que poderia ser visto como um ato profético, pois ele passou a usar um véu sobre a face. Porém, o apóstolo diz que “não somos como Moisés, que punha véu sobre a face, para que os filhos de Israel não atentassem na terminação do que se desvanecia” (3:13), e que para alguns, “até ao dia de hoje, quando fazem a leitura da antiga aliança, o mesmo véu permanece, não lhes sendo revelado que, em Cristo, é removido” (3:14). Por isso, não precisamos de certos artifícios, porque se essa letra em tábuas de pedra é vista como “ministério da condenação”, devemos entender que “em muito maior proporção será glorioso o ministério da justiça” (3:9), que é o que vivemos hoje na Nova Aliança. E este véu, usado por Moisés, foi apenas um artifício utilizado por ele para que o povo não percebesse que a glória de Deus estava desvanecendo. Portanto, o uso desse tipo de prática, nos dias de hoje, é apenas uma tentativa de ludibriar o povo, um artifício, para que este pense que a glória de Deus está presente ali, naquele “rosto”.
Por isso, não precisamos de Atos Proféticos e nem de unções descabidas.
Por isso, podemos ver com clareza como esses grupos distorcem a Sagrada Escritura, a exemplo da utilização de 2Coríntios 3:17: “Ora, o Senhor é o Espírito e, onde está o Espírito do Senhor, ali há liberdade”.
Bem, a liberdade quando é do Senhor nem dá lugar à carne (Gl 5:13), nem deturpa a verdade do Evangelho (1Pe 2:16) e nem causa escândalo (2 Co 6:3). Já que esse não tem sido o caso desses grupos só podemos concluir, biblicamente, que essa liberdade que têm utilizado não provém de Deus e que mais uma vez o texto bíblico utilizado não fundamenta as suas práticas.
Por último, só para entender com mais clareza como a prática do Ato Profético é uma distorção e como tem sido utilizada para fins antibíblicos, vejamos o que René Terranova diz sobre a relação que existe entre Ato Profético, mapeamento de genealogia e maldição hereditária:
A Bíblia relata que os judeus davam muita importância à genealogia, ao conhecimento de suas origens. Os judeus ortodoxos têm o costume de registrar a genealogia de suas famílias. Nós poderíamos ter essa cultura, mas nossa história é muito mal formada. Mal conhecemos a identidade de nossos pais, muito menos do nosso povo e nem sabemos como retratar nossa árvore genealógica.Um dos nomes de Jesus é Raiz de Davi, porque no contexto messiânico se Jesus não fosse a Raiz de Davi, não seria o Messias (Mt. 1). Em certas ocasiões, poderemos tentar uma conquista de território, mas nosso argumento genealógico poderá ser empecilho por não termos respaldo local ou não termos um nome de família honrado. Deus pode mudar esse quadro restaurando a nossa genealogia com um ato profético de quebra de maldições dos antepassados. Procure pelo menos descobrir quem foram seus familiares até a quarta geração que lhe antecedeu. Quando resgatamos a nossa história genealógica conhecendo nossas origens, fica mais fácil quebrar maldições hereditárias [6].
Contudo, Colin Brown Lothar demonstra que esse tipo de pensamento não passa de uma heresia, e que já era praticada por grupos anticristãos a exemplo do gnosticismo, ebionismo e pelos defensores dos misticismos judaicos:
Genealogia ocorre no NT somente em 1Tm 1:4 e Tt 3:9, e alude especificamente à prática de pesquisar a árvore genealógica a fim de estabelecer a descendência. Segundo qualquer exegese direta, aqueles que assim faziam somente podem ter sido judeus, que, a partir de genealogias do AT e de outras, estavam propagando todos os tipos de “mitos judaicos”, bem como, provavelmente, especulações gnósticas pré-cristãs. É também possível que os ebionitas empregassem argumentos semelhantes para atacarem a doutrina do nascimento milagroso de Jesus que circulava na igreja cristã [7].
Portanto, a única coisa que podemos perceber com tudo isso é que estamos simplesmente presenciando o surgimento de heresia em cima de heresia e que não há nada novo debaixo do sol (Ec 1:9).
Que Deus nos ajude.
Via Napec Apologética Cristã

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O calcanhar de Aquiles de Roger E. Olson

O calcanhar de Aquiles de Roger E. Olson

.

Introdução por Denis Monteiro


O Dr. Roger E. Olson é um dos arminianos mais em alta ultimamente, se assim pode-se dizer. Há tempos ele escreveu um artigo intitulado “O amor de Deus está limitado aos Eleitos?”. 

Neste artigo Olson faz uma exposição da doutrina Calvinista com ênfase no terceiro ponto do calvinismo: Expiação Limitada. Para ele a Expiação Limitada é o calcanhar de Aquiles da teologia reformada, pois atingindo esse ponto todo o resto cai. 

Logo após a sua exposição ao terceiro ponto do calvinismo, Olson mostra os versos utilizados na defesa da expiação limitada e a seguir faz uma referência aos versos que, possivelmente, apoiam a expiação ilimitada. Os que ele utiliza são esses: João 3.16,17; Romanos 14.15; 2 Coríntios 5.18,19; Colossenses 1.19,20; 1 Timóteo 2.5,6; 1 João 2.2, 4.7. Segundo Roger Olson esses versos “contradizem a expiação limitada”. 

Então, analisaremos cada passagem mencionada pelo Olson e mostraremos que tais passagens não defendem a expiação ilimitada e nem que um verso é mais “poderoso” que outro para que seja anulado, e assim, mostraremos/ atingiremos o “calcanhar de Aquiles” do Olson. 

***

Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que julgasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por ele. - João 3.16,17

Por Francisco Alison Silva Aquino - Blog Pelo Calvinismo


Sem dúvida, um dos principais textos-base que, aparentemente, dão suporte ao sistema arminiano é João 3.16. O versículo diz: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.” Arminianos usam esse texto como fundamento para a visão de que o amor de Deus é universal (Deus amou o mundo) e que o homem pode crer livremente (para que todo aquele que nele crê). 

Entretanto, seria isso mesmo que João está afirmando aqui na passagem citada? Se sim, como isso se harmoniza com outros textos que parecem contradizer essa ideia? Se não, então como podemos interpretá-lo? Analisemos, portanto a questão.

Embora eu saiba de antemão que os arminianos irão me criticar pela minha análise do texto o qual para eles parece bastante óbvio, isso não me impede de mostrar como o interpreto.

Vejamos primeiramente a segunda parte do versículo. O texto diz: “para que todo aquele que nele crê, não pereça, mas tenha a vida eterna.” Isso significa que todo e qualquer homem pode crer livremente? Creio que não. O verso não diz que os incrédulos têm a habilidade por seu próprio livre arbítrio de receber a Cristo. Visto que Deus é o único que nos garante a fé sendo ele o autor e consumador desta (Fp 1.29; Hb 12.2) “todo aquele” se refere àquele a quem Deus garante o ato de crer. 

Mas antevendo a réplica, sabemos que o arminiano crê que a fé é um presente que Deus concede a todos e cabe à pessoa receber ou não, como afirma o próprio Arminius:

“Um homem rico dá esmolas a um pobre e faminto mendigo, com as quais ele poderá ser capaz de manter a si mesmo e à sua família. Isso deixa de ser um presente puro porque o mendigo estendeu sua mão para recebê-la? Pode-se dizer com propriedade que a “esmola dependia parcialmente da liberdade do doador e parcialmente da liberdade do recebedor”, embora o último poderia não ter possuído a esmola a não ser que estendesse a sua mão? Pode se dizer corretamente que porque o mendigo está sempre preparado para receber, “ele pode receber ou não a esmola, como lhe agradar”? Se essas afirmações sobre o mendigo que recebe a esmola não puderem verdadeiramente ser feitas, muito menos podem ser feitas com relação ao dom da fé, cujo recebimento requer muito mais atos da graça divina” 

Na comparação de Armínio é muito difícil imaginar um mendigo não consentindo com um presente tão gracioso. Mas o fato que permanece é que, para receber a esmola, o mendigo, enquanto ainda necessitado, deve estender a sua mão. Ao mesmo tempo, ele estende a sua mão porque ele quer fazer assim. Na comparação de Armínio, o mendigo poderia de modo concebível, ser tão rebelde a ponto de rejeitar a esmola oferecida. Para Armínio, o mendigo possui o poder natural de estender sua mão.

Tudo Isto se harmoniza com atos 13.48 que diz: “Os gentios, ouvindo isto, alegravam-se e glorificavam a palavra do Senhor; e CRERAM todos quantos haviam sido destinados para a vida eterna.” Os arminianos afirmam que aqui nesta passagem, a palavra destinados (ou ordenados) simplesmente significa colocados em ordem ou como Grimm afirma, colocar em uma certa ordem. Ainda que fosse, isso não afetaria a nossa interpretação de que o ato de crer vem após essa ordenação, sendo assim a fé um efeito e não a causa desta. A Bíblia também diz: “Mas vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas” (João 10.26) e não: “Vós não sois das minhas ovelhas porque não credes”. Há uma grande diferença, o que prova que a fé é uma consequência da eleição.

A partir disso, podemos ir agora para a primeira parte do versículo que diz: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu seu filho unigênito”. A questão é: qual significado de mundo na passagem em questão? O arminiano rápida, convencida e categoricamente afirma que o “mundo” significa claramente todo e qualquer indivíduo da terra. Mas vejamos algumas passagens em que a palavra kosmos (mundo) aparece:

Atos 17:24 – “O Deus que fez o mundo e tudo que nele há, sendo Senhor do céu e da terra”. "Kosmos" é usado para definir o Universo como um todo. Também em João 13.1, Ef 1.4 o termo se refere à terra. 

João 12:3: “Agora, é o juízo deste mundo; agora, será expulso o príncipe deste mundo”. A palavra aqui se refere ao sistema mundial (Veja Mateus 4.8).

Romanos 3.19: “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus”. Aqui, “kosmos” se refere a toda à raça humana.

João 15:18: “Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, me aborreceu a mim”. Isso significa a humanidade menos os crentes, já que os crentes não odeiam a Cristo.

Romanos 11:12: “E, se a sua (Israel) queda é a riqueza do mundo, e a sua (Israel) diminuição, a riqueza dos gentios, quanto mais a sua plenitude (de Israel)”. Nesta passagem, “mundo” não se refere a toda humanidade, uma vez que exclui Israel.

João 1:29: No dia seguinte João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. “Mundo”, aqui, define apenas os crentes, visto que nem todos têm o seu pecado perdoado.

Seria o mundo de João 3.16 toda a humanidade incluindo cada pessoa que existe? Vejamos alguns textos: “Quem crê no Filho tem a vida eterna; o que, porém, desobedece ao Filho não verá a vida, mas SOBRE ELE PERMANECE A IRA DE DEUS.” (Jo 3.36); “Os arrogantes não subsistirão diante dos teus olhos; DETESTAS a todos os que praticam a maldade. Destróis aqueles que proferem a mentira; ao sanguinário e ao fraudulento o SENHOR ABOMINA.” (Sl 5.5,6); “Sobre os ímpios FARÁ CHOVER BRASAS de FOGO E ENXOFRE; um vento abrasador será a porção do seu copo.” (Sl 11.6); “E que direis, se Deus, querendo mostrar a sua IRA, e dar a conhecer o seu poder, SUPORTOU COM MUITA PACIÊNCIA OS VASOS DA IRA, preparados para a perdição” (Rm 9.22).

Em contraste com a ira de Deus sobre os ímpios, o Senhor revela o seu amor aos eleitos, aos que creem: “Mas Deus prova o seu amor para CONOSCO em que, quando éramos ainda pecadores, CRISTO MORREU POR NÓS.” – os santos (Rm 5:8); “Porque o Senhor corrige O QUE AMA” – todo filho (Hebreus 12:6). “Nós o amamos porque ele NOS amou primeiro” – os crentes, I João 4:19; Deus “o entregou (Cristo) por todos NÓS” – os crentes (v. 32). João 15:13: "Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida PELOS SEUS AMIGOS.

Diante das passagens expostas, por que João 3.16 tem que, necessariamente, significar toda a humanidade, isto é, todo e qualquer ser humano que existe na terra? Será porque soa mais agradável?

Nesse sentido, creio que a melhor interpretação para João 3.16 é a de que o “mundo” não se refere a cada indivíduo, mas aos eleitos em toda parte do mundo (mais especificamente os gentios crentes espalhados pelo mundo), já que sobre muitos permanece a ira de Deus e nem todos creem. Logo, Deus amou todas essas pessoas A FIM DE que elas creiam nele (com garantia de que isso acontecesse), perseverem e tenham a vida eterna. João escreve confirmando isso: “porque foste morto, e com o teu sangue compraste para Deus HOMENS DE TODA TRIBO, E LÍNGUA, E POVO E NAÇÃO”. (Apocalipse 5.9). Jeremias escreveu: “Há muito que o SENHOR me apareceu, dizendo: Porquanto com amor eterno TE AMEI, POR ISSO com benignidade TE ATRAÍ.” Fica claro aqui, que Deus ama, a fim de nos atrair (pressupondo algo irresistível como um ímã que naturalmente atrai). Deus não nos ama porque previu que nós creríamos em Cristo, mas ele primeiro nos amou e como consequência, aqueles por quem ele morreu inevitavelmente crerão e o amarão também.  

***

Pois, se pela tua comida se entristece teu irmão, já não andas segundo o amor. Não faças perecer por causa da tua comida aquele por quem Cristo morreu. - Romanos 14.15

Por Thomas Magnum - Blog Cristianismo Simples / Electus

 
Não só Olson, mas, outros arminianos utilizam-se desse texto de Paulo aos Romanos para afirmarem que seu pensamento sinergista está correto. O interessante é notar que tais afirmativas não condizem com o texto sagrado. Quando nos prostramos ao contexto da passagem e a harmonia e unidade do ensino na Epístola, podemos assegurar que Paulo não estava defendendo a perca da salvação. O debate aqui gira em torno da palavra grega apóllymi que quer dizer perecer ou destruir, o uso mais comum da palavra no Novo testamento tem o sentido de estar perdido ou destruído, na realidade a aplicação vale-se do sentido ativo de destruir. [1]  

Devemos primeiro compreender que o alvo da advertência de Paulo aqui, não são os irmãos fracos, mas, os fortes que por causa da sua liberdade de consciência violam a liberdade do mais fraco. O texto se refere a tropeços no caminho dos fracos, semelhante advertência encontramos em I Co 8:11. O imperativo "não destruas" implica em graves consequências para os crentes fracos, quando esses são encorajados pelas atitudes dos fortes a transgredir sua própria consciência. A ênfase recai sobre os crentes fortes, por causa do detrimento sofrido aos fracos [2]. Um outro sentido usual da palavra apóllymi é sofrer derrota ou perda [3]. No entanto, a ordem aqui "não destruas" é aos crentes fortes e não aos fracos. O termo aqui não se refere a perca da salvação. A segurança da salvação defendida pelos arminianos depende do indivíduo ou de outra pessoa? Se a salvação ou condenação depende da influência humana temos então outros mediadores, e sei que os arminianos não defendem isso, esse é um fato que deve ser compreendido nessa passagem. A expressão aqui refere-se ao dano espiritual causado a um irmão fraco.  

Ao discorrermos sobre uso de palavras por Paulo em Romanos e em outras epístolas, vemos que Paulo usa a mesma palavra de forma diferente, um exemplo disso é a utilização da palavra "Lei" e "Carne" em Romanos. Alguém que tenha seriedade no estudo exegético da Escritura não negará isso. Outro fato que devemos atentar aqui é que o texto diz que Cristo morreu pelo irmão fraco.
  
No capítulo 8 da Epístola aos Romanos lemos: Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?” - Romanos 8:35. Nas palavras de Jesus também lemos: Eu lhes dou a vida eterna, e nunca jamais hão de perecer, e ninguém as arrebatará da minha mão.” - João 10:28. Aqui temos duas passagem muito importantes para esse assunto, na primeira vemos que nenhuma circunstância pode nos separar de Cristo, e na segunda lemos que ninguém pode separar o eleito de seu Senhor. Prontamente vemos na doutrina da perseverança dos santos a segurança eterna e o Senhorio de Cristo. 

O termo perecer ou destruir não se refere em Romanos 14:15 a apostasia ou perdição eterna, porque no fim do versículo lemos que Cristo morreu pelo crente fraco. Falar aqui da perdição de um crente é violar a palavra do Apóstolo em toda a carta aos Romanos. A leitura da Epístola principalmente nos capítulos de 8 a 11 mostrará a soberana graça de Deus sustentando seus filhos. Vejamos o que diz 2 Coríntios 5:14,15: Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreram. E ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.” Veja que o texto diz que por quem Cristo morreu: pelos eleitos. Eles morreram para o pecado e vivem para Deus. Portanto, esse contexto de Romanos, refere-se a um sério impedimento do crescimento espiritual de uma pessoa.  

E disse: Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos fizerdes como meninos, de modo algum entrareis no reino dos céus. Mas, qualquer que escandalizar um destes pequeninos, que creem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurasse ao pescoço uma mó de azenha, e se submergisse na profundeza do mar. Assim, também, não é vontade de vosso Pai, que está nos céus, que um destes pequeninos se perca.” - Mateus 18.3,6,14. A segurança da salvação é evidenciada abundantemente nas Escrituras Sagradas. 

______________
Notas:
[1] Dicionário de Teologia do Novo Testamento - Gerhard Kittel, Gerhard Friedrich, Geoffrey W. Bromiley, ed. Cultura Cristã. 
[2] Comentário de Romanos- John Murray, ed. Fiel.
[3] Dicionário de Teologia do Novo Testamento - Gerhard Kittel, Gerhard Friedrich, Geoffrey W. Bromiley, ed. Cultura Cristã. 

***

Mas todas as coisas provêm de Deus, que nos reconciliou consigo mesmo por Cristo, e nos confiou o ministério da reconciliação; pois que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens as suas transgressões; e nos encarregou da palavra da reconciliação. - 2 Corintios 5.18,19

Por Denis Monteiro - Bereianos / Teologia & Apologética


Para os arminianos, o versículo 19 está dizendo que Cristo reconciliou “consigo o mundo” e que este mundo, segundo a interpretação deles, é literalmente o universo e tudo quanto nele há. Mas será que mais uma vez eles estão corretos segundo as Escrituras Sagradas? Veremos. 

Paulo, no versículo 14 e 15, diz: “Porque o amor de Cristo nos constrange, julgando nós assim: que, se um morreu por todos, logo todos morreramE ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou.”, ou seja, Paulo está dizendo que Cristo morreu por todos e por estes que Cristo morreu não viverão mais para si mesmos, mas para Cristo. E continuando, o apóstolo diz no vs.17: “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.” Seguindo a ordem da descrição do apóstolo, no vs.15 Paulo diz que a morte de Cristo por “todos” fez que estes “todos” não “vivam mais para si” mas vivam para Cristo, o qual morreu e ressuscitou por eles. E estes que por quem Cristo morreu, eles estão agora em Cristo, porque Cristo morreu por eles, e assim, vivem para Cristo e estes são uma “nova criatura”. Agora quem são estes que por quem Cristo morreu, por que se Cristo morreu por toda a humanidade, como explicam os arminianos, logo toda a humanidade não vive mais para si mesmo mas vivem para Cristo e são também uma nova criatura?

Então, se os arminianos dizem ser este “mundo” descrito em 2Co 5.19 a humanidade inteira, então toda a humanidade não vive mais para si mesmo e sim vive para Cristo e nisto os adeptos da doutrina do universalismo estão certos, que todos no fim serão salvos. Mas o interessante é que o vs.18 faz referência a uma pequena palavra, “nos”, que significa no gramático pronome pessoal da 1.ª pessoa do plural do pronome do caso obliquo, onde se classifica direto. E no verso seguinte Paulo faz referência a um pronome demonstrativo “isto é”, demonstrando que este mundo somos nós, igreja. Veja a comparação: “que nos reconciliou consigo mesmo por Jesus Cristo” / “Isto é, Deus. Então, conclui-se que este “mundo” descrito em 2Co 5.19 somos nós, os quais Cristo reconciliou desde a fundação do mundo, os quais não irão adorar a besta e nem o falso profeta como descrito em Apocalipse: “Todos os habitantes da terra a adorarão, aqueles cujos nomes desde o princípio do mundo não estão escritos no livro da vida do Cordeiro que foi morto.” Apocalipse 13.8, porque os que irão adorar e se perder eternamente são aqueles que por quem Cristo não morreu e nem estavam escritos no livro da vida desde a fundação do mundo. Porque é na morte de Cristo que somos reconciliados, logo os que adorarão a besta são justamente aqueles por quem Cristo não morreu; “A besta que viste era, e já não é, e ela há de subir do abismo e vai-se para a perdição. Os habitantes da terra, cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde o princípio do mundo, se admirarão, vendo a besta que era e que já não é e que virá.” - Apocalipse 17:8 

Mais uma vez, a interpretação arminiana não se enquadra com a Escritura Sagrada. 

***

porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude e que, havendo feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele, reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus. - Colossenses 1.19-20

Por Leonardo Dâmaso - Bereianos / Matérias de Teologia


Paulo ensina em Colossenses 1.19-20 a expiação universal? 

Colossenses 1.19-20 é um dentre os vários textos da Escritura, especialmente do Novo Testamento, que os arminianos utilizam como base para ratificar a expiação universal ou a redenção ilimitada; ou seja, que Jesus não morreu na cruz e ressuscitou para salvar apenas algumas pessoas, mas para possibilitar a salvação de “todos” que creem em Cristo Jesus como Senhor e salvador.

Roger Olson, um dos maiores proponentes do arminianismo hoje, declarou em seu artigo intitulado – O amor de Deus está limitado aos Eleitos? – que, de acordo com Colossenses 1.19-20, é “impossível interpretar todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão no céu (vs.20) como se referindo apenas aos eleitos”. Ele afirma veemente que “esta passagem refuta a expiação limitada”.

Sendo assim, vamos analisar, de forma breve e objetiva, se realmente Colossenses 1.19-20 atesta se a obra redentora de Jesus foi por todas ou somente por algumas pessoas. 

Para que tenhamos uma logre compreensão do tema em pauta, é necessário retornarmos ao contexto imediato – anterior e posterior e trazer à baila alguns pontos importantes. 

Explanação

No capítulo 1 da carta aos Colossenses, podemos observar que Paulo destaca a relação de Jesus com:

(1) A divindade (vs.15)
(2) A criação (vs.16)
(3) A salvação (vs.20-23)
(4) A igreja (vs.18-19)

Desse modo, os versículos 18-19 fazem alusão ao relacionamento de Jesus com a sua igreja. Não obstante, no versículo 19, Paulo explica os versículos 17-18. Em outras palavras, o versículo 19 é a resposta dos versículos 17-18. Paulo esboça que Cristo foi o primeiro a ressuscitar dos mortos, ficando implícita a obra vicária, onde, através disso, os cristãos possam ter seus corpos glorificados e terem a vida eterna. Esta obra singular de Cristo denota que ele tem a proeminência sobre tudo. Ele é soberano sobre toda a sua criação (vs.17-18).

Em suma, Paulo, contudo, realça Cristo como o cabeça (governante) da igreja (vs.18); como a origem da igreja (vs.18b); como aquele que venceu a morte (vs.18c); como aquele que tem o poder supremo sobre todo o universo (vs.18d); como aquele em que reside toda a plenitude (vs.19). No versículo 20 o apóstolo enfatiza a origem da reconciliação, mostrando a necessidade da mesma entre Deus e o homem em virtude do pecado. 

Foi Deus quem tomou a iniciativa da reconciliação, e não o homem. Deus nos reconciliou consigo mesmo por meio de Cristo Jesus (2Cor 5.18). A cruz não moveu o coração de Deus para a reconciliação; antes, a cruz foi o resultado da reconciliação de Deus com os homens pelo seu amor incondicional por eles. O sangue de Jesus não possui fluído ou propriedades salvadoras em si, mas, aqui, remonta a totalidade do sacrifício vicário de Jesus por amor, que é a fonte que emana essa maravilhosa reconciliação. A cruz retrata tanto o amor quanto à justiça de Deus em punir os pecados dos crentes em Jesus, o substituto deles (2Cor 5.21).

No versículo 20, Paulo descreve a extensão da reconciliação em Cristo Jesus, mostrando que a obra a redenção alcança todo o universo. A expressão todas as coisas, quer sobre a terra, quer nos céus, se refere à criação em geral (vs.16). O pecado não atingiu apenas os homens, mas também o universo inteiro (Rm 8.20-22). Jesus, portanto, veio para trazer a redenção dos homens e também da terra. Em breve, na segunda vinda de Cristo, a criação será redimida de sua escravidão (Ef 1.10). Desse modo, todas as coisas abarcam a criação composta tanto de homens, animais e outros seres.

Porém, é importante distinguir que reconciliação universal não é a mesma coisa que redenção universal. Roger Olson não compreendeu esta distinção em seu artigo ao citar este trecho de Colossenses. Paulo não está dizendo aqui que Jesus morreu por todos os homens e, tampouco, ensinando o universalismo. Indubitavelmente ele queria mostrar que nenhuma parte do universo está fora do propósito e da consequência da obra da redenção. Paulo denota que não há nada, nem sequer os demônios podem destruir a igreja. Esta posição tem um paralelo distinto com Romanos 8.38-39 e se harmoniza com o capítulo 2.15 de Colossenses, 2 Pedro 2.4 e Judas 6. Peter T. O'Brien escreve que:

Céus e terra foram restaurados à ordem definida por Deus. O universo está sob o domínio do seu Senhor e a paz cósmica foi restaurada. Reconciliar e “fazer a paz” (que envolve a ideia de trazer a paz; ou seja. vencer o mal) são expressões usadas como sinônimos para descrever a obra poderosa que Cristo realizou na história por meio de sua morte na cruz.

Acerca dos principados e potestades, Peter T. O' Brien diz que eles

... continuam a existir e se opõem a homens e mulheres (veja Rm 8.38,39), mas no fim das contas não podem prejudicar alguém que esteja em Cristo. Sua queda é certa (1Co 15.24-28). Além disso, não se pode deduzir a partir desse versículo que todos os homens e mulheres ímpios aceitaram livremente a paz alcançada pela a morte de Cristo. Mesmo que no final todo joelho se dobre diante de Jesus e o reconheça como Senhor (Fp 2.10,11), não devemos supor que todos ficarão felizes com isso. Sugerir que o v.20 aponta para uma reconciliação universal, na qual todas as pessoas acabarão por desfrutar as bênçãos da salvação, não tem nenhum fundamento.[1]

John macArthur corrobora que uma forma intensificada de reconciliar é usada neste versículo para se referir à total e completa reconciliação dos cristãos e, em última análise, de todas as coisas no universo criado (Rm 8.21; 2Pe 3.10-13; Ap 21.1). Essa passagem não ensina que, como resultado, todos crerão; pelo contrário, ela ensina que, no fim, todos se submeterão.[2] 

Nessa mesma linha de pensamento, William Hendriksen resume:

O pecado arruinou o universo. Ele destruiu a harmonia entre as criaturas e também entre todas elas e seu Deus. No entanto, por meio do sangue da cruz (Ef 2.11-18), o pecado, em princípio, foi vencido. A Demanda da lei foi cumprida, sua maldição destruída (Rm 3.25; Gl 3.13).
Assim também a harmonia foi restaurada. A paz foi estabelecida. Por meio de Cristo e sua cruz o universo é reconduzido ou restaurado ao seu correto relacionamento com Deus no sentido de justa recompensa por sua obediência. Cristo foi exaltado à destra do Pai, e, desta posição de autoridade e poder, governa todo o universo para o bem da Igreja e para a glória de Deus.[3]
  
Conclusão

Paulo não ensina uma redenção ilimitada ou universal em Colossenses 1.19-20 conforme Roger Olson declarou em seu artigo. Esta reconciliação remonta a insofismável verdade descrita nos versículos 13-14, que diz: Ele nos libertou do império das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do seu amor; no qual temos a redenção, a remissão dos pecados. Ou seja, os eleitos de Deus foram reconciliados pela morte de Cristo que os libertou da escravidão do pecado e de Satanás (veja 2.13).

Assim, o relacionamento entre Deus e o homem foi restaurado (2Co 5.17-21); o homem tem agora paz com Deus e a paz de Deus (Rm 5.1); a glorificação dos eleitos em Cristo Jesus espalhados por todo o mundo (Ap 5.9) está assegurada (Rm 8.18-21) e, finalmente, a restauração da criação, que se dará na segunda vinda de Cristo.    

______________
Notas:
[1] Comentário Bíblico Vida Nova. D.A Carson, R.T France, J.A. Motyer, G.J. Wenham. Vida Nova, pág 1904-1905.
[2] Bíblia de Estudo MacArthur. Notas de Rodapé, pág 1628.
[3] William Hendriksen. 1, 2 Tessalonicenses; Colossenses e Filemon. Cultura Cristã, pág 343-344.

***

Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem, o qual se deu a si mesmo em resgate por todos, para servir de testemunho a seu tempo” 1Timóteo 2.5,6 

Por Thiago Oliveira - Blog Cristianismo Simples / Electus


Alguns teólogos arminianos, como o Roger E. Olson, tem citado essa passagem com o intuito de refutar a bíblica doutrina da expiação limitada (indico a leitura de “Por Quem Cristo Morreu?” do puritano John Owen, disponível na internet em PDF). Outro expoente seguidor de Armínio, Vernon Grounds, disse que é necessário uma “ingenuidade exegética, beirando o sofisma” para que se negue a universalidade presente nesse texto de Paulo à Timóteo. No entanto, veremos que um exame diligente (e não ingênuo) das Escrituras não nos deixam nenhuma dúvida de que o apóstolo Paulo nem aqui e nem em nenhum outro lugar na Bíblia está defendendo a expiação universal.

Observando o princípio hermenêutico de que as Escrituras se interpretam entre si, vamos analisar não apenas 1 Timóteo 2, mas também outros escritos paulinos. Basta compreendermos que o temo “todos” aqui empregado não se reporta a indivíduos, e que esta palavra está dentro do contexto de que o presbítero de Éfeso deveria no culto público interceder em favor de todas as classes de homens, incluindo os reis e os que estão em eminência (v.2). Calvino, em seu comentário, nos lembra de que os magistrados nessa época eram os mais severos inimigos de Cristo. Mesmo assim a ordem apostólica é de que devemos orar também por estes perseguidores da igreja. Quando Paulo diz que o desejo de Deus é “que todos os homens se salvem” fica evidente que ele se refere a classe e não a totalidade de indivíduos na Terra.

Ao afirmar que Deus deseja que homens de cada posição social, nacionalidade ou gênero sejam salvos está corroborando com a ideia de que há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, a saber: Jesus Cristo (v.5). A ideia de Jesus como mediador de uma nova aliança quebra as barreiras nacionalistas do judeu e também esmaga o elitismo da cosmovisão grega. O termo “todos” é uma referência óbvia aos gentios, objeto do ministério paulino (v.7). Quanto a isso, Paulo interpreta a si mesmo em outras cartas (Rm 3:29,1 Co 12: 13, Cl 3:28). 

O universalismo da expiação não compreende a cada indivíduo. Afirmar isso apenas porque a expressão “todos” existe no texto é a verdadeira ingenuidade. Seria como dizer que uma reunião só começaria quando cada habitante do planeta chegasse, pois o chefe teria dito que só começaria quando “todos” estivessem presentes. Paulo está falando da abolição de classes que a mediação única de Cristo “dando a Si mesmo como preço da redenção” (v.6) produziu. Não existem vários mediadores e deuses competindo pela adoração da humanidade. Se antes, os demais povos estavam longe, separados da comunidade de Israel, com a mediação de Cristo Jesus fomos unidos aos membros da aliança:

Porque ele é a nossa paz, o qual de ambos os povos fez um; e, derrubando a parede de separação que estava no meio, na sua carne desfez a inimizade, isto é, a lei dos mandamentos, que consistia em ordenanças, para criar em si mesmo dos dois um novo homem, fazendo a paz. E pela cruz reconciliar ambos com Deus em um corpo, matando com ela as inimizades. E, vindo, ele evangelizou a paz, a vós que estáveis longe, e aos que estavam perto; Porque por ele ambos temos acesso ao Pai em um mesmo Espírito.” - Efésios 2:14-18

Apoiando a teologia Paulina, temos Pedro que escreve a sua epístola aos “aos eleitos de Deus, peregrinos dispersos no Ponto, na Galácia, na Capadócia, na província da Ásia e na Bitínia”, dirigindo-se a todas as regiões gentílicas onde o Evangelho havia sido difundido e onde os eleitos de todos os povos poderiam ser encontrados. Estes são as “pedras vivas na edificação de uma casa espiritual” por meio (ou seja, mediação) de Jesus Cristo (1Pe 2: 5), fazendo povo de Deus aqueles que nem sequer eram povo e nem sequer haviam recebido misericórdia (1Pe 2:10). De igual modo, o apóstolo João, ao receber a revelação daquele que poderia abrir o livro da vida, relata que o canto que ecoava no céu era o seguinte:

Tu és digno de receber o livro e de abrir os seus selos, pois foste morto, e com teu sangue compraste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação”. Apocalipse 5:9

______________
Referências Bibliográficas:
1. BARCLEY, William. Comentário do Novo Testamento.E-Book.
2. CALVINO, João. Pastorais. Ed Fiel.
3. HENDRIKSEN , William. Comentário do Novo Testamento. Ed. Cultura Cristã.
4. KELLY, J.N.D. 1 e 2 Timóteo e Tito: Introdução e Comentário. Ed. Vida Nova.

***

E ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo. - 1 João 2.2

Por Manoel Pacheco


Com muita frequência ouvimos da parte daqueles que defendem a expiação ilimitada, mas precisamente os arminianos, que essa doutrina é claramente ensinada em 1 Jo 2.2. Mas será que eles estão certos? 1 Jo 2.2 defende mesmo a expiação ilimitada? Meu propósito neste breve artigo é demonstrar que os arminianos estão equivocados e que antes de corroborar uma expiação ilimitada, 1 Jo 2.2 ensina que Cristo de fato efetuou propiciação pelos pecados dos Filhos de Deus espalhados por todas as nações do mundo.   

O que significa propiciação? No hebraico do Antigo Testamento seu sentido é expresso pela palavra “cobrir”.  Ligada a essa cobertura há, em particular, três coisas que se deve notar: (1) é com referência ao pecado que a cobertura tem lugar; (2) o efeito dessa cobertura é purificar e perdoar; (3) é diante do Senhor que tanto a cobertura como o seu efeito têm lugar. [...] Propiciar significa ‘aplacar’, ‘pacificar’, ‘apaziguar’, ‘conciliar’. E é essa ideia que é aplicada à expiação realizada por cristo. Propiciação pressupõe a ira e o desprazer de Deus, e o propósito dela é a remoção desse desprazer. Exposta muito simplesmente, a doutrina  da propiciação significa que cristo propiciou a ira de Deus e tornou Deus propício a seu povo” [1]

Diante da definição supra citada fica evidente que Cristo na cruz aplacou a Ira Santa de Deus contra pecadores. Isso leva-nos a pensar, se Cristo aplacou a Ira de Deus contra os pecados de todos os indivíduos do mundo isso significa que Deus não está irado com nenhum homem e por isso nenhum indivíduo da raça humana irá ao inferno, pois ir para o inferno significa padecer debaixo da Ira Santa de Deus. Mas como alguém irá sofrer debaixo da Ira de Deus se Cristo na Cruz já aplacou a Ira de Deus contra todos os indivíduos do mundo?

Mas, e a frase do versículo 2 que diz que Cristo é a propiciação pelos pecados do “mundo inteiro”? Analisarei essa expressão.

Quero que você por um momento reflita sobre o texto de 1 Jo 2.2 a luz do versículo que se encontra em Jo 11: 51 e 52 que diz: 

Mas ele não disse isso por si mesmo; pelo contrário, sendo sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus iria MORRER pela nação, e NÃO SOMENTE pela nação, mas TAMBÉM para reunir como um só povo os FILHOS DE DEUS que estão DISPERSOS”   

Cruzando 1 Jo: 2.2 com Jo 11: 51 e 52, não nos dá uma grande probabilidade de que a expressão “mundo inteiro” significa não todos os indivíduos do mundo mas significa todos os FILHOS DE DEUS que estão dispersos por todas as nações do mundo? Para corroborar essa ideia quero citar Ap 5:9 que diz:

E cantavam um cântico novo, dizendo: Tu és digno de tomar o livro e de abrir seus selos, porque foste morto, e com teu sangue compraste para Deus homens de TODA TRIBO, LÍNGUA, POVO E NAÇÃO.

Diante de tais versículos não me resta nenhuma dúvida a não ser a certeza de que Cristo na cruz aplacou a Ira de Deus contra os eleitos que estão dispersos por todas as nações da terra. Mas para não ficar nas minhas palavras quero citar alguns teólogos de renome que sustentam a mesma posição que eu.  

O Rev. Hernandes Dias Lopes, no seu comentário bíblico, na pág 89 diz:

O que João está ensinando certamente não é o universalismo. O sacrifício de Cristo alcança todo o mundo em extensão, no sentido de que ele morreu para comprar para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação, mas não todo o indivíduo indistintamente de cada tribo, língua, povo e nação. É todo o mundo sem acepção, mas não todo o mundo sem exceção” [2]

O Rev. Augustus Nicodemus diz: 

Essa declaração de João parece contradizer outros textos bíblicos que declaram que Cristo morreu com o propósito de pagar os pecados somente do seu povo. Fica difícil entender que João está ensinando aqui (2.2) que Cristo pagou efetivamente os pecados de cada homem e mulher que já existiram. Isto significa três coisas: 1) Que Cristo sofreu e morreu em vão por milhares de pecadores que irão sofrer eternamente no inferno; 2) Que a pena paga por Cristo no lugar deles não foi válida, pois os perdidos pagarão outra vez essa pena, sofrendo eternamente; 3) O sacrifício de Cristo apenas torna possível a toda e qualquer pessoa salvar-se, mas não assegura a salvação de ninguém.

Em outros escritos de João, porém, está claro que Jesus veio dar a sua vida somente para os seus. Aqueles pelos quais Jesus sofreu e morreu são chamados de: [...] minhas ovelhas” (Jo 10.11,15,26-30) e “[...] meus amigos” (Jo 15.13); é por eles, e não pelo mundo, que Jesus roga ao Pai (Jo 17.9-20). Esse conceito se percebe também em outras partes do Novo Testamento: Jesus veio salvar “[...] o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21); o que Deus comprou com seu sangue foi a sua Igreja (At 20.28), pois Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela (Ef 5.25)” [3]

A Luz de toda a Bíblia fica claro que Cristo veio, não possibilitar, mas assegurar a salvação e aplacar a Ira de Deus contra os pecados dos eleitos que estão espalhados por todas as nações. Aqueles que insistem em dizer que 1 Jo 2.2 ensina uma expiação ilimitada só demonstram o quanto são obstinados. 
  
Que Deus nos abençoe e nos guarde. Que o Santo Espírito sempre ilumine a nossa mente para que entendamos e aceitemos as verdades bíblicas.

______________
Notas:
[1] Fundamentos da Graça; Steven Lawson; pág. 738
[2] Hernandes Dias Lopes; Comentário Bíblico; pág. 89
[3] Augustus Nicodemus Lopes, Primeira Carta de João, pág. 47

***

Amados, amemo-nos uns aos outros, porque o amor é de Deus; e todo o que ama é nascido de Deus e conhece a Deus. - 1 João 4.7

Por Denis Monteiro - Bereianos / Teologia & Apologética


Roger Olson argumenta sua doutrina pífia baseando-se no argumento de que Deus é amor. Sim, Deus é amor. 

Roger diz: “Se Deus é amor (1 João 4.7), mas intencionou a morte expiatória de Cristo para ser uma propiciação para apenas certas pessoas de sorte que apenas elas têm chance de serem salvas, então “amor” não possui nenhum significado inteligível quando se refere a Deus.

Resposta: Bom, se for tratar de “propiciação” como explicar a morte do cordeiro no Antigo Testamento o qual era somente para o povo escolhido, Israel? Se Deus ama todo o mundo, por que o cordeiro morto não era pelas outras nações, as quais eram abominações diante de Deus? Será que o Deus do Antigo Testamento é diferente do Deus do Novo Testamento, como pregava Marcião? Seria estranho pensar em tal coisa quando o mesmo Deus diz: “Pois eu, o Senhor, não mudo (...)” (Malaquias 3.6). Roger diz também que se pensarmos na expiação limitada e no amor de Deus este “amor não possui nenhum significado inteligível quando se refere a Deus”. Pois bem, após a Queda do Homem onde está escrito que Deus TINHA que amar a todos indistintamente? O que eu vejo desde Gn 3.15 é Deus já determinando o decorrer da História para que se chegasse na “plenitude dos tempos”. Deus em Gn 3.15 fala da semente da mulher e da semente da serpente, uma “guerra” que seria travada ao longo da história até Cristo por abaixo, com poder e glória, o Diabo. Vemos Deus falando a Abraão que Isaque era o filho da promessa e não Ismael. Vemos João Batista falando que os fariseus e saduceus eram “raça de víbora” (Mt 3.7), e esse termo “raça de víbora” faz referência à linhagem deles como Jesus mostra em João 8.44: “Vós tendes por pai o Diabo”. 

Roger diz: “Mas os que acreditam na expiação limitada devem interpretar o amor de Deus como algo compatível com Deus incondicionalmente selecionando algumas pessoas para o tormento eterno no inferno quando Ele poderia salvá-las (pois a eleição para a salvação e, por conseguinte, a própria salvação é incondicional). Não há nenhuma analogia na existência humana para este tipo de comportamento que é considerado como amoroso. Nós jamais consideraríamos alguém que poderia salvar pessoas que estavam prestes a se afogar, por exemplo, mas que se recusa a fazê-lo, mas que salva apenas algumas como amorosa. Consideraríamos tal pessoa maldosa, mesmo se as pessoas salvas apreciassem o que a pessoa fez para com elas.” 

Resposta: O Olson faz uma afirmação que, entendo eu, nem ele mesmo percebeu. Ele diz que o amor de Deus, considerando na interpretação calvinista, é incompatível com a eleição incondicional. Bom, o amor de Deus é incondicional, João diz que “nós amamos a Deus porque ele nos amou primeiro” (1 Jo 4.19 – acréscimo do autor), Paulo diz que “em amor nos predestinou (...) gratuitamente no Amado” (Ef 1.5,6 – acréscimo do autor). O amor de Deus é o motor da predestinação (eleição), e não baseando-se em obras, mas como Paulo diz: gratuitamente (Ef 1.6). Segundo, Deus não enviará pessoas ao inferno incondicionalmente. Deus lançará pessoas ao inferno porque elas merecem assim como nós também merecíamos. Mas Cristo pagou o preço de nossos pecados na cruz. Se Cristo pagou o pecado de toda a humanidade, logo, Deus não poderá condenar o mesmo pecado duas vezes. Pois se houver tal afirmativa, logo, estará declarando que a morte de Cristo não foi eficaz para pagar os pecados e assim o pecador será condenado por aquilo que Cristo não conseguiu pagar. O que é uma blasfêmia. 

Roger usa o argumento do afogamento. Uma pessoa está se afogando e Deus não quer salvá-la, logo, Deus tendo condições e não querendo salvá-la Deus seria maldoso em escolher quem Ele quer salvar. Bom, primeiro: Qual pecador, sem Deus agir em seu coração, entende que seu fim é o inferno? Sem a iluminação do Espírito Santo o pecador não sabe que está se afogando, pois para o pecador tal situação é prazerosa – ele ama o mundo, o qual é inimigo de Deus. Segundo, imaginemos: Deus, tendo todo poder, vai salvar quem está se afogando e a pessoa que está se afogando não quer ser salva. Por que Deus, sendo o todo poderoso, não foi contra a vontade de quem estava se afogando? Pois se Deus o ama Seu amor e poder é maior que a vontade daquele que está morrendo. E se Deus se priva de seu poder para que a vontade daquele que está se afogando prevaleça, como encarar esse Deus que diz: eu me rirei no dia da vossa calamidade; zombarei, quando sobrevier o vosso terror.” (Pv 1.26)? Que ato seria mais amoroso, Deus usar toda sua força para salvar aquele que se perde, ou se privar de Seu poder para que a vontade daquele que se perde prevaleça e Deus fique olhando? 

Roger diz: “A expiação limitada torna o evangelismo indiscriminado impossível.  Uma pessoa que acredita na expiação limitada jamais pode dizer aleatoriamente a uma pessoa ou grupo: “Deus te ama e Cristo morreu pelos seus pecados e os meus; você pode ser salvo”.

Resposta: Se Deus já sabe quem serão os salvos, por causa da eleição pela presciência de fé, por que evangelizar o mundo inteiro sendo que Deus já sabe quem aceitará e não aceitará? A expiação limitada, assim como a Eleição Soberana, não implica na evangelização. Mas nos dá a garantia de que haverá convertidos para a glória de Deus. Pois a Bíblia não diz, em lugar nenhum, que a morte de Cristo é a possibilidade de alguém ser salvo. Porque se Cristo morre por todo o mundo, então o falso profeta e a prostituta (o qual Apocalipse mostra eles condenados) terão a chance serem salvos mudando aquilo que Deus revelou a João. Mas a Bíblia mostra que a expiação é definida e não hipotética, ela mostra que Jesus é o cordeiro de Deus que “tira” (Jo 1.29) e não que está tirando, a Bíblia mostra que Jesus “comprou” (1Pe 1.17,18) e não que está comprando, onde o autor de Hebreus nos diz que Cristo obteve “eterna redenção” (Hb 9.12). 

Sendo assim, podemos concluir essa parte dizendo que Deus manda pregar em todo mundo, pois Ele já tem os seus: E de noite disse o Senhor em visão a Paulo: Não temas, mas fala e não te cales; porque eu estou contigo e ninguém te acometerá para te fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade.” (Atos 18.9,10 – ênfase do autor). 

Outra questão a ser definida é: Qual apóstolo, pregando para alguma multidão, disse que Deus amava todo mundo? Mas como o Roger começa sua queda com 1º João 4.7, vamos analisar. João começa fazendo a distinção de quem é de Deus e que não é de Deus. João mostra que quem é de Deus confessa que Jesus veio em carne e quem não é de Deus não confessa que Jesus veio em carne (1Jo 4.2,3). João diz que quem conhece a Deus nos ouve e quem não conhece (e entenda isso como um hebraísmo, pois é um judeu que está falando e o assunto do capitulo é o amor, logo, o termo conhecer era como o judeu via: uma relação amorosa (cf. Am 3.2) não nos ouve. Praticamente a mesma coisa que Jesus diz aos fariseus: Se Deus fosse o vosso Pai, vós me amaríeis, porque eu saí e vim de Deus; pois não vim de mim mesmo, mas ele me enviou (...) Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; por isso vós não as ouvis, porque não sois de Deus.” (Jo 8.42,47).

Agora, se toda a humanidade é amada por Deus, como ficará no dia do Juízo? João nos diz que: Nisto é aperfeiçoado em nós o amor, para que no dia do juízo tenhamos confiança; porque, qual ele é, somos também nós neste mundo. No amor não há medo antes o perfeito amor lança fora o medo; porque o medo envolve castigo; e quem tem medo não está aperfeiçoado no amor.” (1 Jo 4.17,18). Ou seja, se Deus ama a todos os pecadores, logo, não poderá condená-los. Pois o amor é a confiança de que não serão condenados, mas como pode haver condenação se Deus ama a todos? Paulo nos diz que o amor de Deus está derramado em nós por intermédio do Espírito Santo. Então se toda a humanidade é amada por Deus, logo, o Espírito Santo está em cada pecador não convertido. Seguir tal lógica, como o Olson mostra, é pífia. A Bíblia mostra que Deus ama os que guardam Seus mandamentos (Jo 14.21), que o amor de Deus não está naquele que ama o mundo (1Jo 2.15) e quem ama o mundo é inimigo de Deus (Tg 4.4). 

***
Divulgação: Bereianos